Em uma fazenda na Caríntia austríaca, uma vaca de 13 anos chamada Veronika revelou aos cientistas algo que o olhar humano raramente buscou nos bovinos: a capacidade de usar uma ferramenta com intenção e flexibilidade. Ao escolher deliberadamente entre as cerdas e o cabo de uma vassoura conforme a sensibilidade de cada parte do corpo, ela não apenas se coçou — ela questionou séculos de suposições sobre quais mentes merecem ser investigadas. O caso, publicado em janeiro de 2026 na revista Current Biology, sugere que os limites da inteligência bovina podem dizer mais sobre como os humanos olham d
Vaca austríaca Veronika surpreende cientistas ao usar vassoura com inteligência estratégica
Outros bovinos talvez possuam capacidades semelhantes que raramente tiveram oportunidade de demonstrar
Por que exatamente esse comportamento de Veronika importa tanto? Ela está apenas se coçando com uma vassoura.
Porque ela não está apenas se coçando. Ela está escolhendo qual parte da ferramenta usar conforme a sensibilidade da pele. Cerdas para costas resistentes, cabo liso para áreas sensíveis. Isso é adaptação estratégica.
Mas quantas vezes isso foi observado? Foram 76 usos em sete sessões — isso é bastante, mas é o suficiente para afirmar que é um padrão deliberado e não coincidência?
Os pesquisadores viram a repetição consistente. E Veronika também ajustava a posição da vassoura com a língua quando necessário. Não parece aleatório.
E isso a torna inteligente como um chimpanzé?
Não. Os pesquisadores são cuidadosos em não dizer isso. Eles apenas apontam que ela faz algo sofisticado que antes era associado principalmente a primatas.
Mas há um detalhe importante: Veronika vive como animal de companhia, não em um sistema produtivo convencional. Ela tem tempo, estímulos, oportunidades. Quantas outras vacas têm isso?
Exatamente. Osuna Mascaró disse que pode não ser que Veronika seja excepcional. Pode ser que outras vacas tenham capacidades semelhantes que nunca tiveram chance de mostrar.
Então o que muda agora?
A pergunta muda. Em vez de "vacas são inteligentes?", passa a ser "por que nunca observamos isso antes?"
E isso questiona como vemos esses animais. Se os vemos principalmente como produção, talvez nunca vejamos quem eles realmente são.
Der Puls
- Uma vaca austríaca usou uma vassoura de formas distintas e deliberadas, escolhendo cerdas para a pele resistente das costas e o cabo liso para áreas sensíveis como barriga e úbere.
- Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena chegaram ao local desconfiados de movimentos aleatórios, mas 76 registros em sete sessões desfizeram qualquer dúvida sobre a intencionalidade do comportamento.
- O uso multifuncional de partes distintas de uma mesma ferramenta havia sido documentado em chimpanzés, mas sua aparição em um bovino sacudiu expectativas consolidadas sobre cognição animal.
- O ambiente incomum de Veronika — vivendo como animal de companhia, com liberdade, estímulos e longevidade raros — levanta a hipótese de que outros bovinos possuam capacidades semelhantes jamais observadas.
- Após a publicação, relatos de comportamentos inteligentes em outras vacas começaram a chegar aos pesquisadores, abrindo uma pergunta maior: o que mais passou despercebido porque nunca foi procurado?
Em uma fazenda na Caríntia austríaca, uma vaca de 13 anos chamada Veronika revelou aos cientistas algo que o olhar humano raramente buscou nos bovinos: a capacidade de usar uma ferramenta com intenção e flexibilidade. Ao escolher deliberadamente entre as cerdas e o cabo de uma vassoura conforme a sensibilidade de cada parte do corpo, ela não apenas se coçou — ela questionou séculos de suposições sobre quais mentes merecem ser investigadas. O caso, publicado em janeiro de 2026 na revista Current Biology, sugere que os limites da inteligência bovina podem dizer mais sobre como os humanos olham do que sobre o que os animais são capazes de fazer.
Veronika tem 13 anos e vive na Caríntia, na Áustria, onde o criador Witgar Wiegele a mantém como animal de companhia. Há anos ele a observava interagindo com objetos espalhados pelo pasto, mas foi apenas quando um vídeo chegou a especialistas em cognição animal que o comportamento se tornou objeto de investigação científica.
O que os pesquisadores encontraram foi mais do que curiosidade: Veronika usa uma vassoura para se coçar, segurando-a com a boca e ajustando sua posição com a língua quando necessário. O detalhe decisivo é que ela escolhe qual parte da ferramenta usar conforme o local do corpo — cerdas para as costas, de pele mais resistente, e o cabo liso para regiões sensíveis como barriga e úbere. A alternância não é acidental.
Antonio Osuna Mascaró e Alice Auersperg, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, viajaram até o local e conduziram sete sessões de experimentos com uma escova de cabo comprido. Ao longo de dez tentativas por sessão, registraram 76 ocorrências de uso da ferramenta. O trabalho foi publicado em janeiro de 2026 na revista Current Biology.
O que chamou atenção dos especialistas foi a flexibilidade: Veronika não tratava a vassoura como um objeto de função única, mas adaptava seu uso conforme o resultado desejado. Esse tipo de comportamento multifuncional havia sido documentado em chimpanzés, mas raramente em bovinos.
Os pesquisadores apontam que o ambiente de Veronika — longe do ciclo convencional de produção, com mais tempo, estímulos e liberdade para explorar — pode ter favorecido o aparecimento desse comportamento. Osuna Mascaró, porém, é cauteloso: não vê Veronika como exceção, mas como evidência de que outros bovinos talvez possuam capacidades semelhantes que nunca tiveram oportunidade de demonstrar. Depois da publicação, relatos de comportamentos inteligentes em outras vacas começaram a chegar — sugerindo que o problema pode estar menos nos animais e mais no ângulo com que os humanos os observaram por tanto tempo.
Veronika tem 13 anos e vive na Caríntia, uma região austríaca próxima à fronteira com a Itália, onde o criador Witgar Wiegele a mantém como animal de companhia. Há anos ele observava a vaca interagindo com pedaços de madeira espalhados pelo pasto, mas foi apenas quando um vídeo chegou aos especialistas em cognição animal que seu comportamento se transformou em objeto de investigação científica. O que os pesquisadores descobriram desafiou suposições consolidadas sobre a inteligência bovina.
Veronika aprendeu a usar uma vassoura para se coçar, mas não de qualquer maneira. Ela segura o objeto com a boca, corrige sua posição quando necessário e, mais importante, escolhe deliberadamente qual parte da ferramenta usar dependendo de onde deseja se coçar. Para alcançar as costas, onde a pele é mais resistente, ela prefere as cerdas. Quando quer se coçar em pontos sensíveis como a barriga e o úbere, muda de estratégia e usa o cabo, cuja superfície é mais lisa. Essa alternância não é acidental. É uma escolha relacionada ao tipo de contato que ela pretende produzir.
Antonio Osuna Mascaró, um dos pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, chegou aos primeiros testes desconfiado de que poderia estar diante apenas de movimentos aleatórios. A repetição do padrão, porém, revelou algo mais profundo. Junto com Alice Auersperg, ele viajou até o local onde Veronika vive e organizou uma série de experimentos utilizando uma escova de cabo comprido. Foram realizadas sete sessões, cada uma com dez tentativas. Ao longo do trabalho, os pesquisadores registraram 76 ocorrências em que a vaca utilizou o objeto como ferramenta. Havia também ajustes durante a própria ação: se a vassoura estivesse posicionada de maneira pouco conveniente, Veronika empregava a língua para reorganizá-la antes de prendê-la com os dentes.
O comportamento foi publicado em janeiro de 2026 na revista científica Current Biology, e o que chamou atenção dos especialistas foi a flexibilidade no uso de uma única ferramenta. A vassoura não era tratada como um objeto com apenas uma função. Veronika adaptava seu uso de acordo com o resultado desejado. Esse tipo de utilização multifuncional de diferentes partes da mesma ferramenta havia sido documentado anteriormente em chimpanzés, mas raramente em bovinos. A comparação não coloca os dois animais no mesmo nível cognitivo geral, mas destaca como uma habilidade considerada sofisticada apareceu em uma espécie que historicamente recebeu muito menos atenção em estudos sobre uso de ferramentas.
A situação de Veronika também é incomum quando comparada à realidade de muitos bovinos. Ela vive como animal de companhia e mantém contato próximo com pessoas, em vez de estar submetida ao ciclo convencional de produção. Aos 13 anos, também alcançou uma idade que poucas vacas atingem em determinados sistemas produtivos. Os pesquisadores consideram que um ambiente com mais tempo, estímulos e oportunidades para explorar objetos pode ter favorecido o aparecimento desse tipo de comportamento. Mas Osuna Mascaró é claro: não vê Veronika como uma espécie de "Einstein das vacas". Para o pesquisador, o caso pode indicar justamente o contrário. Outros bovinos talvez possuam capacidades semelhantes que raramente tiveram oportunidade de demonstrar.
Depois da publicação do trabalho, Osuna Mascaró relatou receber informações sobre outras vacas apresentando comportamentos considerados inteligentes. A descoberta levanta uma pergunta mais ampla: será que os limites atribuídos à inteligência dos bovinos refletem realmente suas capacidades ou a maneira como humanos tradicionalmente observam esses animais? Durante muito tempo, a vaca foi vista principalmente a partir de sua função na produção agropecuária. Isso pode ter reduzido as oportunidades de observar comportamentos individuais em ambientes nos quais os animais conseguem explorar, aprender e experimentar. Veronika não fabrica a própria ferramenta, mas mostrou capacidade de reconhecer uma utilidade em um objeto, manipulá-lo e alterar seu uso de acordo com o local que pretendia alcançar. Para os cientistas, isso já é suficiente para desafiar algumas expectativas consolidadas sobre a espécie.
Bemerkenswerte Zitate
Não vê Veronika como uma espécie de 'Einstein das vacas', mas como indicação de que outros bovinos podem possuir capacidades semelhantes raramente demonstradas— Antonio Osuna Mascaró, pesquisador
Um ambiente com mais tempo, estímulos e oportunidades para explorar objetos pode ter favorecido o aparecimento desse tipo de comportamento— Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena