TV 3.0 inicia operações em 2027 com tecnologia ATSC 3.0, com mais de 10 mil conversores já vendidos e R$ 7 bilhões em linhas de crédito subsidiadas. Televisão aberta enfrenta competição em TVs conectadas, mas mantém relevância com 5+ horas diárias de consumo e papel estratégico no combate à desinformação.
TV 3.0 deve começar a operar no Brasil em 2027 com tecnologia ATSC 3.0
A televisão aberta continua participando do debate político e social
Por que exatamente 2027? O que torna esse ano o momento certo?
É quando a infraestrutura converge. Os conversores já estão no mercado, o crédito foi aprovado, as emissoras estão se posicionando nas capitais. Mas também é um prazo político — precisa começar antes que a indústria perca mais espaço para as plataformas.
Você mencionou que fabricantes de TVs criaram barreiras para canais abertos. Como isso funciona na prática?
Quando você compra uma TV conectada, o menu principal mostra Netflix, YouTube, aplicativos de streaming. Os canais abertos estão lá, mas escondidos, menos acessíveis. A TV 3.0 tenta resolver isso integrando a radiodifusão de forma nativa, como parte do sistema operacional.
E quanto à desinformação? Como a TV aberta combate isso melhor que a internet?
A televisão aberta tem jornalismo profissional, editorias, responsabilidade legal. A internet é descentralizada — qualquer um publica qualquer coisa. Com nove horas diárias de consumo online e baixo alfabetismo digital, as pessoas não sabem filtrar o que é confiável.
Mas não é contraditório? A TV aberta também pode espalhar desinformação.
Verdade. Mas há regulação, há consequências legais. A diferença é que a TV aberta tem estrutura institucional. Não é perfeita, mas é verificável.
E as TVs universitárias que você mencionou? Por que elas importam?
Mantêm acervos históricos únicos, produzem conteúdo local, formam profissionais. Sem financiamento público, desaparecem. E quando desaparecem, leva-se embora memória cultural que não está em lugar nenhum mais.
A inteligência artificial é uma ameaça ou uma oportunidade?
Ambas. Pode automatizar produção e reduzir custos. Mas se usada para gerar vinhetas e identidade visual, apaga a assinatura que cada emissora construiu ao longo de décadas. É uma questão de controle — quem decide como a IA é usada.
El Pulso
- TV 3.0 inicia operações em 2027 com tecnologia ATSC 3.0
- Mais de 10 mil conversores já foram vendidos
- R$ 7 bilhões em linhas de crédito subsidiadas para implantação
- Operações previstas em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife
- Televisão é assistida por mais de 5 horas diárias no Brasil
TV 3.0 inicia operações em 2027 com tecnologia ATSC 3.0, com mais de 10 mil conversores já vendidos e R$ 7 bilhões em linhas de crédito subsidiadas. Televisão aberta enfrenta competição em TVs conectadas, mas mantém relevância com 5+ horas diárias de consumo e papel estratégico no combate à desinformação.
A televisão aberta brasileira se prepara para lançar a TV 3.0 em 2027, integrando recursos digitais à radiodifusão tradicional. Especialistas discutiram regulamentação, desafios tecnológicos e o papel cultural da TV aberta no combate à desinformação.
A televisão aberta brasileira está à beira de sua transformação mais profunda em décadas. Em 2027, o país começará a operar a TV 3.0, um sistema que promete trazer para a radiodifusão tradicional os recursos que até agora pertenciam exclusivamente ao mundo digital e às plataformas de streaming. O anúncio veio durante um painel na SET Expo 2026, realizado em São Paulo no dia 18 de agosto, onde especialistas do setor discutiram não apenas a tecnologia, mas também os desafios regulatórios e culturais que cercam essa mudança.
O módulo de transmissão já foi definido com a tecnologia ATSC 3.0, e o mercado começou a se mover. Mais de dez mil conversores já foram comercializados, enquanto emissoras se mobilizam para iniciar operações em seis capitais: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife. O governo, por sua vez, liberou linhas de crédito subsidiadas que somam sete bilhões de reais para acelerar a implantação. Segundo Wilson Diniz, secretário de Serviços de Radiodifusão, a TV 3.0 já está em fase de experiências e deve começar a operar no início de 2027. Mas essa não é apenas uma questão de melhorar a qualidade do sinal. O desafio real é repensar o próprio modelo da televisão linear, aproximando-a de serviços sob demanda, satélite e conectividade em diferentes plataformas.
O caminho até aqui envolveu mudanças regulatórias significativas. A Lei 14.812 aumentou o limite de outorgas por grupo, enquanto a Lei 15.182 promoveu uma ampla desregulamentação do setor e eliminou aproximadamente quatro a cinco mil processos administrativos. Essas mudanças refletem uma tentativa do governo de criar um ambiente mais propício para a inovação, embora Otávio Penna Pieranti, conselheiro-diretor da Anatel, tenha deixado claro que a regulamentação não atrasará a implantação da TV 3.0.
Mas há um problema imediato que a indústria enfrenta: a disputa pelo espaço dentro das próprias televisões conectadas. Fabricantes de televisores teriam criado barreiras para o acesso aos canais abertos, favorecendo serviços distribuídos pela internet através de acordos comerciais. Pieranti destacou que a televisão ainda é assistida por mais de cinco horas diariamente no Brasil, mas essa presença está sendo ameaçada. Ele também alertou para as consequências da ausência de emissoras locais em algumas regiões: não se perde apenas informação, mas também empregos e espaços para o debate cultural.
Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT, trouxe outro ângulo para a discussão: a relação entre televisão, internet e desinformação. Os dados que apresentou revelam que o brasileiro passa aproximadamente nove horas por dia conectado à internet, ao mesmo tempo em que o país apresenta baixos níveis de alfabetismo digital. Nesse cenário, Flores defendeu que a televisão aberta possui um papel relevante no enfrentamento da desinformação produzida em escala industrial. Ele apontou três eixos fundamentais para o futuro do setor: liberdade de expressão e fortalecimento do jornalismo, incluindo proteção contra a inteligência artificial; regras claras e não discriminatórias para distribuição em plataformas digitais e televisões conectadas; e o pleno desenvolvimento da TV 3.0. Flores também defendeu que a comunicação brasileira seja reconhecida como uma "Indústria Nacional Estratégica", apontando a fragmentação das políticas digitais entre mais de seis secretarias do governo como um obstáculo à criação de uma política de Estado centralizada.
As emissoras abertas já se transformaram em empresas de tecnologia. Samir Nobre, representante da ABRATEL, lembrou que a televisão aberta passou por diferentes transformações ao longo das últimas décadas, incluindo o surgimento da TV por assinatura, das plataformas de streaming e das redes sociais. As próprias emissoras ampliaram suas operações para além da transmissão tradicional, com plataformas digitais como Globoplay, Record Play e SBT Play. A avaliação durante o painel foi que a televisão aberta continua participando do debate político e social mesmo quando o conteúdo passa a ser consumido em outros canais digitais.
Gerson Castro, presidente da ASTRAL, trouxe uma perspectiva cultural para o debate. Argumentou que a televisão aberta não deve ser compreendida somente como produtora e distribuidora de conteúdo, mas também como um elemento responsável pela formação cultural de diferentes gerações. Dentro dessa perspectiva, defendeu que a TV 3.0 seja tratada como patrimônio cultural do país. Castro também chamou atenção para as TVs universitárias, que mantêm acervos históricos únicos e precisam de políticas públicas de financiamento. Ele alertou ainda para o uso da inteligência artificial na produção de vinhetas e outros materiais, apontando o risco de descaracterização da identidade construída pelas emissoras.
No campo técnico, o Fórum SBTVD, que completa vinte anos em 2026, trabalha para aumentar a escala global das tecnologias adotadas. Durante a SET Expo, o fórum assinou um memorando de entendimento com organizações da Coreia voltado à convergência de padrões, com a intenção de ajudar a reduzir o preço dos equipamentos necessários para recepção. Os resultados dessa aproximação, porém, são esperados para os próximos anos. A próxima etapa da televisão aberta dependerá tanto da implantação tecnológica quanto da construção de regras para esse novo cenário conectado, onde streaming, internet e radiodifusão estão cada vez mais próximos.
Citas Notables
A televisão aberta possui papel relevante no enfrentamento da desinformação produzida em escala industrial— Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT
A TV 3.0 deve ser tratada como patrimônio cultural do país— Gerson Castro, presidente da ASTRAL