Média de quatro vasectomias por dia nas redes municipais do Grande ABC, com 122 cirurgias mensais realizadas em sete cidades da região. Urologista aponta queda de casamentos e crescimento de pessoas sem planos de constituir família como principais fatores da redução de procedimentos.
Vasectomias caem 18% no Grande ABC; casamentos em queda explicam redução
Vi que o medo era pura falta de informação
Por que a queda de casamentos explica a redução de vasectomias? Não são coisas independentes?
Casamento costuma ser o momento em que casais tomam decisões sobre planejamento familiar juntos. Se menos pessoas se casam, menos casais chegam àquele ponto de conversa onde a vasectomia entra na agenda.
Mas o artigo também menciona crescimento de pessoas sem planos de família. Isso é tão importante quanto a queda de casamentos, certo? São duas tendências diferentes.
Exatamente. Uma é sobre menos casamentos. A outra é sobre pessoas que, casadas ou não, simplesmente não querem filhos. Ambas reduzem a demanda.
E a história do Francisco — ele esperou 29 anos para fazer. O que o desbloqueou?
Trabalhar num hospital. Conversas informais com médicos e enfermeiros. Informação de verdade, não campanha, não panfleto. Só convivência.
Mas isso é anedota. Não sabemos quantos homens têm acesso a esse tipo de ambiente. A maioria não trabalha em hospital.
Verdade. O que o caso dele mostra é que desinformação é um bloqueio real — mas também é removível com informação de qualidade.
O urologista desmistifica os mitos. Por que eles persistem?
Porque mitos se propagam entre amigos, em conversas de bar, em grupos de homens. Não chegam em consultório de urologista. A informação que importa é a que circula entre pares.
E há também a questão de que vasectomia é permanente. Mesmo com informação perfeita, a decisão é pesada. Não é como escolher um anticoncepcional reversível.
A lei de 2022 facilitou tudo — idade menor, sem precisar de autorização do cônjuge. Mas os números caem mesmo assim.
Isso sugere que a barreira nunca foi principalmente legal. Era cultural, psicológica, informacional. A lei removeu um obstáculo, mas não o obstáculo.
E talvez também reflita uma mudança real nas prioridades. Menos gente quer vasectomia porque menos gente quer ter filhos no primeiro lugar.
O Pulso
- 979 vasectomias entre janeiro e agosto de 2026, queda de 18% em relação a 2025
- Média de quatro procedimentos por dia nas redes municipais do Grande ABC
- Lei 14.443/2022 reduziu idade mínima de 25 para 21 anos
- São Bernardo do Campo liderou com 422 operações na região
Média de quatro vasectomias por dia nas redes municipais do Grande ABC, com 122 cirurgias mensais realizadas em sete cidades da região. Urologista aponta queda de casamentos e crescimento de pessoas sem planos de constituir família como principais fatores da redução de procedimentos.
Procedimentos de vasectomia recuaram 18% no Grande ABC entre janeiro e agosto, totalizando 979 cirurgias contra 1.193 no mesmo período anterior. Redução de casamentos e mudanças nos projetos familiares explicam a queda.
Quatro homens por dia. É esse o ritmo médio de vasectomias realizadas nas redes municipais de saúde do Grande ABC — um procedimento que, apesar de sua simplicidade técnica, carrega consigo décadas de tabu, medo e desinformação. Entre janeiro e agosto de 2026, foram realizadas 979 cirurgias na região, uma queda de 18% em relação ao mesmo período de 2025, quando 1.193 homens passaram pelo procedimento. Os números refletem uma mudança mais profunda nos padrões de vida: menos casamentos, mais pessoas adiando ou abandonando planos de constituir família.
A distribuição dos procedimentos pelas sete cidades da região revela disparidades significativas. São Bernardo do Campo liderou com 422 operações, seguida por Diadema com 234. Santo André registrou 118, Ribeirão Pires 83, Mauá 55, São Caetano 42 e Rio Grande da Serra 25. Mensalmente, as unidades básicas de saúde realizam aproximadamente 122 cirurgias — um volume que, embora consistente, não acompanha o crescimento observado no ano anterior.
Para o urologista Marcelo Watanabe, a explicação para a redução está entrelaçada com transformações sociais mais amplas. A queda no número de casamentos é um fator determinante, mas não é o único. Há também o crescimento de uma população que simplesmente não deseja constituir família — uma mudança de paradigma que reflete escolhas de vida cada vez mais diversas e menos atreladas ao modelo tradicional. Essas tendências, combinadas, resultam em menos homens buscando a esterilização permanente.
Francisco Roberto Piotto, 47 anos, morador de Ribeirão Pires, é um exemplo vivo dessa hesitação que marca muitos candidatos ao procedimento. Pai aos 18 anos, ele carregou durante décadas uma vontade que nunca se concretizava — bloqueada pelo medo das brincadeiras de amigos, pelos mitos que circulam entre homens sobre perda de força e disfunção sexual. Pai de dois filhos, Renan de 29 anos e Pedro de 22, e avô de Maria Júlia, de 2 anos, Piotto finalmente decidiu fazer a cirurgia em maio deste ano, após se casar recentemente com Priscila da Silva Piotto, 43 anos. A decisão foi tomada em conjunto com a companheira. O que mudou sua percepção não foi uma campanha de saúde pública, mas algo mais cotidiano: começar a trabalhar dentro de um hospital. Conversas informais com médicos e enfermeiros nos corredores do hospital desmistificaram seus próprios receios. "Vi que o medo era pura falta de informação", relata. A recuperação foi excelente, e agora Piotto tranquiliza colegas de trabalho que consideram o procedimento.
A idade para realização da vasectomia varia bastante, conforme explica Watanabe. A média observada situa-se entre 30 e 40 anos, mas há casos de pacientes que realizam a cirurgia aos 25 e outros aos 50. A Lei 14.443/2022 facilitou o acesso ao reduzir a idade mínima de 25 para 21 anos, ou permitir o procedimento a qualquer idade se a pessoa já tiver dois filhos vivos. A mesma legislação eliminou a exigência de autorização do cônjuge — uma mudança que reconhece a autonomia individual sobre decisões reprodutivas.
O procedimento em si é simples. Dura em média 30 minutos, realizado sob anestesia local em regime de day hospital — o paciente entra, opera e recebe alta no mesmo dia. A técnica consiste em interromper o ducto deferente, o canal que transporta espermatozoides dos testículos até as vesículas seminais. O corte é mínimo, entre dois e cinco milímetros no saco escrotal. Watanabe é enfático ao esclarecer o que a cirurgia não faz: não mexe em nervos penianos, não afeta artérias, não altera o mecanismo de ereção, não reduz a produção de testosterona, não diminui o volume do líquido ejaculado. "O único efeito colateral da vasectomia é deixar o homem estéril. Todo o resto, como perda de libido ou disfunção erétil, é puro mito."
Mas há um detalhe crucial que muitos desconhecem: a esterilização não é imediata. Watanabe usa uma metáfora com seus pacientes: "Tirei a munição da arma, mas ainda restam balas no pente." A vesícula seminal guarda espermatozoides viáveis acumulados antes da cirurgia. Por isso, o paciente precisa manter o uso de métodos contraceptivos, como camisinha, até cumprir um número mínimo de ejaculações — geralmente em torno de 20 — e realizar um espermograma de controle. Somente quando esse exame comprova a ausência total de espermatozoides é que o homem recebe liberação para relações sexuais sem proteção. O processo completo começa na Unidade Básica de Saúde, onde o interessado manifesta o desejo, passa por consulta e aconselhamento sobre método, alternativas, riscos e o caráter permanente da decisão. Após assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, começa um prazo mínimo de 60 dias para reflexão, durante o qual são realizados exames pré-operatórios e encaminhamento para urologia. A queda de 18% nos procedimentos sugere que, apesar das barreiras legais terem caído, as barreiras psicológicas e culturais ainda permanecem altas.
Citações Notáveis
A queda nos procedimentos decorre de diversos fatores, como a queda no número de casamentos e também o crescimento de pessoas que não pensam em constituir uma família— Marcelo Watanabe, urologista
O único efeito colateral da vasectomia é deixar o homem estéril. Todo o resto, como perda de libido ou disfunção erétil, é puro mito— Marcelo Watanabe, urologista