Numa era em que guerras nucleares, inteligências artificiais, colapso climático e embrutecimento coletivo competem pela nossa angústia, surge um paradoxo silencioso: a abundância de apocalipses esvazia o poder de cada um deles. Quando o medo não encontra um único ponto de convergência, dispersa-se como fumaça — e a humanidade, sobrecarregada de fins do mundo, acaba por não temer nenhum com a seriedade que talvez mereça. É nessa inflação do terror que o autor encontra, com ironia lúcida, uma estranha forma de alívio.
Um cardápio de apocalipses: qual escolher?
Dezassete bichos-papões desvalorizam a moeda do fim do mundo
Então está a dizer que o problema não é existirem ameaças reais, mas existirem demasiadas ao mesmo tempo?
Exatamente. Uma ameaça concentra o medo. Dezassete ameaças dispersam-no. É como tentar estar assustado com dezassete coisas diferentes — o medo perde intensidade.
Mas isso não significa que as ameaças sejam menos reais. A inteligência artificial, o clima, a guerra nuclear — continuam ali, independentemente de estarmos emocionalmente equipados para lidar com todas.
Verdade. Mas há um limite para a quantidade de ansiedade que uma pessoa consegue manter. Quando ultrapassa esse limite, a mente desliga-se.
E por que escolher a IA como a ameaça a acompanhar?
Porque tem uma fraqueza embutida: a tecnologia nunca funciona perfeitamente. Nenhuma máquina consegue manter-se operacional indefinidamente sem falhas.
Mas isso é especulação. Não sabemos se uma IA superinteligente teria as mesmas limitações que um computador pessoal. Pode ser completamente diferente.
Talvez. Mas é uma esperança racional baseada em padrões históricos. É melhor do que não ter nada.
Então a conclusão é que devemos escolher um apocalipse e ignorar os outros?
Não ignorar. Apenas aceitar que não conseguimos estar igualmente preocupados com tudo. Escolher um permite manter a sanidade.
Le Pouls
- Dezassete ameaças existenciais simultâneas não multiplicam o medo — diluem-no, criando uma paralisia emocional que impede qualquer resposta coerente.
- A guerra nuclear voltou com toda a sua antiga reputação, a IA promete extinções ainda mal compreendidas, e o clima vai sendo esquecido sob o peso das outras catástrofes.
- A degradação cognitiva provocada pelos ecrãs preocupa menos — quem já vivia com a própria estupidez encontra nela uma ameaça familiar e, portanto, suportável.
- O autor propõe uma saída pragmática: escolher apenas um apocalipse para temer, e a IA vence por ser, paradoxalmente, a mais evitável — as máquinas sempre falharam antes de destruir tudo.
Numa era em que guerras nucleares, inteligências artificiais, colapso climático e embrutecimento coletivo competem pela nossa angústia, surge um paradoxo silencioso: a abundância de apocalipses esvazia o poder de cada um deles. Quando o medo não encontra um único ponto de convergência, dispersa-se como fumaça — e a humanidade, sobrecarregada de fins do mundo, acaba por não temer nenhum com a seriedade que talvez mereça. É nessa inflação do terror que o autor encontra, com ironia lúcida, uma estranha forma de alívio.
Há um problema prático em viver numa época de catástrofes a concorrer entre si: qual delas merece genuinamente a nossa atenção? A guerra nuclear tem história e reputação; a inteligência artificial traz promessas de extinção ainda mal definidas; o apocalipse climático vai sendo soterrado pelas outras ameaças; e a degradação cognitiva provocada pelos telemóveis preocupa menos — afinal, já se era estúpido muito antes das máquinas chegarem.
O verdadeiro problema não é a gravidade de cada ameaça isolada, mas a sua acumulação. Quando há dezassete apocalipses plausíveis em simultâneo, nenhum consegue concentrar o medo da forma que um único conseguiria. É como tentar assustar uma criança com dezassete bichos-papão ao mesmo tempo — o efeito desvanece-se. A moeda do fim do mundo sofre inflação, e o pânico perde valor de uso.
A solução encontrada é simples e um pouco absurda: escolher apenas um apocalipse para temer. A inteligência artificial ganha esse lugar, não por ser a mais provável, mas por parecer a mais evitável. A história das tecnologias é, afinal, a história de máquinas que nunca funcionam perfeitamente durante muito tempo. Se um computador comum ainda precisa de ser desligado e religado para continuar a funcionar, é difícil imaginar uma superinteligência a destruir a humanidade sem um reinício inesperado pelo caminho. É aí, conclui o autor com ironia, que reside a verdadeira ficção científica.
Há um problema prático em viver numa época de múltiplas catástrofes iminentes: qual delas merece a nossa atenção? Qual nos deve manter acordado à noite?
A guerra nuclear tem pedigree. Foi o espectro que assombrou gerações inteiras, depois desapareceu por um tempo, e agora voltou com toda a sua antiga reputação intacta. Tem a vantagem de ser rápida — talvez até piedosa, se considerarmos que o sofrimento breve é preferível ao prolongado. Mas é também velha demais, desgastada pelo uso.
Depois chegou a inteligência artificial, trazendo consigo promessas de extinção igualmente convincentes. Ninguém sabe bem como vai funcionar — se nos roubará o trabalho primeiro ou se nos arrastará para uma guerra nuclear através de um algoritmo. Os filmes têm opiniões sobre isto, mas os filmes mentem.
E depois está o apocalipse climático, que parece estar a ser esquecido sob o peso de todas as outras ameaças. É como se a quantidade de desastres possíveis tivesse criado uma espécie de fadiga existencial, um cansaço que nos impede de manter o pânico focado num único ponto.
Há ainda a questão da degradação cognitiva provocada pelos telemóveis e pelas redes sociais — o apocalipse da estupidez coletiva. Este causa menos inquietação pessoal, porque já se era estúpido muito antes destas máquinas chegarem. Há experiência acumulada em viver com essa condição. Adaptar-se a um mundo onde todos à volta também são estúpidos parece, portanto, uma transição manejável.
Mas aqui está o verdadeiro problema: quando há dezassete ameaças apocalípticas simultâneas, nenhuma delas consegue concentrar o medo da forma que uma única ameaça conseguiria. É como a velha tática de assustar crianças para comerem a sopa — funciona com um bicho-papão. Com dezassete, o efeito desvanece-se. A moeda do fim do mundo sofre inflação. O pânico perde valor.
Neste momento, não há disponibilidade emocional suficiente para acompanhar todos estes apocalipses em simultâneo — especialmente para alguém que, por natureza, é particularmente suscetível a acreditar neles. Basta ver um jovem com as calças descidas, as cuecas à vista, para sentir que o colapso está iminente. Mas quando há tantos colapsos possíveis, a ansiedade dispersa-se, dilui-se.
A solução é escolher um. O escolhido é a inteligência artificial, porque parece ser o mais evitável. A história das tecnologias é a história de máquinas que nunca funcionam perfeitamente durante muito tempo. Se nem conseguimos manter um computador ligado sem precisar de o desligar e voltar a ligar, como é que uma máquina superinteligente vai conseguir destruir a humanidade sem um reinício inesperado? É aí que reside a verdadeira ficção científica — não em filmes de ficção científica, mas na ideia de que algo funcione sem falhas.
Citations marquantes
O aspecto mais fantasioso do Exterminador do Futuro é o facto de, em 90 minutos de filme, não ter sido preciso desligar e voltar a ligar o Arnold Schwarzenegger— Colunista