Pelo menos 23 ex-deputados estaduais tentam voltar à Alerj, incluindo oito com mais de 70 anos, em contexto de crise institucional que levou à prisão de três deputados em exercício. A crise envolve investigações sobre desvio de recursos públicos e ligações com organizações criminosas, incluindo o caso do ex-presidente Rodrigo Bacellar, preso por vazar informações ao Comando Vermelho.
'Velha guarda' tenta retorno à Alerj em meio a crise institucional no Rio
Os bichos estão conquistando mais o coração das pessoas
Por que esses ex-deputados estão voltando agora, justamente quando a Alerj está em crise?
Alguns dizem que foram convencidos por colegas. Outros, como Albertassi, veem a volta como uma chance de "reescrever a história". Mas há algo mais: a crise criou um vácuo. Muitos dos novatos que chegaram em 2018 já estão comprometidos com corrupção ou crime organizado.
Mas espera — Melo e Albertassi tiveram as condenações anuladas. Tecnicamente, estão limpos? Ou ainda há processos em andamento?
As condenações foram anuladas pelo STF em 2022, e em maio deste ano o TJ do Rio arquivou os processos da Cadeia Velha. Mas a Furna da Onça teve casos desmembrados e parte segue no TRE.
Então não estão totalmente livres?
Exato. E há uma questão maior: por que a população votaria em alguém que foi preso antes, mesmo que tecnicamente absolvido?
Essa é a aposta deles — que a população está tão decepcionada com os novos que prefira voltar aos antigos.
E quanto ao desafio digital que o professor mencionou? Ramos realmente está tendo dificuldade?
Ele admite estar "fazendo um esforço para deixar de ser analógico". Postou sobre leis de proteção animal e saúde da mulher, mas as sobre animais tiveram muito mais engajamento.
Isso é anedótico, não? Um exemplo não prova que a velha guarda não consegue se adaptar.
Verdade. Mas o professor da UFF foi claro: o modelo de campanha mudou radicalmente. Redes sociais, vídeos curtos, linguagem rasteira. Nomes tradicionais têm dificuldade.
Então a velha guarda está condenada a perder?
Não necessariamente. Mas têm um obstáculo real que não é só reputação — é um formato de comunicação que não dominam.
Der Puls
- Pelo menos 23 ex-deputados tentam voltar à Alerj; oito têm mais de 70 anos
- Três deputados em exercício foram presos em investigações sobre corrupção e crime organizado
- Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, preso em março por vazar informações ao Comando Vermelho
- Paulo Melo e Edson Albertassi, presos em 2017-2018, tiveram condenações anuladas em 2022
Pelo menos 23 ex-deputados estaduais tentam voltar à Alerj, incluindo oito com mais de 70 anos, em contexto de crise institucional que levou à prisão de três deputados em exercício. A crise envolve investigações sobre desvio de recursos públicos e ligações com organizações criminosas, incluindo o caso do ex-presidente Rodrigo Bacellar, preso por vazar informações ao Comando Vermelho.
Ex-deputados com mais de 70 anos buscam retornar à Assembleia Legislativa do Rio após crise institucional marcada por prisões e investigações de corrupção e envolvimento com crime organizado.
Paulo Ramos tem 81 anos e diz que não queria voltar à política. Mas colegas que encontrava nas ruas do Rio o convenceram a se candidatar a deputado estadual. Ramos é um veterano: foi deputado federal por três mandatos, incluindo a Constituinte, e passou 19 anos na Assembleia Legislativa do Rio, de 1999 a 2018. Agora, em meio a uma das piores crises institucionais da história da Alerj, ele é um dos nomes da velha guarda que tenta retornar.
A crise que o trouxe de volta é profunda. Três deputados em exercício foram presos. Investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil apuram desvio de recursos públicos e ligações com organizações criminosas. O símbolo mais visível é Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj pelo União Brasil, preso em março pela PF sob suspeita de vazar informações sobre operações policiais para pessoas vinculadas ao Comando Vermelho. Outro preso foi TH Joias, ex-deputado que, segundo as investigações, intermediava negociações da facção com órgãos públicos e comprava armas e equipamentos. Ele virou réu pelo esquema.
Ramos, que veio da Polícia Militar, observa a deterioração com preocupação. Ele critica o que chama de valores não republicanos que se incorporaram à busca pelo mandato. "Como um deputado estadual tira uma fotografia deitado numa cama com colchão de dinheiro?", pergunta, referindo-se a TH Joias. Para Ramos, esse perfil comprometeu até mesmo a parcela de deputados que defendia a ação policial baseada na força.
A reportagem identificou pelo menos 23 ex-deputados estaduais tentando voltar à Alerj. Oito deles têm mais de 70 anos. Eliomar Coelho, 85, que deixou a assembleia em 2023, diz que usou o tempo para refletir e dar espaço a políticos mais jovens. Mas mudou de ideia. "A força jovem que chegou ao legislativo já está comprometida com que há de pior na política", afirma. "Você abre o jornal e só vê crime sobre o Legislativo. Isso me incomoda."
Entre os que tentam retornar estão nomes envolvidos em crises anteriores. Paulo Melo, 69, ex-presidente da Alerj e deputado por oito mandatos consecutivos entre 1990 e 2019, foi preso nas operações Cadeia Velha e Furna da Onça, entre 2017 e 2018. Edson Albertassi, 57, também preso nessas operações, foi deputado por seis mandatos. A Cadeia Velha investigou o favorecimento de empresas de ônibus em troca de propina. A Furna da Onça mirou um suposto mensalinho pago pelo ex-governador Sergio Cabral em troca de apoio legislativo. As condenações de Melo e Albertassi foram anuladas pelo STF em 2022, e em maio deste ano o Tribunal de Justiça do Rio arquivou os processos. Albertassi nega as acusações e diz ter sido vítima de um "processo muito absurdo". Ele afirma que precisa voltar para "reescrever essa história e possa voltar a colaborar com o estado".
André Ceciliano, 58, ex-secretário de assuntos parlamentares do governo Lula, é outro candidato a retornar. Ele é o único dos cinco últimos presidentes eleitos da Alerj a não ter sido preso. Tem planos de concorrer à presidência da casa, caso eleito.
Mas o desafio para essa velha guarda é maior que a reputação. José Paulo Martins Junior, professor de ciência política da UFF, aponta que o movimento de retorno em bloco é incomum. O verdadeiro obstáculo, porém, é o modelo de campanha contemporâneo. "Não há muito o histórico de políticos derrotados em uma eleição do Legislativo tentarem voltar pelo voto. Mas também não vejo muita condição de nomes tradicionais superarem a força das redes e da lacração", diz. Para Martins, a linguagem das redes sociais — TikTok, Instagram, vídeos curtos — é o desafio. "Quanto mais de massa a comunicação se torna, mais rasteiro o discurso político vira."
Ramos reconhece o problema. Diz que panfletar nas ruas virou coisa do passado e que está "fazendo um esforço para deixar de ser analógico". Postou nas redes sociais um levantamento de leis de sua autoria, incluindo proteção animal e saúde da mulher — como a que garante um dia de folga por ano para fazer preventivo de câncer de mama. O resultado o surpreendeu: as leis sobre animais conquistaram muito mais engajamento que as sobre saúde feminina. "Os bichos estão conquistando mais o coração das pessoas. É o espírito do tempo.", conclui.
Bemerkenswerte Zitate
Como um deputado estadual tira uma fotografia deitado numa cama com colchão de dinheiro? Esse perfil comprometeu inclusive a parcela que mais se alinhava ao discurso da ação policial com base na força.— Paulo Ramos, ex-deputado federal e candidato a retornar à Alerj
Não há muito o histórico de políticos derrotados em uma eleição do Legislativo tentarem voltar pelo voto. Mas também não vejo muita condição de nomes tradicionais superarem a força das redes e da lacração.— José Paulo Martins Junior, professor de ciência política da UFF