Mal consigo conter a alegria de saber que não vamos mais ficar longe da família
Na selva de Putumayo, noventa e nove homens depuseram suas armas diante de um contêiner com a inscrição 'Aposta na vida, cumpro a paz' — um gesto que a Colômbia, carregada por seis décadas de conflito, raramente havia testemunhado de forma voluntária. A CNEB, grupo dissidente das Farc, tornou-se o primeiro movimento guerrilheiro a alcançar a entrega real de armamento sob a política de paz total do presidente Gustavo Petro. O momento, porém, chegou suspenso entre dois mundos: o de uma promessa que começa a se materializar e o de uma eleição, marcada para três dias depois, que poderia desfazê-la por completo.
- Noventa e nove guerrilheiros caminharam pela selva colombiana carregando fuzis que, em horas, deixariam de ser seus — o maior avanço concreto da política de paz total de Petro em quatro anos de governo.
- A entrega acontece num dos momentos de maior tensão política do país: três dias antes de um segundo turno que opõe a continuidade da paz a uma virada ultradireitista apoiada por Donald Trump.
- Os rebeldes que depuseram as armas enfrentam um futuro frágil — dez meses em zona de transição, com mandados de prisão suspensos, mas benefícios que dependem inteiramente de quem assumir a presidência em agosto.
- Homens que voltaram às armas após 2016 agora falam em família, em profissão, em nunca mais tocar em nada ilícito — palavras que revelam o peso humano por trás de cada negociação de paz.
- Se o próximo presidente encerrar as mesas de negociação, os noventa e nove voltarão a ser procurados, transformando o que foi celebrado como vitória em capítulo inconcluso de uma guerra que a Colômbia ainda não sabe como terminar.
Na quinta-feira, 18 de junho, noventa e nove homens em uniformes camuflados atravessaram a selva do departamento de Putumayo carregando seus fuzis até um grande contêiner com os dizeres: "Aposta na vida, cumpro a paz". Era o primeiro grupo guerrilheiro a chegar à entrega real de armamento sob a política de paz total do presidente Gustavo Petro — e o momento chegava três dias antes de uma eleição que poderia mudar tudo.
Os rebeldes pertenciam à Coordenadora Nacional Exército Bolivariano, a CNEB, dissidentes das Farc que haviam abandonado o acordo de 2016 e voltado às armas. Desta vez, porém, a negociação avançou sem grandes obstáculos. O negociador do governo Armando Novoa descreveu o gesto como "uma mensagem muito forte e poderosa para a sociedade colombiana", num país que carrega seis décadas de conflito armado nas costas.
Entre os que depuseram as armas, havia quem mal conseguia conter a alegria de voltar à família, e quem já pensava em aprender uma profissão e nunca mais tocar em nada ilícito. Palavras simples, mas que vinham de homens que haviam escolhido deixar para trás a única vida que conheciam.
O que viria a seguir era tão decisivo quanto o gesto em si. Os noventa e nove passariam dez meses em uma zona especial no Vale do Guamuez — antiga plantação de coca — com casas equipadas com painéis solares, proteção estatal e mandados de prisão suspensos, enquanto governo e rebeldes avançavam sobre o desarmamento definitivo e a situação jurídica de cada um.
No domingo seguinte, os colombianos escolheriam entre Iván Cepeda, aliado de Petro e defensor da continuidade da paz, e Abelardo de la Espriella, ultradireitista apoiado por Trump que prometia encerrar qualquer aproximação com grupos ilegais. Se De la Espriella vencesse e fechasse as mesas de negociação, os noventa e nove perderiam seus benefícios e voltariam a ser procurados pela justiça. Os rebeldes haviam feito sua parte. Agora era a Colômbia que precisava decidir se queria, de fato, a paz.
Na quinta-feira, 18 de junho, noventa e nove homens em uniformes camuflados caminharam pela selva do departamento de Putumayo, no sul da Colômbia, carregando seus fuzis até um grande contêiner. Nele estava escrito: "Aposta na vida, cumpro a paz". Dentro de horas, aquelas armas não seriam mais deles. Era o primeiro grande teste da política de paz total do presidente Gustavo Petro, e acontecia no momento mais crítico de seu governo — três dias antes de uma eleição que poderia enterrar tudo o que ele havia construído.
Os noventa e nove rebeldes pertenciam à Coordenadora Nacional Exército Bolivariano, a CNEB, um grupo dissidente das Farc que havia abandonado o acordo de paz de 2016 e voltado às armas. Diferentemente de outras negociações que Petro havia tentado ao longo de seu mandato, esta avançava sem grandes obstáculos. Era o primeiro grupo guerrilheiro a chegar a este ponto — a entrega real de armamento — e o significado não era pequeno. Um dos negociadores do governo, Armando Novoa, chamou o momento de "uma mensagem muito forte e muito poderosa para a sociedade colombiana nesta época em que há muito barulho de guerra". A Colômbia, afinal, carregava seis décadas de conflito armado nas costas. Que guerrilheiros entregassem armas voluntariamente era quase inédito.
Os homens que deixaram suas armas naquele contêiner não eram heróis de nenhum lado. Eram dissidentes, rebeldes que haviam escolhido voltar à luta depois que seus companheiros assinaram a paz. Agora, porém, estavam cansados ou convencidos ou ambos. Um deles, que pediu para não ser identificado, disse à AFP: "Estou muito feliz, mal consigo conter a alegria de saber que não vamos mais ficar longe da família". Outro, conhecido como Ferney, carregava sua mochila nas costas e falava em se preparar para uma profissão, em nunca mais voltar a nada ilícito. Essas palavras importavam porque vinham de homens que haviam escolhido deixar para trás uma vida que conheciam.
O que aconteceria a seguir era tão importante quanto o que havia acontecido. Os noventa e nove permaneceriam durante dez meses em uma zona especial no Vale do Guamuez, em terreno que antes havia sido plantação de coca. Receberiam kits de higiene, livros, casas equipadas com painéis solares e proteção de uma unidade estatal de escoltas. Era um período de transição, um tempo para que o governo e os rebeldes avançassem sobre o desarmamento definitivo e a situação jurídica deles. Mas tudo dependia do que viria depois.
No domingo seguinte, os colombianos elegeriam um novo presidente. De um lado estava Iván Cepeda, senador aliado de Petro, que prometia dar continuidade à política de paz. Do outro estava Abelardo de la Espriella, ultradireitista que defendia o fim de qualquer aproximação com organizações ilegais. Donald Trump apoiava abertamente De la Espriella. A violência na Colômbia estava na pior onda da última década. Tudo o que Petro havia construído — cada negociação, cada gesto de abertura — estava em jogo.
O presidente entregaria o poder em 7 de agosto. Se o próximo governante decidisse encerrar as mesas de negociação, os noventa e nove homens em Putumayo perderiam seus benefícios: a suspensão dos mandados de prisão, a proteção, a chance de se reintegrar. Voltariam a ser procurados. A entrega de armas que havia acontecido naquela quinta-feira na selva não seria o fim de uma história, mas talvez apenas o primeiro capítulo de uma que ainda não sabia como terminaria. Os rebeldes haviam feito sua parte. Agora era a Colômbia que precisava decidir se queria realmente a paz.
Notable Quotes
Uma mensagem muito forte e muito poderosa para a sociedade colombiana nesta época em que há muito barulho de guerra— Armando Novoa, chefe da delegação de paz do governo
Meu desejo é me preparar em alguma profissão para nunca mais voltar a praticar nada ilícito nesta vida— Ferney, guerrilheiro da CNEB
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa entrega de armas importa tanto agora, neste momento específico?
Porque é a primeira vez que um grupo guerrilheiro realmente entrega armas sob negociação com Petro. Não é promessa, não é acordo no papel — são fuzis dentro de um contêiner. Três dias antes de uma eleição que pode acabar com tudo isso.
E se o próximo presidente disser não?
Então esses noventa e nove homens perdem tudo. Os mandados de prisão voltam. A zona especial desaparece. Voltam a ser fugitivos. É por isso que a eleição é tão importante — não é só sobre política, é sobre se essas pessoas conseguem sair da guerra.
Eles realmente querem sair?
Um deles disse que mal conseguia conter a alegria de não ficar mais longe da família. Outro falou em aprender uma profissão. Pode ser cansaço, pode ser convicção genuína. Provavelmente é os dois. Mas sim, parecem querer.
A Colômbia nunca viu isso antes?
Não assim. As Farc entregaram armas, mas um ano depois de assinarem o acordo. Isso aqui é diferente — é durante as negociações, é um gesto de boa fé no meio da incerteza.
E Trump está envolvido nisso?
Está apoiando o candidato que quer acabar com tudo. Quer dizer, a política de paz de Petro já é controversa. Trump torna tudo mais urgente, mais tenso.
Então o que vem agora?
Dez meses em uma zona especial. Desarmamento definitivo. Situação jurídica resolvida. Mas tudo condicionado a um presidente que ainda não existe.