Vendinhas do interior de SP resistem ao tempo e preservam tradição rural

A clientela virou família. Temos amigos de 50 anos aqui
Sônia Maria Andrade Araújo, que administra uma vendinha há 42 anos ao lado do marido, sobre os clientes que se tornaram amigos.

Vendinhas com décadas de funcionamento em Três Fronteiras e Nova Canaã Paulista mantêm tradições comerciais e sociais do interior paulista. Estes estabelecimentos evoluíram de grandes centros comerciais rurais para pontos de encontro comunitário, preservando práticas como venda fiado e produtos artesanais.

  • Vendinha em Três Fronteiras aberta há 40 anos
  • Vendinha em Nova Canaã Paulista existe há quase 70 anos, administrada há 42 anos pelo casal Paulo e Sônia
  • Região passou de cafezais e sitiantes para cultivo de cana-de-açúcar
  • Vendinhas evoluíram de centros comerciais rurais para pontos de encontro comunitário

Antigas vendinhas do interior de São Paulo continuam funcionando apesar das transformações rurais, servindo como espaços de preservação da memória e identidade local das comunidades.

Quarenta anos atrás, alguém abriu as portas de uma vendinha na Estrada 12, em Três Fronteiras, perto de Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo. Ainda está lá. Enquanto as grandes redes comerciais se expandem e o campo se transforma, essas pequenas lojas rurais seguem funcionando — não como os gigantes que foram um dia, mas como algo talvez mais importante: guardiões de um modo de vida que quase desapareceu.

Antônio Scarabeli construiu sua vida inteira naquele lugar. Quando era jovem, a região fervilhava de gente. Pequenos sitiantes e cafezais ocupavam a paisagem. A vendinha era o coração comercial daquele mundo. "Tinha muita gente. Nós vendíamos de tudo", lembra. Depois o café desapareceu. Entrou a cana-de-açúcar. As pessoas foram embora. O filho dele, Dimar Aparecido Scarabeli, testemunha aquele apogeu: a loja vendia cem, cento e cinquenta quilos de farinha por semana. Dezenas de fardos de açúcar. Era o lugar onde as famílias faziam suas compras mensais, onde tudo que se precisava podia ser encontrado.

Mas o tempo muda tudo. A vendinha deixou de ser um mercado rural de verdade. Agora funciona de outro jeito — como ponto de encontro, como lugar onde se compram conservas e queijos artesanais feitos por Nádia Maria Freitas Scarabeli, como espaço onde a memória fica viva. Mariene Maia frequenta o lugar desde criança, quando ia com parentes que moravam na zona rural. Para ela, entrar ali é revisitar sua própria história. "Me faz sentir muita saudade daquele tempo que, infelizmente, não vai voltar. Mas estamos resgatando essas raízes e mantendo essa história viva", diz.

Trinta quilômetros adiante, em Nova Canaã Paulista, existe outra vendinha que quase completa setenta anos. Há quarenta e dois anos, Paulo Francisco Araújo e sua esposa Sônia Maria Andrade Araújo cuidam do lugar. "Aqui tinha de tudo, igual a um mercadinho. Muitas vendas fecharam, mas nós continuamos", conta Paulo. O casal preserva ali um costume que está desaparecendo: a venda fiado. Aquele crédito informal, de confiança, que permitia que as famílias levassem o que precisavam e pagassem depois. "Já ajudei a tratar de bastante família. Criei meus filhos aqui e melhorei minha vida trabalhando na venda", lembra Paulo.

A vendinha também é onde Paulo e Sônia se conheceram, há mais de cinquenta anos. Continuam ali, recebendo clientes que viraram amigos. "A clientela virou família. Temos amigos de 50 anos aqui", afirma Sônia. Para o historiador Silvio Luiz Lofego, essas lojas cumprem um papel que vai muito além do comercial. "Elas representam espaços de resistência. Muitas comunidades rurais desapareceram ou perderam características ao longo das últimas décadas, mas as vendas permanecem como símbolos de convivência e identidade local", explica. Enquanto o interior de São Paulo se transforma, essas vendinhas seguem ali, guardando histórias, preservando práticas, mantendo viva uma forma de estar junto que parecia condenada ao desaparecimento.

Elas representam espaços de resistência. Muitas comunidades rurais desapareceram ou perderam características ao longo das últimas décadas, mas as vendas permanecem como símbolos de convivência e identidade local
— Silvio Luiz Lofego, historiador
Me faz sentir muita saudade daquele tempo que, infelizmente, não vai voltar. Mas estamos resgatando essas raízes e mantendo essa história viva
— Mariene Maia, cliente
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essas vendinhas conseguem sobreviver quando tantos outros negócios rurais fecham?

Model

Porque deixaram de ser apenas negócios. Viraram símbolos. A pessoa que entra ali não está só comprando queijo — está tocando em algo que ela mesma perdeu ou que seus pais tiveram.

Inventor

Mas isso sustenta financeiramente o lugar?

Model

Não, não sustenta como sustentava. Mas sustenta de outro jeito. A venda fiado, por exemplo, não é lucrativa. É um ato de confiança. Paulo e Sônia sabem que ajudaram famílias inteiras. Isso não aparece no caixa, mas aparece na vida delas.

Inventor

Qual é a diferença entre uma vendinha e um supermercado, além do tamanho?

Model

Tudo. Um supermercado é transação. Você entra, pega, paga, sai. Uma vendinha é relação. Você conhece quem vende. Sabe a história daquele lugar. Seus avós talvez tenham comprado ali.

Inventor

Essas lojas vão desaparecer?

Model

Provavelmente. Mas enquanto existirem, vão fazer o que nenhuma rede comercial consegue: guardar a memória de um mundo que se foi. E isso, para quem vem de lá, é insubstituível.

Inventor

O que muda quando uma comunidade perde sua vendinha?

Model

Perde um espelho. Perde o lugar onde se via refletida. Quando a vendinha fecha, a comunidade fica órfã de um símbolo seu.

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