Quatro arguidos acusados: ex-secretário de Estado da Saúde, filho de Marcelo Rebelo de Sousa, ex-diretor clínico e mãe das crianças por crimes de prevaricação, abuso de poder e burla. Chega criticiza PSD e PS por terem rejeitado relatório parlamentar que apontava ilegalidades; Ventura destaca que medicamento Zolgensma foi dado com interferência política a crianças luso-brasileiras.
Ventura: «Justiça deu razão ao Chega» no caso das Gémeas
A justiça deu razão ao Chega
O que muda agora que o Ministério Público acusou estas quatro pessoas? Ventura conseguiu o que queria?
Ventura vê isto como validação. O Chega apontou crimes desde o início, foi ignorado pela maioria parlamentar, e agora a acusação confirma que havia ilegalidades graves. Para ele, é uma vitória política.
Mas cuidado: uma acusação não é condenação. E Marcelo Rebelo de Sousa não foi acusado. Ventura fala de um "epicentro de influência" junto da Casa Civil, mas isso é interpretação dele, não facto provado.
Então o que é realmente novo aqui?
O Ministério Público documentou que houve interferência política na marcação da consulta, que o medicamento foi dado com base em abuso de poder, e que outras crianças não tiveram acesso. Isso é concreto.
Verdade. Mas a questão de quanto Marcelo sabia, ou se usou a sua posição, continua em aberto. Ventura está a conectar pontos que a acusação não conectou formalmente.
E quanto ao Orçamento? Ventura conseguirá influenciar?
Improvável. Ele diz que PSD e PS já têm acordo. O Chega quer redução de IVA, menos cativações na Saúde, reforma mais cedo. Nada disso parece estar na mesa.
Ventura acusa o Governo de dizer que "não tem margem para fazer nada", mas não sabemos se é verdade ou retórica. E a crítica sobre a REN — centenas de milhões para uma empresa chinesa — é uma afirmação que merecia verificação.
Ele parece estar a tentar manter relevância em vários fronts ao mesmo tempo.
Sim. O caso das Gémeas é uma vitória narrativa. O Orçamento é uma batalha que provavelmente vai perder. E a comissão sobre Luís Neves é uma forma de manter pressão sobre o Governo.
Mas note-se: Ventura diz que a Comissão pode "desculpabilizar" Neves. Isso é uma saída elegante se as conclusões não forem as que ele quer.
El Pulso
- Quatro arguidos acusados: António Lacerda Sales, Nuno Rebelo de Sousa, Luís Pinheiro e Daniela Martins
- Medicamento Zolgensma administrado a duas crianças luso-brasileiras com atrofia muscular espinal
- PSD e PS rejeitaram relatório do Chega que apontava ilegalidades; documento final concluiu ausência de ilegalidade
- Ministério Público documentou interferência política e abuso de poder na marcação de consulta e tratamento preferencial
Quatro arguidos acusados: ex-secretário de Estado da Saúde, filho de Marcelo Rebelo de Sousa, ex-diretor clínico e mãe das crianças por crimes de prevaricação, abuso de poder e burla. Chega criticiza PSD e PS por terem rejeitado relatório parlamentar que apontava ilegalidades; Ventura destaca que medicamento Zolgensma foi dado com interferência política a crianças luso-brasileiras.
André Ventura afirma que acusação do Ministério Público no caso das Gémeas confirma denúncias do Chega sobre tratamento preferencial e abuso de poder envolvendo políticos e funcionários públicos.
No dia em que o Ministério Público apresentou as acusações no chamado caso das Gémeas, André Ventura, presidente do Chega, concedeu uma entrevista à RTP Notícias para reafirmar que a decisão da justiça validava a posição que o seu partido havia defendido desde o início. Quatro pessoas foram acusadas: António Lacerda Sales, antigo secretário de Estado da Saúde; Nuno Rebelo de Sousa, filho do ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa; Luís Pinheiro, ex-diretor clínico do Hospital de Santa Maria; e Daniela Martins, mãe das duas crianças. Os três primeiros enfrentam acusações de prevaricação em concurso aparente com abuso de poder. A mãe foi acusada de burla qualificada. O caso envolvia a administração do medicamento Zolgensma a duas crianças com nacionalidade portuguesa e brasileira que sofrem de atrofia muscular espinal, uma doença neurodegenerativa.
Ventura sublinhou o papel do Chega em levar o assunto ao Parlamento, criticando os outros partidos por terem resistido à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. "Os outros partidos não queriam uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Entendiam que o caso não justificava, que era espuma dos dias", afirmou, argumentando que esses partidos "deviam pedir desculpa" após a acusação. O presidente do Chega descreveu o que o seu partido havia identificado desde cedo: uma rede de interesses, cunhas e abusos que permitiram um acesso preferencial à saúde para esta família específica.
O relatório que o Chega preparou enquanto presidia à Comissão apontava crimes claros contra Lacerda Sales, Nuno Rebelo de Sousa, a mãe das crianças e o administrador do Hospital. Porém, o documento final aprovado pela Comissão, após PSD e PS se unirem para afastar o relatório do Chega, concluiu que não havia ocorrido qualquer ilegalidade. Ventura contestou essa conclusão com base na acusação agora apresentada: "Não só houve ilegalidades como foram graves. O Ministério Público deixa claro que houve um tratamento preferencial a uma família. Deixa claro que outras crianças não tiveram acesso a esse tratamento e que a marcação da consulta foi feita no uso de interferência política e abuso de poder."
O líder do Chega foi particularmente crítico de Nuno Rebelo de Sousa, argumentando que o filho do ex-Presidente utilizou o nome do pai para obter acesso a um conjunto de benefícios que resultaram na marcação da consulta, no tratamento preferencial e no acesso ao medicamento. Embora Marcelo Rebelo de Sousa não tenha sido acusado, Ventura identificou um "epicentro de influência junto da Casa Civil" e questionou quantas outras crianças portuguesas e doentes tentaram obter acesso a este medicamento sem terem o apoio presidencial, o filho do Presidente, a Câmara de Comércio Luso-Brasileira ou um secretário de Estado.
Na mesma entrevista, Ventura abordou as negociações orçamentais com o Governo para 2027. Descreveu a reunião entre o Executivo e a representação parlamentar do Chega como "não foi uma boa reunião", e reafirmou a posição do partido sobre a redução de impostos sobre combustíveis, lembrando que essa era a posição do atual primeiro-ministro Luís Montenegro quando era líder da oposição em 2022. O presidente do Chega acusou o PS de "frouxidão" e "cobardia" por não ter aprovado a proposta para baixar o IVA, e dirigiu críticas pessoais a José Luís Carneiro, descrevendo-o como "um homem sem palavra".
Ventura insistiu em outras prioridades para o Orçamento: a redução da idade da reforma, investimento em materiais cirúrgicos e médicos para hospitais que enfrentam carências desde o início do ano, e um orçamento para a Saúde sem cativações. Criticou ainda a gestão do Governo, sugerindo que se menos dinheiro fosse canalizado para a REN, com centenas de milhões a entrarem numa empresa chinesa, seria possível descer o IVA até ao final do ano. Acusou o Executivo de "falta de escrúpulos na gestão da coisa pública".
Quanto à comissão parlamentar de inquérito sobre as polémicas envolvendo o ministro da Administração Interna, Luís Neves, Ventura reafirmou a necessidade de demonstrar que ninguém está acima da lei. Recusou qualquer intenção de ataque pessoal, afirmando: "Não tenho nada contra Luís Neves, nem sequer o conheço". Admitiu mesmo que a Comissão Parlamentar de Inquérito poderia terminar sem conclusões prejudiciais para o ministro, caso os factos o justificassem. Por fim, Ventura respondeu a questões sobre o assalto ao gabinete do Chega no Parlamento, comprometendo-se a responder ao Ministério Público por escrito, e desmentiu qualquer encenação, referindo que o partido recebe ameaças constantes das quais o Ministério Público já tem conhecimento.
Citas Notables
Não só houve ilegalidades como foram graves. O Ministério Público deixa claro que houve um tratamento preferencial a uma família.— André Ventura, presidente do Chega
O filho usou o nome do pai para conseguir ter acesso a este conjunto de benefícios que levou à marcação da consulta, ao tratamento preferencial, aos medicamentos.— André Ventura, sobre Nuno Rebelo de Sousa