Vídeo viral de ciclista pedalando em canal seco foi filmado no Cinturão das Águas do Ceará em fevereiro de 2023, não na transposição do Rio São Francisco. Governo Lula não desligou bombas da transposição; fornecimento é sob demanda conforme planos operativos anuais dos estados, e última vazão foi em novembro de 2022.
Vídeo de ciclista em canal vazio não mostra transposição do São Francisco
O pessoal pega e não diz as coisas direito
Como é que um vídeo de um ciclista em um canal seco vira acusação de que o presidente cortou água para o Nordeste?
O vídeo original era legítimo — Fabiano, o ciclista, deixou claro no Instagram que era do Cinturão das Águas do Ceará, uma obra estadual ainda em construção. Mas quando foi republicado, removeram toda a legenda e o contexto. Aí virou prova de sabotagem política.
Mas por que o canal estava seco mesmo? Isso é um fato que precisa estar claro.
Porque a obra ainda não estava concluída. Os lotes 3 e 4 daquele trecho tinham menos de 30% de execução. Não há estrutura para água correr ali ainda.
E quanto ao fornecimento da transposição em si? O governo realmente não desligou nada?
Não. O fornecimento funciona sob demanda, conforme planos anuais dos estados. O Ceará não havia pedido água em 2023. A última vazão foi em novembro de 2022.
Espera — então não há nenhuma interrupção real na transposição?
Há uma estação de bombeamento em reparo desde setembro de 2022, mas é manutenção necessária, não sabotagem política. O Ministério está trabalhando na substituição de peças danificadas.
Quantas pessoas viram esse vídeo falso?
Mais de 940 mil visualizações em apenas duas publicações no TikTok. Uma delas foi apagada depois de ter 925 mil visualizações sozinha.
E o criador original do vídeo, o Fabiano, disse que as pessoas pegaram o conteúdo dele e "não disseram as coisas direito". Ele estava claro no Instagram, mas ninguém respeitou.
Isso é um padrão? Desinformação sobre a transposição?
Sim. Desde janeiro de 2023, múltiplas agências de checagem — Reuters, Aos Fatos, Agência Lupa — vêm desmentindo acusações similares. É uma narrativa recorrente.
O Pulso
- Vídeo filmado em 25 de fevereiro de 2023 no Cinturão das Águas do Ceará, não na transposição do Rio São Francisco
- Mais de 940 mil visualizações em apenas duas publicações no TikTok
- Lotes 3 e 4 do Cinturão das Águas tinham menos de 30% de execução em fevereiro de 2021
- Último fornecimento de água da transposição para o Cinturão foi em novembro de 2022
- Múltiplas agências de checagem (Reuters, Aos Fatos, Agência Lupa, Estadão Verifica, UOL Confere) desmentiriam alegações similares
Vídeo viral de ciclista pedalando em canal seco foi filmado no Cinturão das Águas do Ceará em fevereiro de 2023, não na transposição do Rio São Francisco. Governo Lula não desligou bombas da transposição; fornecimento é sob demanda conforme planos operativos anuais dos estados, e última vazão foi em novembro de 2022.
Agência de checagem Comprova desmente conteúdo viral que acusa Lula de desligar bombas da transposição do São Francisco. Vídeo mostra canal do Cinturão das Águas do Ceará, não da transposição, e governo não interrompeu fornecimento.
Um vídeo que circulou nas redes sociais no final de janeiro mostrava um ciclista pedalando dentro de um canal praticamente seco, acompanhado de acusações de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia cortado o abastecimento de água para o Nordeste ao desligar as bombas da transposição do Rio São Francisco. A imagem era visceral e a narrativa era simples: um novo governo, uma decisão política, nordestinos prejudicados. O problema é que nenhuma parte dessa história era verdadeira.
O vídeo original foi filmado em 25 de fevereiro de 2023 por Fabiano Almeida, dono de uma oficina de bicicletas chamada Fó Bike, localizada no Crato, no Ceará. Quando Almeida postou o material no TikTok e no Instagram, ele foi claro na legenda: as imagens mostravam um trecho em obras do Cinturão das Águas do Ceará, não da transposição do Rio São Francisco. O Cinturão das Águas é uma obra do governo estadual cearense, ainda em construção, que funcionará como estrutura auxiliar para levar água do Eixo Norte da transposição até o Açude Castanhão. Não faz parte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, embora dependa dele. O vídeo foi feito próximo ao Açude Thomaz Osterne, a cerca de 20 quilômetros da sede do município do Crato, em um trecho que passava pelos lotes 3 e 4 do Trecho 1 do Cinturão das Águas — justamente os trechos que ainda não haviam sido entregues.
Mas o conteúdo original de Almeida foi republicado por canais bolsonaristas que removeram toda a contextualização. Eles afirmaram que o local era parte da transposição do Rio São Francisco, que a obra havia sido entregue pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e que, após Lula assumir, os canais haviam secado porque o novo governo havia desligado as bombas. Apenas em duas publicações no TikTok, o vídeo alcançou mais de 940 mil visualizações. Uma delas foi apagada depois de ter acumulado sozinha mais de 925 mil visualizações. O site Terra Brasil Notícias também republicou a desinformação. O Projeto Comprova, agência de checagem que investigou o caso, não conseguiu contato com os autores das publicações falsas no TikTok, e o formulário de contato do Terra Brasil Notícias apresentava erro técnico.
A realidade operacional da transposição é mais complexa do que a narrativa enganosa sugere. O fornecimento de água através do projeto não é contínuo; funciona sob demanda, conforme os planos operativos anuais elaborados pelos estados beneficiários e aprovados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento. O Ceará havia planejado receber uma vazão média de 10 mil metros cúbicos por segundo no Reservatório do Jati entre fevereiro e julho de 2023, mas o governo estadual ainda não havia demandado água do projeto naquele momento. A última vez que houve vazão de água da transposição para o Cinturão das Águas foi em novembro de 2022. Segundo a Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará, os pedidos de água acontecem prioritariamente durante o período chuvoso, quando os leitos dos rios têm água corrente e facilitam o trânsito do recurso, além de reduzirem perdas por evaporação. A falta de água da transposição naquele momento não comprometia o abastecimento hídrico do estado.
Quanto ao canal específico mostrado no vídeo de Almeida, a razão pela qual estava seco era ainda mais simples: as obras ainda não estavam concluídas. O Trecho 1 do Cinturão das Águas é dividido em cinco lotes. Três deles — os lotes 1, 2 e 5 — já estavam prontos e funcionando. Os lotes 3 e 4, que passam pelo Crato, ainda estavam em construção. Segundo dados de fevereiro de 2021, o lote 3 tinha apenas 29,45% das obras concluídas e o lote 4 tinha 7,91%. Fabiano Almeida explicou ao Comprova que é comum ciclistas da região pedalarem nos canais enquanto a obra não fica pronta. Ele também esclareceu que não havia estrutura suficiente para que a água corresse pelos canais naquele ponto específico, porque a construção ainda estava sendo feita por etapas. Segundo ele, depois que aquela seção fosse concluída, os tubulações grandes seriam instaladas. A Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará confirmou essa explicação.
Há um ponto legítimo de interrupção na transposição, mas não tem nada a ver com decisões políticas do governo Lula. Uma estação de bombeamento no Eixo Norte — a Estação de Bombeamento EBI 3, localizada no reservatório Negreiros em Salgueiro, Pernambuco — teve suas operações suspensas para reparo. O problema havia sido detectado em setembro de 2022 e envolvia vibração excessiva que causou desgaste prematuro nos rolamentos do conjunto de motobombas. O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, responsável pela transposição, acionou o fabricante para providenciar a substituição das peças danificadas. O ministério não informou quando o reparo seria concluído, mas afirmou estar empenhado em normalizar o serviço. Essa manutenção necessária foi frequentemente citada por disseminadores de desinformação como prova de sabotagem política.
O padrão de desinformação em torno da transposição do Rio São Francisco é antigo. A obra se arrastou por quatro governos federais até ser concluída na gestão de Jair Bolsonaro, quando 90% já havia sido executado. Apoiadores do ex-presidente tentaram inflar sua responsabilidade sobre o projeto, enquanto agora disseminam narrativas enganosas afirmando que Lula desligou as bombas com intenção de deixar os nordestinos sem água. A tática é comum: retirar de contexto conteúdos legítimos e usá-los em contextos diferentes para apoiar narrativas falsas. Conteúdos legítimos usados em contextos enganosos são verossímeis e mais facilmente aceitos. A semelhança visual entre os canais da transposição e os do Cinturão das Águas, aliada à dificuldade de identificar os pontos exatos de cada obra, facilita a ação de quem desinforma. Desde janeiro de 2023, diversas agências de checagem — Estadão Verifica, UOL Confere, Reuters, Aos Fatos, Agência Lupa, Agência Tatu e Fato ou Fake — vêm desmentindo conteúdos similares que acusam o governo Lula de interromper o fornecimento de água.
Citações Notáveis
O pessoal pega e não diz as coisas direito, mas no Instagram tem a legenda certinho falando que é no Cinturão das Águas, fica aqui no Crato— Fabiano Almeida, criador do vídeo original
A oferta de água pelo Projeto de Integração do São Francisco, determinada pela outorga, é intencionalmente flexível para harmonizar as necessidades da bacia doadora e otimizar, de modo adaptativo, as vazões disponíveis ao planejamento dos Estados— Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional