Duas vezes centenária, a Doutrina Monroe ressurge como linguagem oficial da política externa americana sob Trump, reinterpretada não mais para conter potências europeias, mas para circunscrever a crescente presença chinesa na América Latina. O que James Monroe pronunciou em 1823 como advertência a impérios distantes é hoje invocado como fundamento de domínio regional — palavra que a atual administração não evita. Em cada ciclo histórico, a doutrina encontrou um novo inimigo; desta vez, o inimigo fala mandarim.
Trump ressuscita Doutrina Monroe de 1823 como guia para domínio dos EUA na América Latina
O que começou como alerta evoluiu para estrutura de domínio regional
Por que Trump escolheu exatamente a Doutrina Monroe para orientar sua política agora? Não parecia coisa do passado?
Porque ela oferece uma justificativa histórica e legal para o que ele quer fazer de qualquer forma. Monroe dá legitimidade a uma postura que, sem ela, pareceria puro imperialismo. É como dizer: "Isso não é novo, é tradição americana."
Mas a doutrina original era sobre manter a Europa fora. Agora é sobre manter a China fora. É a mesma coisa?
Não exatamente. Monroe protegia um continente jovem de potências rivais. Trump está tentando manter sua hegemonia contra um competidor que já está dentro da região. É mais defensivo, mais desesperado. A China não está tentando colonizar; está fazendo negócios.
E os países latino-americanos? Eles aceitam ser enquadrados como parte de um "hemisfério" americano?
Oficialmente, muitos protestam. Mas a realidade é mais complexa. Alguns países dependem de investimento chinês. Outros temem a pressão americana. Ninguém quer ser tutelado, mas todos precisam de alguém.
Então Trump está dizendo que a América Latina é território americano?
Ele está dizendo que é esfera de influência americana, e que qualquer outro poder que entre ali é uma ameaça. É uma linguagem de domínio, não de parceria. E é exatamente o que Monroe disse em 1823.
El Pulso
- A Casa Branca inseriu Monroe explicitamente em sua Estratégia de Segurança Nacional, transformando um discurso do século 19 em diretriz operacional para o século 21.
- O Departamento de Estado publicou um vídeo oficial que usa a palavra 'domínio' sem eufemismos, sinalizando uma postura mais assertiva do que qualquer retórica de 'parceria' ou 'proteção'.
- A captura de Nicolás Maduro é apresentada como prova viva da doutrina em ação, fundindo precedente histórico com operação contemporânea para legitimar a narrativa.
- A China, que expandiu investimentos e presença comercial na América Latina por mais de uma década, é o alvo implícito — e o secretário de Defesa Pete Hegseth o tornou explícito ao falar em recuperar o 'quintal' perdido para Pequim.
- Líderes latino-americanos se veem novamente diante de uma arquitetura de influência que os posiciona como objeto, não como sujeito, das grandes disputas geopolíticas do hemisfério.
Duas vezes centenária, a Doutrina Monroe ressurge como linguagem oficial da política externa americana sob Trump, reinterpretada não mais para conter potências europeias, mas para circunscrever a crescente presença chinesa na América Latina. O que James Monroe pronunciou em 1823 como advertência a impérios distantes é hoje invocado como fundamento de domínio regional — palavra que a atual administração não evita. Em cada ciclo histórico, a doutrina encontrou um novo inimigo; desta vez, o inimigo fala mandarim.
O governo Trump ressuscitou a Doutrina Monroe — formulada em 1823 pelo presidente James Monroe — como bússola oficial para sua política externa na América Latina. Um vídeo de cinco minutos publicado pelo Departamento de Estado declarou Trump o "mais recente defensor" da doutrina, enquanto a Casa Branca a inseriu explicitamente em sua Estratégia de Segurança Nacional. A captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentada como exemplo contemporâneo da diretriz histórica em funcionamento.
A doutrina nasceu em um continente ainda sacudido pelas independências pós-coloniais. Monroe respondeu à ameaça de recolonização europeia com uma declaração simples: qualquer imposição de sistemas políticos estrangeiros sobre o hemisfério seria tratada como ameaça à segurança americana. Em troca, Washington não interferiria nos conflitos internos da Europa. O resultado foi a consolidação dos EUA como árbitro regional. Em 1904, o Corolário Roosevelt foi mais longe: os EUA poderiam intervir em qualquer nação latino-americana incapaz de cumprir obrigações internacionais — a era do "big stick".
A reinterpretação trumpista muda o alvo, mas mantém a lógica de esfera de influência. Se Monroe afastava a Europa e Roosevelt justificava intervenções por razões administrativas, a versão atual mira a China. O secretário de Defesa Pete Hegseth foi direto: os EUA precisavam recuperar influência em seu "quintal", perdida para Pequim ao longo de uma década de investimentos e presença comercial chinesa na região. A Estratégia de Segurança Nacional enquadra os países latino-americanos como origem de problemas que afetam diretamente os EUA — imigração, tráfico de drogas — e, implicitamente, como espaço vedado à expansão chinesa.
O embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, narrou o vídeo oficial com linguagem sem ambiguidade: a doutrina evoluiu de um alerta às potências europeias para "uma estrutura de domínio regional". É essa palavra — domínio — que define o tom da administração Trump. Uma doutrina do século 19 é assim reciclada para uma disputa do século 21, com a América Latina novamente posicionada no centro de uma rivalidade que ela não escolheu.
O governo Trump ressuscitou uma doutrina presidencial de mais de dois séculos como bússola para sua política externa na América Latina. Um vídeo de cinco minutos publicado pelo Departamento de Estado dos EUA na terça-feira (11 de agosto) declarou que a Doutrina Monroe — formulada em 1823 — encontrou em Donald Trump seu "mais recente defensor". A narrativa oficial americana agora enquadra a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro no início do ano como exemplo contemporâneo dessa diretriz histórica aplicada aos desafios do presente.
A Doutrina Monroe nasceu de um contexto muito diferente. Em 1823, o presidente James Monroe pronunciou seu discurso de fim de ano no Capitólio em um continente ainda convulsionado pelas independências recentes de ex-colônias. Naquele momento, as potências europeias rondavam os territórios americanos, e Monroe respondeu com uma declaração clara: qualquer tentativa europeia de impor seus sistemas políticos sobre o hemisfério seria considerada uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Em troca, Washington se comprometia a não interferir nos conflitos internos europeus. O resultado foi a consolidação dos EUA como uma espécie de tutor regional — protetor e árbitro do continente americano.
Ao longo de dois séculos, presidentes sucessivos reinterpretaram a doutrina conforme seus interesses. O Corolário Roosevelt de 1904 foi talvez a mais conhecida dessas reelaborações. Theodore Roosevelt determinou que os EUA poderiam intervir nos assuntos internos de qualquer nação latino-americana que demonstrasse incapacidade de cumprir obrigações internacionais. Essa interpretação consolidou a postura do "big stick" — o grande porrete — que simbolizava a ameaça permanente de intervenção americana na região. Gerações de líderes latino-americanos cresceram sob essa sombra.
O governo Trump não apenas invocou a doutrina; colocou-a no centro de sua estratégia. No fim do ano passado, a Casa Branca divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, documento que explicitamente citava Monroe como referência para o relacionamento dos EUA com a América Latina. Dias antes, Trump havia publicado uma mensagem oficial celebrando o aniversário da doutrina, descrevendo-a como "fundamental" na história americana e reafirmando o compromisso de sua gestão com a proteção do hemisfério ocidental. A mistura dos nomes gerou até um apelido informal: a "Doutrina Donroe".
Mas a reinterpretação trumpista muda o alvo. Se Monroe buscava afastar a Europa, e Roosevelt justificava intervenções baseado em incapacidade administrativa, o governo atual parece estar reeditando a doutrina para conter a influência chinesa. A Estratégia de Segurança Nacional enquadra os países latino-americanos como origem de questões que afetam diretamente os EUA — imigração, tráfico de drogas — e, implicitamente, como espaço onde a China não deveria expandir seu poder. O secretário de Defesa Pete Hegseth foi direto em uma entrevista do ano passado: os EUA precisavam recuperar a influência em seu "quintal", que havia sido "perdida" para Pequim.
O vídeo do Departamento de Estado, narrado pelo embaixador americano no Panamá Kevin Marino Cabrera, resume a lógica: "Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma base que permanece, até hoje, a pedra angular da conduta americana no hemisfério". A linguagem é clara. Não se trata apenas de proteção ou equilíbrio, mas de domínio — um termo que a administração Trump não hesita em usar.
O que está em jogo é a reafirmação da hegemonia americana em um continente onde sua influência vinha sendo contestada. A China expandiu investimentos, financiamento e presença comercial na América Latina ao longo da última década. Trump, ao invocar Monroe, está sinalizando que essa expansão será interpretada como uma violação de uma esfera de influência que os EUA consideram sua por direito histórico. É uma doutrina do século 19 sendo reciclada para uma disputa do século 21.
Citas Notables
Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional.— Kevin Marino Cabrera, embaixador dos EUA no Panamá, no vídeo do Departamento de Estado
A diretriz estabelecida por Monroe é fundamental na história de seu país e sua gestão está comprometida com a proteção do hemisfério ocidental.— Donald Trump, em mensagem oficial celebrando o aniversário da Doutrina Monroe