Enquanto nações do Norte enfrentam a angústia de ver seus ideais desmoronarem, o Brasil carrega uma estranha imunidade: nunca cultivou a ilusão de que as coisas funcionariam. O colunista da Folha de S.Paulo argumenta que o niilismo não é um desvio da identidade nacional brasileira, mas sua expressão mais honesta — um sistema em que a corrupção de caráter deixou de ser anomalia para se tornar lógica institucional. Diante desse vazio, o que resta não são grandes projetos, mas virtudes primárias: coragem, humildade e a capacidade de sentir vergonha.
Um projeto de país no Brasil não passa de um tique nervoso
Tudo que a maioria toca transforma-se em nada
Por que você acha que o Brasil é diferente de outros países que também enfrentam corrupção e crise institucional?
Porque aqui a corrupção não é um desvio do sistema. É o sistema. Em outros lugares há luta, há tensão entre forças que querem fazer certo e forças que querem roubar. Aqui todos sabem que é tudo roubo, e todos participam com um sorriso.
Mas isso não é um pouco exagerado? Existem pessoas honestas no Brasil.
Existem, claro. Mas elas são exceção tão rara que parecem estrangeiras. E quando tentam fazer algo ético, o sistema as transforma em nada. É como tentar nadar contra uma correnteza que é o próprio país.
Você mencionou que o patriotismo é sempre mentira. Mas não há momentos em que falar de nação, de futuro comum, é necessário?
Necessário, talvez. Mas aqui qualquer palavra sobre soberania ou futuro vira arma política. Lula fala em soberania, Bolsonaro falava em pátria. Ambos mentindo. A palavra perde sentido quando é usada por quem a esvazia.
E então, qual é a saída?
Não há saída. Só há preservação. Coragem para ver o real, humildade para aceitar que não vai mudar, e vergonha de estar aqui dentro disso tudo.
O Pulso
- A tese é provocadora: o Brasil está mais preparado para o colapso global justamente porque nunca acreditou em si mesmo como projeto de nação.
- A corrosão moral não é acidente nem exceção — tornou-se o sistema racional que governa instituições, carreiras e relações de poder em escala nacional.
- Patriotismo e soberania circulam como moeda falsa, reconfigurados a cada geração para servir aos mesmos interesses canalhas, enquanto os três poderes convergem em conluio em vez de se equilibrarem.
- O brasileiro cordial, figura mítica da sociologia nacional, teria se transmutado em niilista sorridente — cínico por necessidade, amargo por lucidez.
- A saída apontada é mínima e quase arcaica: preservar virtudes primitivas como coragem, humildade e vergonha num país que, segundo o argumento, perdeu a consciência do pecado.
Enquanto nações do Norte enfrentam a angústia de ver seus ideais desmoronarem, o Brasil carrega uma estranha imunidade: nunca cultivou a ilusão de que as coisas funcionariam. O colunista da Folha de S.Paulo argumenta que o niilismo não é um desvio da identidade nacional brasileira, mas sua expressão mais honesta — um sistema em que a corrupção de caráter deixou de ser anomalia para se tornar lógica institucional. Diante desse vazio, o que resta não são grandes projetos, mas virtudes primárias: coragem, humildade e a capacidade de sentir vergonha.
Há uma vantagem estranha em nunca ter acreditado. Enquanto europeus e americanos entram em pânico com o possível colapso de séculos de otimismo civilizatório, o Brasil já habita esse colapso como condição natural. O país nunca realizou um projeto nacional coerente — e o colunista argumenta que isso não é tragédia recente, mas traço constitutivo.
Existe, no entanto, uma classe que finge ignorar essa realidade. Protegida por lobbies e contas bancárias, ela se vende como vanguarda do bem enquanto conhece perfeitamente as regras do jogo podre. O Carnaval, nessa leitura, não é festa de povo alegre, mas celebração inconsciente do fim do mundo — sem Quarta-Feira de Cinzas porque nunca houve, por aqui, consciência verdadeira do pecado.
A corrosão moral é descrita como eixo dinâmico da cultura brasileira. Onde outras civilizações travam um combate entre o bem e o mal, aqui nem o mal consegue se firmar — porque exigiria coerência, e coerência é tratada como fraqueza ou farsa. A vida ética virou comportamento não adaptativo. Patriotismo e nacionalismo são redefinidos a cada ciclo político para servir aos mesmos fins: em 2022, eram patriotas os que pediam golpe; hoje, o mesmo rótulo cobre discursos de soberania igualmente vazios.
A premissa republicana dos freios e contrapesos desaparece em Brasília sob um conluio que é regra, não exceção. A corrupção de caráter, antes desvio individual, tornou-se sistema racional abraçado por instituições inteiras. O Brasil seria, assim, o país do futuro — mas de um futuro entendido como fracasso coletivo de se elevar acima dos desejos mais banais.
O que resta, conclui o argumento, é quase grego na sua austeridade: preservar as virtudes mais primitivas — coragem, humildade e vergonha. Num país onde só os cegos verão o futuro, talvez sejam essas as únicas ferramentas que ainda não foram transformadas em nada.
Enquanto europeus e americanos entram em pânico com a possibilidade de que o mundo melhor que imaginaram durante séculos desabe, os brasileiros possuem uma vantagem estranha: nunca acreditamos que as coisas funcionariam. O Brasil nunca funcionou e nunca funcionará, e essa certeza nos torna, paradoxalmente, mais preparados para o colapso. Um projeto de nação por aqui não é mais que um tique nervoso, um reflexo involuntário, quando não apenas um nicho de mercado entre tantos outros.
Há entre nós uma classe que finge não saber disso. Os bonzinhos, bonitinhos e inteligentinhos, protegidos por seus lobbies e suas contas bancárias, vendem-se como vanguarda do bem nacional enquanto sabem perfeitamente que o jogo está podre. O Carnaval cresceu como festa popular, mas o que celebra é a orgia do fim do mundo, tudo regado a cachaça e sujeira. Não há Quarta-Feira de Cinzas por aqui porque nunca houve consciência do pecado. Abaixo do Equador, dizem, não há pecado.
A corrosão moral é o eixo dinâmico da nossa cultura. Em outras terras há um combate constante entre Deus e o Diabo, mas aqui nem o Diabo consegue cavar raízes porque exigiria coerência, e coerência entre nós é fraqueza ou farsa barata. A vida ética, tão celebrada na filosofia, aqui se tornou comportamento não adaptativo, puro marketing de causa. Patriotismo e nacionalismo são o último reduto dos canalhas, e cada geração os redefine conforme necessário. Em 2022 eram patriotas os que pediam golpe militar. Hoje o mesmo rótulo cabe aos que falam em soberania nacional, como se a palavra não fosse mentira na boca de qualquer político.
A premissa republicana de que os três poderes devem ser independentes, oferecendo freios e contrapesos uns aos outros, desaparece em Brasília sob um conluio que é regra geral, não exceção. O Brasil pratica niilismo em escala nacional. Se é de fato o país do futuro, é porque o futuro é o fracasso humano de se elevar acima dos seus desejos mais banais. A corrupção de caráter, que sempre nos devastou, tornou-se agora um sistema racional de conduta, abraçando instituições e carreiras profissionais inteiras.
É como se, ao contrário do rei Midas que transformava tudo em ouro, aqui a maioria daqueles com alguma forma de poder transforma tudo que toca em nada. Daí o niilismo como inconsciente nacional. O brasileiro que era cordial virou niilista, com um sorriso que oscila entre amargo e cínico, defendendo-se do poder em larga escala. Os antigos gregos, segundo Eurípedes, deveriam invejar os humildes porque eles não eram obrigados a ver a realidade como ela é. Aqui, só os cegos verão o futuro. O que resta é preservar as virtudes mais primitivas: coragem, humildade e vergonha.
Citações Notáveis
Um projeto de país aqui não passa de um tique nervoso, quando não apenas um nicho de mercado— Colunista
O Brasil pratica o niilismo em escala nacional— Colunista