Vacina no SUS reduz bronquiolite em bebês; casos caem 16,6% em menores de 6 meses

Redução significativa de hospitalizações por doença respiratória grave em recém-nascidos, principal causa de internações nessa faixa etária.
A redução aparece só no grupo vacinado, não no grupo não vacinado
O contraste entre bebês protegidos e crianças mais velhas sustenta a conexão entre a vacina e a queda de hospitalizações.

A vacina contra VSR aplicada em gestantes a partir da 28ª semana protege recém-nascidos via anticorpos placentários até os seis meses de vida. Contraste entre grupos: casos caíram 16,6% em bebês até 6 meses, mas subiram 12-17,7% em crianças de 6 meses a 4 anos não alcançadas pela proteção materna.

  • Redução de 16,6% em casos de VSR em bebês menores de 6 meses (14.677 casos até maio de 2026 vs. 17.604 em 2025)
  • Vacina aplicada em gestantes a partir da 28ª semana de gravidez protege recém-nascidos via anticorpos placentários até os 6 meses
  • Aumento de 12% a 17,7% em casos em crianças de 6 meses a 4 anos não alcançadas pela proteção materna
  • Nirsevimabe complementa proteção para prematuros e crianças com comorbidades específicas

Dados da Fiocruz mostram redução de 16,6% nas hospitalizações por VSR em bebês de até seis meses após introdução da vacina para gestantes no SUS em dezembro.

Desde dezembro, quando o Sistema Único de Saúde começou a oferecer a vacina contra o vírus sincicial respiratório para gestantes, algo mudou nos números de bebês internados com bronquiolite. A Fiocruz registrou 14.677 casos de síndrome respiratória aguda grave causada pelo VSR em crianças menores de seis meses até a 20ª semana epidemiológica deste ano — o menor número desde 2023. Comparado ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 17.604 casos, a queda é de 16,6%.

O mecanismo é simples e elegante. A vacina é aplicada na gestante a partir da 28ª semana de gravidez. O corpo da mãe produz anticorpos que atravessam a placenta e chegam ao recém-nascido, oferecendo proteção durante os primeiros seis meses de vida — justamente o período em que os bebês correm maior risco de desenvolver formas graves da doença. O VSR é a principal causa de bronquiolite e de internações por problemas respiratórios nessa faixa etária.

O que torna esses números particularmente significativos é o que não aconteceu. Crianças mais velhas, fora do alcance da proteção materna, tiveram aumento de casos. Entre seis e 12 meses, os registros subiram de 9.967 para 11.161 — alta de 12%. Entre um e dois anos, passaram de 10.103 para 11.466, uma elevação de 13,5%. Entre dois e quatro anos, o salto foi de 8.597 para 10.121, representando crescimento de 17,7%. Esse contraste entre grupos é o que sustenta a conexão entre a vacina e a redução observada nos bebês mais jovens.

Tatiana Portella, pesquisadora do InfoGripe da Fiocruz, observa que a tendência de queda nas hospitalizações aparece exclusivamente no grupo que recebeu proteção materna. "Como essa redução das hospitalizações no grupo vacinado não foi observada no grupo não vacinado, é muito provável que essa diminuição seja decorrência da vacina", afirma. Normalmente, seria de esperar que o aumento em crianças mais velhas puxasse para cima também os números dos recém-nascidos, mas isso não ocorreu.

Porém, há ressalvas importantes. Eduardo Jorge Lima, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, reconhece que os dados são "biologicamente plausíveis e compatíveis com o mecanismo de ação da vacina", mas alerta que ainda não permitem concluir uma relação de causa e efeito com certeza. "É importante diferenciar associação de causalidade", ressalva. Estudos de efetividade mais amplos estão sendo conduzidos pela Fiocruz para confirmar o impacto real da estratégia, mas ainda sem data para divulgação.

Para crianças que não são alcançadas pela vacina materna — aquelas nascidas de mães que não receberam a imunização ou que têm idade superior a seis meses — as opções de proteção são limitadas. Não existe vacina contra o VSR voltada para crianças mais velhas. O SUS oferece o nirsevimabe, um anticorpo de ação imediata que funciona de forma diferente: em vez de estimular o organismo a produzir sua própria resposta, ele age logo após a aplicação. Esse medicamento é destinado a recém-nascidos prematuros com idade gestacional de até 36 semanas e seis dias, e a crianças de até 23 meses com comorbidades como cardiopatia congênita, broncodisplasia, imunocomprometimento grave, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular e anomalias congênitas das vias aéreas.

Segundo Lima, as duas estratégias — a vacina para gestantes e o nirsevimabe para grupos de risco — são complementares e ampliam significativamente a proteção dos bebês contra uma das principais causas de internação no primeiro ano de vida. Os próximos meses trarão mais clareza sobre o alcance real dessa abordagem dupla.

Como essa tendência de redução das hospitalizações no grupo vacinado não foi observada no grupo não vacinado, é muito provável que essa diminuição seja decorrência da vacina
— Tatiana Portella, pesquisadora do InfoGripe
É importante diferenciar associação de causalidade. Os dados são bastante interessantes porque mostram uma redução justamente na faixa etária que esperamos proteger com a vacinação materna
— Eduardo Jorge Lima, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a queda aparece só em bebês menores de seis meses e não nas crianças mais velhas?

Model

Porque a vacina é aplicada na gestante e funciona através dos anticorpos que passam pela placenta. Depois que o bebê nasce e cresce, essa proteção materna desaparece. As crianças mais velhas nunca receberam essa proteção, então continuam vulneráveis.

Inventor

Mas se o vírus está circulando mais este ano, por que os bebês pequenos não foram afetados?

Model

Exatamente essa é a questão que torna os dados tão interessantes. Seria lógico esperar que, com mais vírus circulando, todos os grupos etários sofressem. O fato de apenas os bebês protegidos pela vacina materna terem escapado sugere que a vacina realmente funciona.

Inventor

Os pesquisadores parecem cautelosos em afirmar que é a vacina.

Model

São. Porque associação não é a mesma coisa que causalidade. Os dados são biologicamente plausíveis, mas para ter certeza absoluta, precisam de estudos mais rigorosos. A Fiocruz está fazendo isso agora.

Inventor

E as crianças que nascem de mães que não foram vacinadas?

Model

Ficam vulneráveis. Por isso existe o nirsevimabe, um anticorpo pronto que age imediatamente. Mas ele é oferecido só para prematuros e crianças com problemas de saúde específicos. A maioria das crianças mais velhas fica sem proteção.

Inventor

Isso significa que a estratégia é incompleta?

Model

Incompleta, mas é o que temos. A vacina para gestantes protege os mais vulneráveis — os recém-nascidos — e o nirsevimabe cobre os grupos de risco. Juntas, ampliam a proteção. Mas sim, há um vazio para crianças saudáveis entre seis meses e alguns anos.

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