Ex-fumadores que usam cigarros eletrónicos têm risco 56% maior de cancro do pulmão

Registados 12.807 mortes relacionadas com cancro do pulmão entre participantes do estudo entre 2018 e 2023.
Deixar de fumar é sempre melhor, mas se não consegue sem cigarros eletrónicos, continue a ser mais seguro
Especialistas equilibram o risco documentado dos cigarros eletrónicos com a realidade de que abandonar o tabaco é o objetivo primordial.

Ex-fumadores que usam cigarros eletrónicos têm risco 56% superior de cancro do pulmão comparado com quem abandona completamente o hábito. Investigação coreana com 4,5 milhões de participantes registou 35.887 casos de cancro do pulmão entre 2018 e 2023, analisando impacto dos dispositivos eletrónicos.

  • 4,5 milhões de fumadores acompanhados na Coreia do Sul entre 2018 e 2023
  • Ex-fumadores que usam cigarros eletrónicos têm risco 56% superior de morte por cancro do pulmão
  • 35.887 casos de cancro do pulmão registados, com 12.807 mortes
  • Mais de 40% dos fumadores que deixaram o tabaco no Reino Unido em 2024 usaram cigarros eletrónicos

Estudo com 4,5 milhões de pessoas revela que ex-fumadores que usam cigarros eletrónicos têm 56% mais risco de morte por cancro do pulmão, embora seja ainda mais seguro que continuar a fumar.

Uma investigação de grande escala acompanhou mais de 4,5 milhões de fumadores adultos na Coreia do Sul entre 2018 e 2023, e os resultados trazem uma mensagem incómoda para quem trocou o tabaco pelos cigarros eletrónicos: o risco de morte por cancro do pulmão aumenta significativamente. Especificamente, os ex-fumadores que passaram a usar estes dispositivos enfrentam uma probabilidade 56% superior de desenvolver a doença em comparação com aqueles que abandonaram completamente o hábito — tanto o tabaco como os cigarros eletrónicos.

Durante o período de observação, foram registados 35.887 casos de cancro do pulmão entre os participantes, com 12.807 mortes relacionadas com a doença. Quando os investigadores, liderados por Yeon Wook Kim da Universidade Nacional de Seul, analisaram estes números segundo o padrão de utilização de cigarros eletrónicos declarado pelos próprios participantes, o padrão tornou-se claro: quem mantinha o consumo destes dispositivos após deixar o tabaco corria riscos substancialmente maiores do que quem conseguia abandonar completamente.

Mas a história não é tão simples quanto parece à primeira vista. Os investigadores sublinham um ponto crucial: deixar de fumar tabaco, mesmo que recorrendo a cigarros eletrónicos, continua a ser significativamente mais seguro do que manter o hábito de fumar. O risco de morte por qualquer causa era consideravelmente mais baixo entre os ex-fumadores que usavam estes dispositivos do que entre os fumadores atuais. Isto reforça uma verdade bem estabelecida: sair do tabaco é sempre o objetivo primordial.

Os cigarros eletrónicos têm sido associados a vários mecanismos de dano potencial. Algumas das substâncias químicas presentes nestes dispositivos foram ligadas a danos no ADN. A sua utilização também correlaciona-se com stress oxidativo — um desequilíbrio entre radicais livres e antioxidantes que provoca danos celulares — bem como com alterações epigenéticas e inflamação nos tecidos respiratórios e orais. Apesar disso, Kim e a sua equipa reconhecem que não conseguiram provar de forma definitiva que os cigarros eletrónicos, por si só, causem cancro do pulmão. São necessários estudos mais abrangentes, incluindo populações fora da Coreia do Sul.

A realidade no Reino Unido ilustra o alcance desta questão. Mais de 40% dos fumadores que deixaram o tabaco em 2024 recorreram a cigarros eletrónicos para ajudar no processo. Um ano ou mais depois de abandonarem o tabaco, 20% dos ex-fumadores continuavam a usar estes dispositivos. Becky Freeman, da Universidade de Sydney, que não participou no estudo publicado na Nature Medicine, coloca a questão em perspetiva: "O estudo vem somar-se ao conjunto, em rápido crescimento, de provas de que os cigarros eletrónicos não são, de todo, tão pouco arriscados como inicialmente se afirmou."

Os especialistas são unânimes numa recomendação: quem está a tentar deixar de fumar deve experimentar primeiro outros métodos mais seguros e eficazes, recorrendo aos cigarros eletrónicos apenas depois de esgotar outras opções. Nicole Lee, da Curtin University em Perth, resume a posição equilibrada que a comunidade científica defende: abandonar por completo tanto o tabaco como os cigarros eletrónicos oferece a maior proteção contra o cancro do pulmão. Mas reconhece também que "se não consegue deixar de fumar sem recorrer a cigarros eletrónicos, ou não quer fazê-lo, trocar o tabaco pelos cigarros eletrónicos continua a ser mais seguro." Os cigarros eletrónicos não são inofensivos, mas como estratégia de redução de danos, permanecem muito melhores do que continuar a fumar.

O estudo vem somar-se ao conjunto, em rápido crescimento, de provas de que os cigarros eletrónicos não são, de todo, tão pouco arriscados como inicialmente se afirmou
— Becky Freeman, Universidade de Sydney
Os cigarros eletrónicos não são inofensivos, mas, enquanto estratégia de redução de danos, são muito melhores do que continuar a fumar
— Nicole Lee, Curtin University
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que torna este estudo particularmente significativo em relação a outras investigações sobre cigarros eletrónicos?

Model

A escala é impressionante — 4,5 milhões de pessoas é um número que dá peso real aos números. Mas o que realmente importa é que acompanharam estas pessoas durante cinco anos, registando casos reais de cancro e mortes. Não é um estudo de laboratório ou de curto prazo.

Inventor

Então o risco de 56% é definitivo? Significa que os cigarros eletrónicos causam cancro?

Model

Não exatamente. Os investigadores foram claros: não conseguiram provar causalidade direta. O que viram foi uma associação forte. Há muitas substâncias químicas envolvidas, stress oxidativo, inflamação — mas o mecanismo exato ainda não está completamente compreendido.

Inventor

Mas então porque é que as pessoas continuam a usar cigarros eletrónicos se há este risco?

Model

Porque comparado com continuar a fumar tabaco, é ainda muito mais seguro. É uma questão de mal menor. Alguém que fuma 20 cigarros por dia está numa situação muito mais perigosa do que alguém que deixou o tabaco mas usa cigarros eletrónicos.

Inventor

Qual é a recomendação prática para alguém que quer deixar de fumar?

Model

Tenta primeiro outras coisas — adesivos de nicotina, medicamentos, apoio psicológico. Se nada funcionar e estás realmente preso ao tabaco, os cigarros eletrónicos são uma ponte melhor do que ficar a fumar. Mas o objetivo final é sair completamente de ambos.

Inventor

E quanto aos 20% de ex-fumadores no Reino Unido que continuam a usar cigarros eletrónicos um ano depois?

Model

Essa é a questão incómoda. Muitos conseguem deixar o tabaco mas ficam presos aos cigarros eletrónicos. Pode ser porque a nicotina continua a ser viciante, ou porque o hábito é difícil de quebrar. O estudo sugere que esses 20% estão a correr um risco desnecessário.

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