TV 3.0 deve começar a operar no Brasil em 2027 com tecnologia ATSC 3.0

A televisão aberta continua participando do debate político e social
Mesmo quando o conteúdo é consumido em plataformas digitais, a radiodifusão mantém seu papel central na sociedade brasileira.
Mark

Por que exatamente 2027? O que torna esse ano o momento certo?

Mimi

É quando a infraestrutura converge. Os conversores já estão no mercado, o crédito foi aprovado, as emissoras estão se posicionando nas capitais. Mas também é um prazo político — precisa começar antes que a indústria perca mais espaço para as plataformas.

Mark

Você mencionou que fabricantes de TVs criaram barreiras para canais abertos. Como isso funciona na prática?

Mimi

Quando você compra uma TV conectada, o menu principal mostra Netflix, YouTube, aplicativos de streaming. Os canais abertos estão lá, mas escondidos, menos acessíveis. A TV 3.0 tenta resolver isso integrando a radiodifusão de forma nativa, como parte do sistema operacional.

Mark

E quanto à desinformação? Como a TV aberta combate isso melhor que a internet?

Mimi

A televisão aberta tem jornalismo profissional, editorias, responsabilidade legal. A internet é descentralizada — qualquer um publica qualquer coisa. Com nove horas diárias de consumo online e baixo alfabetismo digital, as pessoas não sabem filtrar o que é confiável.

Mark

Mas não é contraditório? A TV aberta também pode espalhar desinformação.

Mimi

Verdade. Mas há regulação, há consequências legais. A diferença é que a TV aberta tem estrutura institucional. Não é perfeita, mas é verificável.

Mark

E as TVs universitárias que você mencionou? Por que elas importam?

Mimi

Mantêm acervos históricos únicos, produzem conteúdo local, formam profissionais. Sem financiamento público, desaparecem. E quando desaparecem, leva-se embora memória cultural que não está em lugar nenhum mais.

Mark

A inteligência artificial é uma ameaça ou uma oportunidade?

Mimi

Ambas. Pode automatizar produção e reduzir custos. Mas se usada para gerar vinhetas e identidade visual, apaga a assinatura que cada emissora construiu ao longo de décadas. É uma questão de controle — quem decide como a IA é usada.

  • TV 3.0 inicia operações em 2027 com tecnologia ATSC 3.0
  • Mais de 10 mil conversores já foram vendidos
  • R$ 7 bilhões em linhas de crédito subsidiadas para implantação
  • Operações previstas em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife
  • Televisão é assistida por mais de 5 horas diárias no Brasil

TV 3.0 inicia operações em 2027 com tecnologia ATSC 3.0, com mais de 10 mil conversores já vendidos e R$ 7 bilhões em linhas de crédito subsidiadas. Televisão aberta enfrenta competição em TVs conectadas, mas mantém relevância com 5+ horas diárias de consumo e papel estratégico no combate à desinformação.

A televisão aberta brasileira se prepara para lançar a TV 3.0 em 2027, integrando recursos digitais à radiodifusão tradicional. Especialistas discutiram regulamentação, desafios tecnológicos e o papel cultural da TV aberta no combate à desinformação.

A televisão aberta brasileira está à beira de sua transformação mais profunda em décadas. Em 2027, o país começará a operar a TV 3.0, um sistema que promete trazer para a radiodifusão tradicional os recursos que até agora pertenciam exclusivamente ao mundo digital e às plataformas de streaming. O anúncio veio durante um painel na SET Expo 2026, realizado em São Paulo no dia 18 de agosto, onde especialistas do setor discutiram não apenas a tecnologia, mas também os desafios regulatórios e culturais que cercam essa mudança.

O módulo de transmissão já foi definido com a tecnologia ATSC 3.0, e o mercado começou a se mover. Mais de dez mil conversores já foram comercializados, enquanto emissoras se mobilizam para iniciar operações em seis capitais: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife. O governo, por sua vez, liberou linhas de crédito subsidiadas que somam sete bilhões de reais para acelerar a implantação. Segundo Wilson Diniz, secretário de Serviços de Radiodifusão, a TV 3.0 já está em fase de experiências e deve começar a operar no início de 2027. Mas essa não é apenas uma questão de melhorar a qualidade do sinal. O desafio real é repensar o próprio modelo da televisão linear, aproximando-a de serviços sob demanda, satélite e conectividade em diferentes plataformas.

O caminho até aqui envolveu mudanças regulatórias significativas. A Lei 14.812 aumentou o limite de outorgas por grupo, enquanto a Lei 15.182 promoveu uma ampla desregulamentação do setor e eliminou aproximadamente quatro a cinco mil processos administrativos. Essas mudanças refletem uma tentativa do governo de criar um ambiente mais propício para a inovação, embora Otávio Penna Pieranti, conselheiro-diretor da Anatel, tenha deixado claro que a regulamentação não atrasará a implantação da TV 3.0.

Mas há um problema imediato que a indústria enfrenta: a disputa pelo espaço dentro das próprias televisões conectadas. Fabricantes de televisores teriam criado barreiras para o acesso aos canais abertos, favorecendo serviços distribuídos pela internet através de acordos comerciais. Pieranti destacou que a televisão ainda é assistida por mais de cinco horas diariamente no Brasil, mas essa presença está sendo ameaçada. Ele também alertou para as consequências da ausência de emissoras locais em algumas regiões: não se perde apenas informação, mas também empregos e espaços para o debate cultural.

Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT, trouxe outro ângulo para a discussão: a relação entre televisão, internet e desinformação. Os dados que apresentou revelam que o brasileiro passa aproximadamente nove horas por dia conectado à internet, ao mesmo tempo em que o país apresenta baixos níveis de alfabetismo digital. Nesse cenário, Flores defendeu que a televisão aberta possui um papel relevante no enfrentamento da desinformação produzida em escala industrial. Ele apontou três eixos fundamentais para o futuro do setor: liberdade de expressão e fortalecimento do jornalismo, incluindo proteção contra a inteligência artificial; regras claras e não discriminatórias para distribuição em plataformas digitais e televisões conectadas; e o pleno desenvolvimento da TV 3.0. Flores também defendeu que a comunicação brasileira seja reconhecida como uma "Indústria Nacional Estratégica", apontando a fragmentação das políticas digitais entre mais de seis secretarias do governo como um obstáculo à criação de uma política de Estado centralizada.

As emissoras abertas já se transformaram em empresas de tecnologia. Samir Nobre, representante da ABRATEL, lembrou que a televisão aberta passou por diferentes transformações ao longo das últimas décadas, incluindo o surgimento da TV por assinatura, das plataformas de streaming e das redes sociais. As próprias emissoras ampliaram suas operações para além da transmissão tradicional, com plataformas digitais como Globoplay, Record Play e SBT Play. A avaliação durante o painel foi que a televisão aberta continua participando do debate político e social mesmo quando o conteúdo passa a ser consumido em outros canais digitais.

Gerson Castro, presidente da ASTRAL, trouxe uma perspectiva cultural para o debate. Argumentou que a televisão aberta não deve ser compreendida somente como produtora e distribuidora de conteúdo, mas também como um elemento responsável pela formação cultural de diferentes gerações. Dentro dessa perspectiva, defendeu que a TV 3.0 seja tratada como patrimônio cultural do país. Castro também chamou atenção para as TVs universitárias, que mantêm acervos históricos únicos e precisam de políticas públicas de financiamento. Ele alertou ainda para o uso da inteligência artificial na produção de vinhetas e outros materiais, apontando o risco de descaracterização da identidade construída pelas emissoras.

No campo técnico, o Fórum SBTVD, que completa vinte anos em 2026, trabalha para aumentar a escala global das tecnologias adotadas. Durante a SET Expo, o fórum assinou um memorando de entendimento com organizações da Coreia voltado à convergência de padrões, com a intenção de ajudar a reduzir o preço dos equipamentos necessários para recepção. Os resultados dessa aproximação, porém, são esperados para os próximos anos. A próxima etapa da televisão aberta dependerá tanto da implantação tecnológica quanto da construção de regras para esse novo cenário conectado, onde streaming, internet e radiodifusão estão cada vez mais próximos.

A televisão aberta possui papel relevante no enfrentamento da desinformação produzida em escala industrial
— Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT
A TV 3.0 deve ser tratada como patrimônio cultural do país
— Gerson Castro, presidente da ASTRAL
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