Hospedagem em luxuoso hotel de Nova York consumiu US$ 1,265 milhão (R$ 6,214 bilhões), representando a maior despesa das duas viagens internacionais. Lula realizou 25 viagens internacionais em nove meses de governo, visitando 21 países em quatro continentes para reconstruir imagem do Brasil no exterior.
Viagens de Lula a Cuba e EUA custaram R$ 11,379 milhões aos cofres públicos
Recuperar um país que não era recebido por ninguém
Como é que a gente entende esses números? R$ 11 bilhões é muito ou é o esperado para duas viagens presidenciais?
Depende do ponto de referência. O que sabemos é que só a hospedagem em Nova York consumiu mais de R$ 6 bilhões. Isso é concreto. Mas não temos dados de comparação com outras administrações ou com padrões internacionais para dizer se é excessivo.
Exatamente. E há um detalhe importante: esses números não incluem o transporte aéreo, que é feito pela FAB e mantido em sigilo. Então R$ 11 bilhões é apenas parte da conta real.
Qual era o objetivo dessas viagens? Valeu a pena?
Em Cuba, Lula participou da Cúpula do G77 e China, um dos maiores eventos multilaterais do sul global. Nos EUA, discursou na Assembleia Geral da ONU pela primeira vez em 14 anos como presidente. Simbolicamente, era importante.
Mas aí está o problema que um dos especialistas levanta: é difícil medir o retorno concreto. Os resultados dependem de negociações posteriores. A gente não sabe ainda se esses encontros geraram acordos, investimentos ou mudanças de política.
E quanto à crítica sobre má gestão? O advogado Leonardo Velloso disse que os custos superam o mercado.
Ele argumenta que não há justificativa plausível para os valores apresentados. Mas ele não fornece dados comparativos específicos — é uma avaliação baseada em sua experiência.
Isso é importante notar. Velloso faz uma crítica válida, mas ela não é baseada em números públicos de outras viagens presidenciais. É uma opinião fundamentada, mas não é uma análise com dados lado a lado.
Lula disse que conseguiu recuperar a imagem do Brasil. Isso é verificável?
Lula fez 25 viagens em nove meses, visitou 21 países. Isso é fato. Se isso recuperou a imagem, é uma questão de interpretação política e diplomática.
E também depende de quem você pergunta. Alguns países podem ter recebido melhor o Brasil, mas isso não significa que todos os objetivos foram alcançados ou que o investimento foi eficiente.
Il Polso
- Hospedagem em Nova York: US$ 1,265 milhão (R$ 6,214 bilhões)
- Total das duas viagens: R$ 11,379 bilhões
- 25 viagens internacionais em 9 meses, visitando 21 países em 4 continentes
- Comitiva em Cuba: 8 integrantes; nos EUA: 15 integrantes
Hospedagem em luxuoso hotel de Nova York consumiu US$ 1,265 milhão (R$ 6,214 bilhões), representando a maior despesa das duas viagens internacionais. Lula realizou 25 viagens internacionais em nove meses de governo, visitando 21 países em quatro continentes para reconstruir imagem do Brasil no exterior.
Duas viagens internacionais do presidente Lula em setembro custaram R$ 11,379 bilhões aos cofres públicos, com hospedagem em Nova York atingindo US$ 1,265 milhão. Especialistas divergem sobre o retorno diplomático versus a gestão dos recursos.
No final de setembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se preparava para uma cirurgia no quadril que o afastaria temporariamente de seus compromissos, duas viagens internacionais já haviam deixado um rastro de despesas nos cofres públicos: Cuba e Estados Unidos custaram R$ 11,379 bilhões ao país. Os números, obtidos pela reportagem por meio de um pedido de Lei de Acesso à Informação ao Itamaraty, revelam a escala das operações diplomáticas presidenciais, ainda que não incluam os custos do transporte aéreo, mantidos em sigilo pela Força Aérea Brasileira.
A maior parte dessa quantia concentrou-se na estadia americana. Durante cinco dias em Nova York, o presidente e sua comitiva ocuparam o Hotel Lotte Palace, na 455 Madison Avenue, com uma conta de hospedagem que atingiu US$ 1,265 milhão — o equivalente a R$ 6,214 bilhões pela cotação da época. Além do alojamento, os gastos incluíram serviços de intérpretes, aluguel de veículos, locação de salas de trabalho, sistemas portáteis de interpretação e auriculares. O Ministério das Relações Exteriores repassou apenas R$ 88,5 mil em valores de cerimonial, mantendo o restante em dólares nos documentos oficiais.
Em Havana, onde Lula participou da Cúpula do G77 e China entre 15 e 16 de setembro, as despesas foram proporcionalmente menores, mas ainda significativas. A hospedagem da comitiva oficial e das equipes de assessoria e apoio custou US$ 174,9 mil, convertido em R$ 851,6 mil. Somados os gastos com aluguel de veículos, locação de salas de apoio e espaços para trabalho e atendimento à imprensa, o total em Cuba chegou a US$ 206,6 mil, ou R$ 1,006 milhão. O cerimonial naquela ocasião consumiu R$ 50,4 mil.
Essas duas viagens representam apenas uma fração da atividade diplomática de Lula em seus primeiros nove meses de governo. De janeiro a setembro de 2023, o presidente realizou 25 viagens internacionais, visitando 21 países espalhados por quatro continentes — apenas a Oceania ficou de fora. Essa agenda intensa reflete uma prioridade declarada: reconstruir a imagem do Brasil no cenário internacional após o que Lula descreveu como um "apagão na política internacional" durante o governo anterior. Em entrevista, o presidente afirmou que conseguiu recuperar a relevância do país e que agora pretendia concentrar suas atividades em viagens pelo território nacional em 2024, ano de eleições municipais.
A comitiva que acompanhou Lula em Cuba incluiu a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Nísia Trindade (Saúde), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia) e Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), além do líder do Governo no Senado Jaques Wagner, do assessor-chefe Celso Amorim e do embaixador Christian Vargas. Nos Estados Unidos, o grupo expandiu para 15 integrantes, com a adição de sete ministros — Fernando Haddad (Fazenda), Luiz Marinho (Trabalho), Marina Silva (Meio Ambiente), Cida Gonçalves (Mulheres), Sônia Guajajara (Povos Indígenas), Márcio Macêdo (Secretaria Geral) e Paulo Pimenta (Secom) — além da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti e do representante permanente junto à ONU Sérgio França Danese.
Os especialistas consultados pela reportagem divergem sobre o valor diplomático dessas despesas. Acacio Miranda da Silva Filho, especialista em Direito Constitucional e Internacional, reconhece a importância de Lula ter maior habilidade para o diálogo internacional em comparação com seu antecessor, o que resultou em viagens mais frequentes. Porém, ele ressalva que é difícil prever exatamente quais serão os resultados concretos dessas agendas, já que frequentemente dependem de negociações posteriores entre diplomatas e funcionários burocráticos. Leonardo Velloso, advogado especializado em direito tributário, civil e penal, adota posição mais crítica. Para ele, as despesas apresentadas superam os valores médios observados no mercado internacional correspondente, sem justificativa plausível. Velloso aponta a possibilidade de má gestão dos recursos públicos, falta de transparência e de controle.
Antes mesmo de se recuperar da cirurgia realizada no final de setembro, Lula já sinalizava que não pretendia interromper sua agenda internacional por muito tempo. A próxima viagem estava marcada para a COP28, em Dubai, no final de novembro, seguida de visitas à Arábia Saudita e à Alemanha. Esses deslocamentos continuarão a gerar despesas que, embora não divulgadas em tempo real, alimentam o debate sobre o custo-benefício da diplomacia presidencial e a gestão dos recursos públicos destinados à projeção internacional do país.
Citazioni salienti
Esse país não era recebido por ninguém e ninguém queria vir a esse país. Era como se tivesse tido um apagão na política internacional. Então, conseguimos recuperar esse país.— Presidente Lula da Silva
Isso pode indicar uma má gestão dos recursos públicos, falta de transparência e de controle.— Leonardo Velloso, advogado especializado em direito tributário