Vídeo de prédios desabando é simulação de videogame, não terremoto na Venezuela

Terremoto na Venezuela causou 1.943 mortos e mais de 10 mil feridos, com desinformação prejudicando resposta humanitária e compreensão pública da tragédia.
Ficção apresentada como fato durante emergência tem custo humano
Desinformação sobre o terremoto na Venezuela prejudicava respostas humanitárias e compreensão pública da tragédia real.

Vídeo mostra dois prédios desabando e colidindo com carros de polícia, compartilhado com hashtags #PrayForVenezuela em plataformas como Facebook, X, Instagram, TikTok e YouTube. Conteúdo é simulação do jogo Teardown publicada originalmente no YouTube em outubro de 2023, três anos antes da tragédia, conforme verificado por busca reversa de imagens.

  • Vídeo de simulação do jogo Teardown publicado em YouTube em 2 de outubro de 2023
  • Terremoto na Venezuela deixou 1.943 mortos e mais de 10 mil feridos
  • Conteúdo falso viralizou em Facebook, X, Instagram, TikTok e YouTube no dia seguinte ao terremoto

Simulação de demolição do videogame Teardown viraliza nas redes sociais como registro autêntico de terremoto na Venezuela que matou milhares. G1 identifica conteúdo como falso através de verificação de origem.

Nos dias que se seguiram a um terremoto devastador na Venezuela, um vídeo começou a circular pelas redes sociais. Mostrava dois prédios lado a lado tremendo violentamente, depois desabando um sobre o outro, seus escombros atingindo três viaturas de polícia estacionadas abaixo. As legendas eram apelativas: "Um terremoto poderoso deixou um rastro de devastação por toda a Venezuela", dizia uma. Outra pedia orações: "#PrayForVenezuela". O conteúdo se espalhou por Facebook, X, Instagram, TikTok e YouTube no dia seguinte ao tremor que havia deixado 1.943 mortos e mais de 10 mil feridos.

Mas o vídeo não era o que parecia ser. Não era um registro de câmera de segurança, não era jornalismo de rua, não era documentação de uma tragédia real. Era uma simulação criada dentro de um videogame chamado Teardown, um jogo de demolição onde o jogador controla o proprietário de uma empresa de demolição endividada. O ambiente do jogo é totalmente destrutível — o jogador pode derrubar construções, criar explosões, simular colapsos estruturais. Alguém havia gravado uma dessas simulações e a compartilhado no YouTube em 2 de outubro de 2023, três anos antes do terremoto.

A equipe de verificação de fatos do G1 rastreou a origem usando ferramentas de análise de vídeo. Fragmentaram o material em frames estáticos, selecionaram uma imagem e fizeram uma busca reversa no Google Lens. O resultado apontou direto para o vídeo original no YouTube, postado pelo mesmo perfil que costuma publicar simulações similares do jogo Teardown. Na descrição original, em inglês, o autor havia escrito: "As duas torres desabam! (Simulação de terremoto em 'Teardown')". Não havia ambiguidade. Não havia dúvida.

O que torna esse episódio particularmente preocupante é o timing e a escala. O vídeo viralizou no momento exato em que a tragédia era notícia global, quando as pessoas estavam buscando informações sobre o que havia acontecido, quando a atenção estava voltada para a Venezuela. Naquele contexto de urgência e incerteza, uma imagem que parecia mostrar a destruição em tempo real — mesmo que fosse ficção — encontrou solo fértil. As plataformas de rede social, com seus algoritmos que priorizam engajamento sobre precisão, amplificaram a mentira.

Até o momento da publicação desta reportagem, o terremoto havia deixado 1.943 mortos e mais de 10 mil feridos. A desinformação não apenas distorcia a compreensão pública do que havia acontecido; ela também prejudicava a resposta humanitária, desviando atenção de informações precisas sobre onde ajuda era necessária, como as pessoas podiam contribuir, qual era a verdadeira extensão da crise. Quando ficção é apresentada como fato durante uma emergência, o custo não é apenas reputacional. É humano.

As duas torres desabam! (Simulação de terremoto em 'Teardown')
— Descrição original do vídeo no YouTube, 2 de outubro de 2023
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um vídeo de um videogame consegue se passar por documentação de um terremoto real?

Model

Porque em uma crise, as pessoas estão procurando por evidência visual. Quando algo parece mostrar destruição em larga escala, e aparece com hashtags de oração e urgência, o cérebro não questiona. A forma parece correta.

Inventor

Mas o vídeo tem qualidade de jogo, não é?

Model

Sim, mas Teardown é um jogo com gráficos relativamente realistas para simulação. E quando você vê apenas um trecho, sem contexto, sem a interface do jogo visível, é mais fácil enganar. Além disso, as redes sociais cortam e recompartilham — o vídeo original perde metadados, perde contexto.

Inventor

Como vocês descobriram que era falso?

Model

Ferramentas de busca reversa de imagem. Pegamos frames do vídeo e procuramos por ele na internet. Ele apareceu no YouTube de 2023, com o autor dizendo explicitamente que era uma simulação do Teardown. Três anos antes do terremoto.

Inventor

E o criador original sabia que seu vídeo seria usado assim?

Model

Improvável. Ele estava apenas compartilhando simulações de um jogo que gosta. Mas uma vez que algo está na internet, qualquer um pode pegar, remover a legenda original, adicionar uma nova, e compartilhar como verdade.

Inventor

Qual é o dano real de algo assim?

Model

Durante uma crise humanitária, a desinformação desvia recursos e atenção. As pessoas compartilham o vídeo falso em vez de informações sobre como ajudar. Jornalistas gastam tempo verificando boatos em vez de cobrir a resposta real. E a confiança nas instituições de informação enfraquece.

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