Vídeo que sugere relação de Lula com tráfico no Alemão é falso

Há vida ali para além do tráfico de drogas
Pesquisador da UFF sobre a realidade do Complexo do Alemão além da narrativa de crime organizado.
Mark

Por que um vídeo assim consegue circular tanto? Quase 130 mil visualizações é bastante gente.

Mimi

Porque toca em medos reais — segurança, crime organizado, política. E porque foi publicado por um deputado eleito, alguém com credibilidade aparente. As pessoas veem e pensam: se um parlamentar está dizendo, deve ser verdade.

Luke

Mas a gente precisa ser claro: o vídeo usou imagens de outro evento, de outro lugar, de outro horário. Não é só uma interpretação diferente dos fatos — é literalmente material de um comício em Belford Roxo, à noite, apresentado como sendo do Complexo do Alemão de manhã.

Mark

E quanto à segurança? Lula realmente estava desprotegido?

Mimi

Não. Havia 30 policiais federais, delegados da PF no carro de som, Polícia Militar, Guarda Municipal. Tudo documentado, tudo verificável.

Luke

Embora a campanha não tenha respondido sobre os detalhes, e a PF não divulga informações operacionais. Então há um limite ao que conseguimos confirmar diretamente. Mas o que sabemos é que havia presença policial clara.

Mark

E a história de que o tráfico estava coagindo as pessoas a votar em Lula?

Mimi

Nenhum órgão oficial — nem o Ministério Público Eleitoral, nem a Polícia Civil — registrou denúncia disso. É uma acusação grave que não tem base em nenhuma investigação formal.

Luke

Vale notar que a Polícia Civil não respondeu à reportagem. Então tecnicamente não sabemos se investigaram ou não. Mas o Ministério Público Eleitoral foi claro: nenhum incidente registrado.

Mark

O que o especialista em favelas disse?

Mimi

Que Lula foi convidado por moradores, associações, lideranças comunitárias. Que há vida nas favelas para além do tráfico — grupos de assistência, movimentos sociais. O Complexo do Alemão não é só crime.

Luke

Isso é importante porque o vídeo reduz o lugar a uma coisa só. Mas a realidade é mais complexa.

  • Um vídeo com 129 mil visualizações acusava Lula de caminhar sem segurança em área dominada pelo Comando Vermelho, sugerindo cumplicidade com o tráfico.
  • A narrativa se espalhou rapidamente pelo YouTube e pela rede Gettr, amplificada por um deputado federal eleito, atingindo milhares de pessoas nos dias finais da campanha.
  • A investigação do Comprova desmontou cada alegação: 30 policiais federais, equipes da PM e 19 guardas municipais estavam presentes na caminhada de 750 metros.
  • As imagens de suposta coação eleitoral exibidas no vídeo eram de outro evento, em Belford Roxo, ocorrido na noite anterior — não do Complexo do Alemão.
  • Nenhum órgão oficial — nem o Ministério Público Eleitoral nem a Ouvidoria do MP do Rio — registrou qualquer denúncia de coação eleitoral na região.
  • O deputado Gayer não respondeu aos pedidos de comentário, e o vídeo permaneceu no ar com alcance significativo mesmo após a verificação concluir que o conteúdo era deliberadamente falso.

Em plena campanha presidencial de 2022, a circulação de um vídeo com acusações graves contra Luiz Inácio Lula da Silva revelou como narrativas fabricadas podem distorcer a percepção pública de eventos reais. A caminhada de Lula no Complexo do Alemão, em 12 de outubro, foi acompanhada por dezenas de agentes de segurança e ocorreu em território com presença policial permanente — fatos que o vídeo do deputado Gustavo Gayer ignorou deliberadamente. O episódio nos lembra que, em tempos de eleição, a desinformação não é apenas um erro factual: é um instrumento político com consequências para a democracia.

No dia 12 de outubro de 2022, Lula percorreu 750 metros pelas ruas do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em um evento de campanha que se estendeu da manhã até o início da tarde. Dias depois, o deputado federal eleito Gustavo Gayer, do PL de Goiás, publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que Lula havia entrado no território sem segurança, em área onde a polícia não teria acesso, supostamente sob proteção do Comando Vermelho. O vídeo insinuava ainda que traficantes estariam coagindo moradores a votar no candidato petista, e chegou a 129 mil visualizações no YouTube.

A investigação de verificação de fatos desfez a narrativa ponto a ponto. A caminhada contou com 30 policiais federais, dois delegados da PF no carro de som, equipes da Polícia Militar e 19 guardas municipais operando bloqueios viários. A segurança de candidatos à Presidência pela Polícia Federal é garantida por lei. O argumento de que a polícia não teria acesso ao local também não se sustenta: o Complexo do Alemão possui quatro Unidades de Polícia Pacificadora, e a sede da UPP Alemão fica a apenas 500 metros da Estrada do Itararé, onde Lula caminhou.

As imagens de pessoas alegando coação eleitoral, exibidas no vídeo de Gayer, foram gravadas à noite — enquanto a caminhada ocorreu de manhã. Outras contas nas redes sociais identificaram as mesmas cenas como sendo de um ato em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, realizado na véspera. A Prefeitura de Belford Roxo negou qualquer prática de coação.

Pesquisadores e lideranças comunitárias, como Renê Silva, fundador do jornal Voz das Comunidades, reforçaram que Lula foi convidado por moradores, associações e movimentos sociais — e que grupos armados não são os únicos a definir quem entra ou não em uma favela. Nenhuma denúncia de coação eleitoral foi registrada pelo Ministério Público Eleitoral ou pela Ouvidoria do MP do Rio. O deputado Gayer não respondeu às tentativas de contato, e o vídeo permaneceu no ar mesmo após a conclusão de que seu conteúdo era deliberadamente distorcido.

No dia 12 de outubro de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva caminhou pelas ruas do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em um evento de campanha que durou da manhã até o início da tarde. Dias depois, um vídeo publicado pelo deputado federal eleito Gustavo Gayer, do PL de Goiás, começou a circular nas redes sociais com uma acusação grave: que Lula havia entrado naquele território sem segurança, em uma área onde a polícia não teria acesso, supostamente sob proteção ou autorização da facção criminosa Comando Vermelho. O vídeo sugeria que o tráfico estaria coagindo moradores a votarem no candidato petista. A publicação alcançou 129 mil visualizações no YouTube, 36 mil curtidas e quase 2.200 comentários até o final de outubro. Circulou também na rede social Gettr, fundada por um ex-assessor de Donald Trump.

Mas a investigação de verificação de fatos revelou que a narrativa do vídeo era inteiramente falsa. A caminhada de Lula na Estrada do Itararé, que percorreu 750 metros entre a esquina da Rua Engenheiro Efren Dantas e a Rua Paranhos, contou com segurança robusta: 30 policiais federais reforçaram a proteção do candidato, com dois delegados da Polícia Federal — Alexsander Castro Oliveira, chefe operacional da segurança de Lula durante a campanha, e Andrei Augusto Passos Rodrigues, coordenador da segurança — presentes no carro de som. Além deles, equipes da Polícia Militar do Rio de Janeiro estavam no local, assim como 19 guardas municipais da Subdiretoria Técnica de Trânsito, que operavam bloqueios viários. A segurança pessoal exercida pela Polícia Federal é direito garantido aos candidatos à Presidência pela legislação federal.

O argumento central do vídeo — que a polícia não teria acesso àquela área — também não se sustenta. O Complexo do Alemão, um bairro criado em 1993 que abriga aproximadamente 70 mil habitantes segundo o censo de 2010, conta com quatro Unidades de Polícia Pacificadora: Fazendinha, Nova Brasília, Alemão e Adeus/Baiana. A sede da UPP Alemão fica a apenas 500 metros a pé da Estrada do Itararé, onde transcorreu a caminhada. A Polícia Militar publica regularmente registros de patrulhamentos na região — em julho daquele ano, havia postado no Twitter que policiais da UPP Alemão estavam presentes justamente naquela via. Operações policiais ocorrem cotidianamente no complexo.

O vídeo de Gayer exibia imagens de pessoas que afirmavam ter sido obrigadas a participar do comício, algumas dizendo que trabalhavam na Secretaria de Serviços Públicos e haviam sido coagidas pelo secretário Christiano Miranda Pontes. Porém, essas cenas foram gravadas à noite, enquanto a caminhada de Lula aconteceu pela manhã. Outras contas nas redes sociais que publicaram as mesmas imagens no dia 12 de outubro identificaram-nas como sendo de um ato em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, realizado na noite anterior. A Prefeitura de Belford Roxo negou a prática de coação eleitoral, afirmando que a administração municipal respeita o direito democrático de cada pessoa escolher livremente seu candidato.

Quanto à alegação de coação eleitoral por traficantes no Complexo do Alemão, nenhum órgão oficial registrou denúncias nesse sentido. A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro informou que não houve registro de incidentes na região, e a Ouvidoria do Ministério Público do Rio de Janeiro não recebeu nenhuma denúncia sobre o assunto. Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, ressaltou em entrevista que não apenas grupos armados definem quem entra ou não em uma favela. Segundo ele, Lula foi convidado por moradores, associações e lideranças comunitárias — havia outras formas de dignidade e pertencimento além do tráfico, com muitos grupos de assistência e movimentos sociais atuando no Alemão. A última vez que Lula havia estado no complexo foi em 2008, quando era presidente, para inaugurar obras do Programa de Aceleração do Crescimento.

O vídeo de Gayer foi publicado na Gettr e no YouTube, plataformas onde permaneceu com alcance significativo. O deputado não respondeu às tentativas de contato para comentar a investigação. O vídeo da caminhada publicado pela campanha de Lula foi posteriormente removido do ar, mas a razão da retirada não foi esclarecida pela campanha ou pela Justiça Eleitoral. A investigação do Comprova, que verificou o conteúdo através de pesquisa em redes sociais, entrevistas com lideranças comunitárias como Renê Silva (fundador do jornal Voz das Comunidades), análise de registros da Polícia Militar, consultas aos órgãos de segurança e ao Ministério Público, concluiu que o vídeo continha informações inventadas ou deliberadamente distorcidas para espalhar uma falsidade sobre o candidato petista.

Lula foi convidado por moradores, associações, lideranças. Há outras formas de dignidade e de pertencimento para além do tráfico.
— Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense
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