Um ano depois, o multilateralismo ressurge diante dos desafios globais

agir sozinho já não é uma opção sustentável
O reconhecimento que emergiu da Assembleia Geral de que nenhuma nação consegue enfrentar sozinha os desafios do século 21.
Mark

Como você explica essa virada tão rápida? Um ano atrás Trump anunciava o fim do multilateralismo, agora está isolado. O que mudou?

Mimi

Os desafios globais não esperaram. Fechamento de estreitos, guerra, fome — nenhum país resolve isso sozinho. Trump pode ameaçar, mas seus emissários estão negociando nos bastidores. A realidade impõe limites à retórica.

Luke

Mas cuidado com a narrativa de "ressurreição". Essas iniciativas — a Parceria pelo Multilateralismo, o Painel sobre Desigualdade — são promessas. Ainda não são ação. Precisamos ver se viram resoluções, financiamento, implementação real.

Mark

E quanto ao Board of Peace que Trump criou? Simplesmente desapareceu?

Mimi

Esvaziou-se. Sem apoio internacional, sem legitimidade, não conseguiu se sustentar. O Grupo de Haia, criado em resposta ao genocídio em Gaza, é o que ganhou força — uma coalizão com base em direitos e justiça, não em força bruta.

Luke

Aí está o ponto: o multilateralismo que ressurge é diferente. Não é defesa das velhas instituições. É uma reivindicação de poder para o Sul Global, de soberania compartilhada. Isso é genuinamente novo ou é apenas retórica?

Mark

E a inteligência artificial? Por que ganhou tanta atenção?

Mimi

Porque o risco é claro: EUA e China dominam, poucas empresas concentram poder. Se não compartilharem infraestrutura e conhecimento, o mundo digital reproduz as mesmas dependências coloniais de séculos atrás.

Luke

Mas compartilhar IA é muito mais complexo que compartilhar dados climáticos. Há segurança nacional envolvida, propriedade intelectual, competição econômica. A Iniciativa das Potências Médias é bonita no papel. Na prática?

Mark

Lula pediu que a ONU fosse um "templo da paz". Isso é possível, dado tudo que você descreveu?

Mimi

Possível é diferente de provável. Mas o fato de que sete governos e a UE estão formalizando compromisso com multilateralismo, que o Sul Global está reivindicando poder — isso muda o jogo político. Não garante sucesso, mas muda as condições.

Luke

E o mais importante: ninguém está dizendo que o multilateralismo foi consertado. Continua com seus problemas históricos. Ruanda, Bósnia, Iraque — essas falhas não desaparecem. O que mudou é que agir sozinho ficou insustentável. Isso é pragmatismo, não idealismo.

  • Trump retornou à ONU exaltando a força, mas enfrentou isolamento crescente
  • Sete governos e a União Europeia lançaram a Parceria pelo Multilateralismo
  • Iniciativa das Potências Médias para IA liderada por Quênia e Finlândia
  • Painel Internacional sobre Desigualdade impulsionado por Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha
  • Board of Peace esvaziou-se; Grupo de Haia consolidou-se como coalizão multilateral

Trump retornou à ONU exaltando a força, mas enfrentou isolamento crescente enquanto coalizões multilaterais se consolidavam. Novas iniciativas como a Parceria pelo Multilateralismo e a Iniciativa das Potências Médias para IA buscam renovar instituições internacionais.

Um ano após Trump anunciar uma ordem mundial baseada na força, o multilateralismo ressurge com apoio internacional renovado e novas iniciativas em IA e desigualdade.

Um ano atrás, Donald Trump subiu ao pódio da Assembleia Geral da ONU e deixou uma mensagem cristalina: a força era a moeda que importava, e a ação militar era o único remédio para guerras. Aquele discurso não era retórica vaga — ele anunciava uma reconfiguração fundamental da ordem internacional, longe dos compromissos multilaterais que haviam sustentado as relações entre nações desde o fim da Segunda Guerra. A visão ganhou forma concreta no chamado Board of Peace, um conselho que deveria materializar essa nova abordagem baseada na coerção e no poder bruto.

Mas quando Trump voltou à mesma tribuna este ano, o cenário havia mudado de forma notável. Seu isolamento foi evidente. Enquanto ele exaltava novamente a primazia da força — inclusive ameaçando destruir o Irã — seus próprios emissários negociavam nos bastidores com o chanceler iraniano Abbas Aragchi. O Board of Peace, entretanto, esvaziou-se. No lugar dele, o Grupo de Haia, criado em resposta ao genocídio na faixa de Gaza, consolidou-se como uma coalizão que defendia algo radicalmente diferente: um multilateralismo fundado em direitos, equidade e justiça. O presidente Lula, aos 81 anos, pediu que a ONU voltasse a ser um "templo da paz" — uma frase que capturava o sentimento crescente de que a ordem baseada na força havia chegado a seus limites.

O que emergiu desta Assembleia Geral foi uma renovação internacional do compromisso com o multilateralismo. Sete governos e a União Europeia lançaram a Parceria pelo Multilateralismo, reafirmando a importância das instituições, normas e acordos internacionais. Seus líderes foram diretos: "a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática". Essa não era nostalgia pelas velhas estruturas. Era um reconhecimento de que os desafios do século 21 — uma crise global de segurança alimentar provocada pelo fechamento do estreito de Hormuz, a guerra na Ucrânia, os efeitos do El Niño — não podiam ser enfrentados por nações agindo sozinhas.

Dois problemas específicos ganharam destaque como prioridades para essa renovação multilateral. O primeiro foi a inteligência artificial. Os presidentes William Ruto, do Quênia, e Alexander Stubb, da Finlândia, lançaram a Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial, reconhecendo um risco claro: com Estados Unidos e China dominando o setor e poucas empresas concentrando poder tecnológico e influência política, o mundo digital poderia reproduzir as mesmas relações de dependência que marcaram séculos anteriores. A alternativa proposta era compartilhar infraestrutura computacional, bases de dados e talentos — uma abordagem baseada em soberania compartilhada e capacidades coletivas.

O segundo foi a desigualdade. Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha impulsionaram a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade, inspirado no modelo do IPCC, o painel climático das Nações Unidas. Esse novo órgão reuniria evidências sobre desigualdades dentro dos países e entre eles, subsidiando reformas financeiras, tributárias e de proteção social. A iniciativa buscava agora uma resolução formal da Assembleia Geral.

É verdade que o multilateralismo não está curado de suas feridas históricas. A Guerra Fria bloqueou o Conselho de Segurança repetidamente. O sistema falhou em impedir genocídios em Ruanda e na Bósnia e Herzegovina. A invasão do Iraque em 2003 ainda ecoa na agressão russa à Ucrânia. Persistem cortes de financiamento, violações de soberania, desprezo pelas regras da guerra, inação diante da emergência climática. A pandemia expôs a interdependência dos problemas globais e a dificuldade de transformar solidariedade em ação concreta.

Mas o tom desta Assembleia Geral não foi de defesa nostálgica das instituições do passado. Foi uma reivindicação de soberania, prosperidade compartilhada e redistribuição de poder em favor do Sul Global. O encontro do ano anterior havia deixado a sensação de uma morte anunciada. Este apontava para algo diferente: um reconhecimento de que agir sozinho não é mais uma opção sustentável diante dos desafios que nenhuma nação consegue enfrentar isoladamente. O desafio agora não é se o multilateralismo sobreviverá, mas como ele se transformará para responder aos problemas do nosso tempo — e, mais importante, como as palavras de compromisso se traduzirão em ação, especialmente quando a potência hegemônica observa essa transformação com desconfiança.

a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática
— Líderes da Parceria pelo Multilateralismo
a ONU volte a ser um templo da paz
— Presidente Lula
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