Trump retornou à ONU exaltando a força, mas enfrentou isolamento crescente enquanto coalizões multilaterais se consolidavam. Novas iniciativas como a Parceria pelo Multilateralismo e a Iniciativa das Potências Médias para IA buscam renovar instituições internacionais.
Um ano depois, o multilateralismo ressurge diante dos desafios globais
agir sozinho já não é uma opção sustentável
Como você explica essa virada tão rápida? Um ano atrás Trump anunciava o fim do multilateralismo, agora está isolado. O que mudou?
Os desafios globais não esperaram. Fechamento de estreitos, guerra, fome — nenhum país resolve isso sozinho. Trump pode ameaçar, mas seus emissários estão negociando nos bastidores. A realidade impõe limites à retórica.
Mas cuidado com a narrativa de "ressurreição". Essas iniciativas — a Parceria pelo Multilateralismo, o Painel sobre Desigualdade — são promessas. Ainda não são ação. Precisamos ver se viram resoluções, financiamento, implementação real.
E quanto ao Board of Peace que Trump criou? Simplesmente desapareceu?
Esvaziou-se. Sem apoio internacional, sem legitimidade, não conseguiu se sustentar. O Grupo de Haia, criado em resposta ao genocídio em Gaza, é o que ganhou força — uma coalizão com base em direitos e justiça, não em força bruta.
Aí está o ponto: o multilateralismo que ressurge é diferente. Não é defesa das velhas instituições. É uma reivindicação de poder para o Sul Global, de soberania compartilhada. Isso é genuinamente novo ou é apenas retórica?
E a inteligência artificial? Por que ganhou tanta atenção?
Porque o risco é claro: EUA e China dominam, poucas empresas concentram poder. Se não compartilharem infraestrutura e conhecimento, o mundo digital reproduz as mesmas dependências coloniais de séculos atrás.
Mas compartilhar IA é muito mais complexo que compartilhar dados climáticos. Há segurança nacional envolvida, propriedade intelectual, competição econômica. A Iniciativa das Potências Médias é bonita no papel. Na prática?
Lula pediu que a ONU fosse um "templo da paz". Isso é possível, dado tudo que você descreveu?
Possível é diferente de provável. Mas o fato de que sete governos e a UE estão formalizando compromisso com multilateralismo, que o Sul Global está reivindicando poder — isso muda o jogo político. Não garante sucesso, mas muda as condições.
E o mais importante: ninguém está dizendo que o multilateralismo foi consertado. Continua com seus problemas históricos. Ruanda, Bósnia, Iraque — essas falhas não desaparecem. O que mudou é que agir sozinho ficou insustentável. Isso é pragmatismo, não idealismo.
O Pulso
- Trump retornou à ONU exaltando a força, mas enfrentou isolamento crescente
- Sete governos e a União Europeia lançaram a Parceria pelo Multilateralismo
- Iniciativa das Potências Médias para IA liderada por Quênia e Finlândia
- Painel Internacional sobre Desigualdade impulsionado por Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha
- Board of Peace esvaziou-se; Grupo de Haia consolidou-se como coalizão multilateral
Trump retornou à ONU exaltando a força, mas enfrentou isolamento crescente enquanto coalizões multilaterais se consolidavam. Novas iniciativas como a Parceria pelo Multilateralismo e a Iniciativa das Potências Médias para IA buscam renovar instituições internacionais.
Um ano após Trump anunciar uma ordem mundial baseada na força, o multilateralismo ressurge com apoio internacional renovado e novas iniciativas em IA e desigualdade.
Um ano atrás, Donald Trump subiu ao pódio da Assembleia Geral da ONU e deixou uma mensagem cristalina: a força era a moeda que importava, e a ação militar era o único remédio para guerras. Aquele discurso não era retórica vaga — ele anunciava uma reconfiguração fundamental da ordem internacional, longe dos compromissos multilaterais que haviam sustentado as relações entre nações desde o fim da Segunda Guerra. A visão ganhou forma concreta no chamado Board of Peace, um conselho que deveria materializar essa nova abordagem baseada na coerção e no poder bruto.
Mas quando Trump voltou à mesma tribuna este ano, o cenário havia mudado de forma notável. Seu isolamento foi evidente. Enquanto ele exaltava novamente a primazia da força — inclusive ameaçando destruir o Irã — seus próprios emissários negociavam nos bastidores com o chanceler iraniano Abbas Aragchi. O Board of Peace, entretanto, esvaziou-se. No lugar dele, o Grupo de Haia, criado em resposta ao genocídio na faixa de Gaza, consolidou-se como uma coalizão que defendia algo radicalmente diferente: um multilateralismo fundado em direitos, equidade e justiça. O presidente Lula, aos 81 anos, pediu que a ONU voltasse a ser um "templo da paz" — uma frase que capturava o sentimento crescente de que a ordem baseada na força havia chegado a seus limites.
O que emergiu desta Assembleia Geral foi uma renovação internacional do compromisso com o multilateralismo. Sete governos e a União Europeia lançaram a Parceria pelo Multilateralismo, reafirmando a importância das instituições, normas e acordos internacionais. Seus líderes foram diretos: "a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática". Essa não era nostalgia pelas velhas estruturas. Era um reconhecimento de que os desafios do século 21 — uma crise global de segurança alimentar provocada pelo fechamento do estreito de Hormuz, a guerra na Ucrânia, os efeitos do El Niño — não podiam ser enfrentados por nações agindo sozinhas.
Dois problemas específicos ganharam destaque como prioridades para essa renovação multilateral. O primeiro foi a inteligência artificial. Os presidentes William Ruto, do Quênia, e Alexander Stubb, da Finlândia, lançaram a Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial, reconhecendo um risco claro: com Estados Unidos e China dominando o setor e poucas empresas concentrando poder tecnológico e influência política, o mundo digital poderia reproduzir as mesmas relações de dependência que marcaram séculos anteriores. A alternativa proposta era compartilhar infraestrutura computacional, bases de dados e talentos — uma abordagem baseada em soberania compartilhada e capacidades coletivas.
O segundo foi a desigualdade. Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha impulsionaram a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade, inspirado no modelo do IPCC, o painel climático das Nações Unidas. Esse novo órgão reuniria evidências sobre desigualdades dentro dos países e entre eles, subsidiando reformas financeiras, tributárias e de proteção social. A iniciativa buscava agora uma resolução formal da Assembleia Geral.
É verdade que o multilateralismo não está curado de suas feridas históricas. A Guerra Fria bloqueou o Conselho de Segurança repetidamente. O sistema falhou em impedir genocídios em Ruanda e na Bósnia e Herzegovina. A invasão do Iraque em 2003 ainda ecoa na agressão russa à Ucrânia. Persistem cortes de financiamento, violações de soberania, desprezo pelas regras da guerra, inação diante da emergência climática. A pandemia expôs a interdependência dos problemas globais e a dificuldade de transformar solidariedade em ação concreta.
Mas o tom desta Assembleia Geral não foi de defesa nostálgica das instituições do passado. Foi uma reivindicação de soberania, prosperidade compartilhada e redistribuição de poder em favor do Sul Global. O encontro do ano anterior havia deixado a sensação de uma morte anunciada. Este apontava para algo diferente: um reconhecimento de que agir sozinho não é mais uma opção sustentável diante dos desafios que nenhuma nação consegue enfrentar isoladamente. O desafio agora não é se o multilateralismo sobreviverá, mas como ele se transformará para responder aos problemas do nosso tempo — e, mais importante, como as palavras de compromisso se traduzirão em ação, especialmente quando a potência hegemônica observa essa transformação com desconfiança.
Citações Notáveis
a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática— Líderes da Parceria pelo Multilateralismo
a ONU volte a ser um templo da paz— Presidente Lula