A tuberculose, uma das doenças infecciosas mais antigas e persistentes da humanidade, continua a desafiar a medicina moderna — sobretudo na sua forma multirresistente. Investigadores da Universidade do Porto lideraram uma revisão científica internacional, publicada na Medicinal Research Reviews, que reúne 24 autores de 13 países e traça um mapa das abordagens terapêuticas mais promissoras para vencer esta batalha. O trabalho é um sinal de que a ciência, quando organizada em rede e movida por urgência coletiva, pode abrir caminhos onde os tratamentos atuais já não chegam.
U.Porto lidera revisão internacional sobre novas terapias contra tuberculose
O futuro passará pela combinação de diferentes estratégias terapêuticas
O que torna este estudo diferente de outras revisões sobre tuberculose que já existem?
É a amplitude. Reúne 24 autores de 13 países e cobre não apenas as moléculas pequenas tradicionais, mas também péptidos, bacteriófagos e — isto é importante — terapias que trabalham com o sistema imunitário do doente, não contra a bactéria.
Mas isto é uma revisão, certo? Não é investigação original. Está a sintetizar o que já existe.
Exato. Mas a síntese é valiosa. Mostra que há múltiplas caminhos em paralelo, não um único candidato milagroso.
E a tuberculose multirresistente — é realmente tão grave quanto o artigo sugere?
Sim. Os medicamentos atuais deixam de funcionar em muitos casos. Por isso é que a urgência é real.
O artigo diz que o futuro "provavelmente" passará pela combinação de estratégias. Quanto tempo até vermos isto em clínica?
Não há prazo. Isto é investigação de base. Alguns destes compostos ainda estão em fases muito iniciais.
E a rede ADVANCE-TB — termina em setembro de 2026. Isso significa que este trabalho é um dos últimos resultados?
Provavelmente um dos últimos formais. Mas Silva diz que as colaborações vão continuar informalmente.
Portanto, a rede morre, mas as relações entre investigadores sobrevivem.
Exatamente. É assim que funciona a ciência internacional.
O Pulso
- A resistência crescente da tuberculose aos medicamentos disponíveis coloca milhões de vidas em risco e pressiona a comunidade científica a agir com renovada urgência.
- Bacteriófagos, péptidos antimicrobianos, fitoquímicos e pequenas moléculas surgem como armas inesperadas num arsenal terapêutico que vai muito além da farmacologia convencional.
- Uma abordagem menos óbvia ganha destaque: em vez de atacar a bactéria diretamente, certas terapias modulam o sistema imunitário do próprio doente para eliminar a infeção por dentro.
- O consenso dos autores aponta para combinações inteligentes de estratégias — e não para uma solução única — como o caminho para tratamentos mais curtos, seguros e eficazes.
- A rede europeia ADVANCE-TB, que financiou e conectou este esforço internacional desde 2022, encerra em setembro de 2026, mas as colaborações que gerou prometem continuar a produzir ciência e soluções.
A tuberculose, uma das doenças infecciosas mais antigas e persistentes da humanidade, continua a desafiar a medicina moderna — sobretudo na sua forma multirresistente. Investigadores da Universidade do Porto lideraram uma revisão científica internacional, publicada na Medicinal Research Reviews, que reúne 24 autores de 13 países e traça um mapa das abordagens terapêuticas mais promissoras para vencer esta batalha. O trabalho é um sinal de que a ciência, quando organizada em rede e movida por urgência coletiva, pode abrir caminhos onde os tratamentos atuais já não chegam.
Investigadores da Universidade do Porto publicaram na Medicinal Research Reviews uma revisão internacional que mapeia as estratégias mais promissoras contra a tuberculose e infeções por micobactérias. O trabalho reuniu 24 autores de 13 países, com equipas do i3S, do ICBAS, da rede REQUIMTE e da Faculdade de Farmácia da U.Porto.
O que torna este momento particularmente urgente é o aumento dos casos de tuberculose multirresistente e a propagação de micobactérias não tuberculosas — infeções que escapam aos medicamentos existentes. Tânia Silva, primeira autora e investigadora do grupo Host Targets of Infection, sublinha que esta realidade obriga a ciência a procurar tratamentos radicalmente novos.
A revisão explora várias frentes em simultâneo: pequenas moléculas desenhadas para contornar a resistência bacteriana, produtos naturais e fitoquímicos, péptidos antimicrobianos e bacteriófagos — vírus capazes de destruir bactérias. Mafalda Sarraguça, última autora do artigo, destaca ainda as terapias dirigidas ao hospedeiro, que modulam a resposta imunitária do doente para eliminar a infeção com maior eficácia e menos danos colaterais.
O consenso é claro: o futuro passa pela combinação de várias estratégias, integrando novos compostos com terapias imunológicas e sistemas avançados de administração de fármacos. O resultado esperado são tratamentos significativamente mais curtos e seguros do que os atuais.
Este trabalho é também fruto da ADVANCE-TB, rede europeia financiada pela agência COST que, desde 2022, conecta investigadores, clínicos e indústria em torno da tuberculose. Com o encerramento da rede previsto para setembro de 2026, Tânia Silva — Vice-Chair da ADVANCE-TB — acredita que as colaborações construídas continuarão a gerar novos projetos e publicações, demonstrando o valor duradouro das redes científicas internacionais.
Investigadores da Universidade do Porto acaba de publicar uma revisão internacional que mapeia as estratégias terapêuticas mais promissoras contra a tuberculose e outras infeções causadas por micobactérias. O trabalho, que saiu na revista Medicinal Research Reviews, reuniu 24 autores de 13 países e foi liderado por equipas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da rede REQUIMTE e da Faculdade de Farmácia da U.Porto.
Apesar dos progressos das últimas décadas, a tuberculose permanece um problema grave de saúde pública global. O que torna o momento particularmente urgente é o aumento dos casos de tuberculose multirresistente e a propagação de infeções por micobactérias não tuberculosas — doenças que escapam aos medicamentos disponíveis atualmente. Tânia Silva, investigadora do grupo Host Targets of Infection e primeira autora do estudo, explica que esta realidade força a comunidade científica a procurar tratamentos fundamentalmente novos, capazes de ultrapassar os mecanismos de resistência que as bactérias desenvolveram.
A revisão examina várias frentes de investigação em paralelo. Pequenas moléculas desenhadas especificamente para atingir alvos bacterianos essenciais — incluindo compostos que contornam a resistência — aparecem como uma via promissora. Mas o trabalho vai além da química convencional: inclui produtos naturais e fitoquímicos com propriedades antimicrobianas, péptidos antimicrobianos e até bacteriófagos, vírus que infectam bactérias e podem ser usados como armas biológicas contra elas. Mafalda Sarraguça, investigadora da REQUIMTE na Faculdade de Farmácia e última autora do artigo, destaca ainda uma abordagem menos convencional: as terapias dirigidas ao hospedeiro, que não atacam a bactéria diretamente, mas modulam a resposta imunitária do corpo para eliminar a infeção de forma mais eficaz e reduzir os danos causados pela doença.
O consenso entre os autores é claro: o futuro não passa por uma única solução, mas pela combinação inteligente de várias estratégias. A integração de novos compostos antimicrobianos com terapias dirigidas ao hospedeiro e sistemas mais sofisticados de administração de fármacos poderá resultar em tratamentos significativamente mais curtos, mais seguros e mais eficazes do que os atuais.
Este trabalho é também um resultado tangível da ADVANCE-TB, uma rede europeia criada em 2022 para conectar investigadores, clínicos, indústria e organizações de investigação em tuberculose. Financiada pela agência europeia COST, a rede tem impulsionado colaborações internacionais, missões científicas, formação e participação em congressos, com especial ênfase no apoio a investigadores em início de carreira. A participação portuguesa tem sido particularmente forte, com vários investigadores em posições de liderança — Tânia Silva é Vice-Chair da ADVANCE-TB.
Com o término da rede previsto para o final de setembro de 2026, Silva acredita que as colaborações construídas ao longo destes anos continuarão a gerar novos projetos, publicações e candidaturas conjuntas a financiamento. A publicação agora divulgada demonstra o impacto que estas redes internacionais podem ter na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções para uma das doenças infecciosas mais persistentes à escala global.
Citações Notáveis
O aumento dos casos de tuberculose multirresistente reforça a necessidade de desenvolver tratamentos mais eficazes e capazes de ultrapassar os mecanismos de resistência aos medicamentos atualmente disponíveis— Tânia Silva, investigadora do i3S e primeira autora do estudo
A integração de novos compostos antimicrobianos com terapias dirigidas ao hospedeiro e sistemas mais eficientes de administração de fármacos poderá contribuir para tratamentos mais curtos, seguros e eficazes— Mafalda Sarraguça, investigadora da REQUIMTE na FFUP