Há uma ironia pesada no coração desta história: o mesmo governo que, em 2019, colocou o ouro venezuelano numa lista negra por corrupção e destruição ambiental, negociou em 2026 um acordo para trazer esse mesmo metal para solo norte-americano. O ouro chegou, foi depositado em armazéns, e ficou parado — porque as refinarias internacionais, obrigadas a verificar a origem dos metais que processam, não encontraram as garantias que a lei exige. O que resta é um impasse silencioso: centenas de milhões de dólares em metal que ninguém toca, símbolo de uma contradição que o poder não conseguiu resolver
Trump redireciona ouro venezuelano para EUA, mas refinarias recusam processá-lo
O ouro está lá, mas ninguém o consegue processar
Como é que isto começou? Trump simplesmente decidiu um dia que queria ouro da Venezuela?
Não foi assim tão direto. Depois de Maduro ser capturado em janeiro, a Administração viu uma oportunidade. Em março, negociaram com a Minerven — a empresa mineira estatal — um acordo para vender ouro nos mercados norte-americanos. Parecia uma vitória política e económica ao mesmo tempo.
Mas espera — Trump tinha colocado esse ouro numa lista negra em 2019. Por corrupção e destruição ambiental. Como é que muda de ideias assim?
Essa é a contradição que o NYT expõe. Não há uma explicação oficial clara para a mudança. O que sabemos é que o acordo foi negociado, o ouro foi transportado, e chegou aos armazéns norte-americanos.
E depois o que aconteceu?
Nada. O ouro ficou lá. As refinarias recusaram-se a processá-lo.
Porquê? Qual é a razão técnica?
As normas internacionais exigem que as refinarias garantam que o ouro não financiou crime organizado, destruição ambiental ou corrupção. E no caso do ouro venezuelano, essas garantias não existem — ou as refinarias não acreditam que existem.
Então o ouro está preso indefinidamente?
Aparentemente sim. Centenas de milhões de dólares em metal precioso, intocado em armazéns, porque ninguém conseguiu resolver o problema da origem.
O NYT tem provas de que o ouro está ligado a crime organizado?
A reportagem menciona que aviões transportaram ouro antes de as empresas visitarem as minas, e que parte do ouro está ligada a mineiros que pagam subornos a gangues. Mas são fontes anónimas. Não há nomes específicos ou documentação que o NYT revele publicamente.
Então isto é um acordo que falhou completamente?
Falhou no sentido em que o ouro não pode ser processado. Mas também expõe uma contradição fundamental na política de Trump — ele diz estar a combater a corrupção, mas negocia com uma indústria marcada por exatamente isso.
O Pulso
- Centenas de milhões de dólares em ouro venezuelano estão imobilizados em armazéns norte-americanos, sem que nenhuma refinaria aceite processá-los.
- As normas internacionais de rastreabilidade de metais preciosos exigem provas de que o ouro não financiou crime organizado, corrupção ou devastação ambiental — provas que simplesmente não existem, ou que ninguém aceita como suficientes.
- A Administração Trump negociou o acordo com a Minerven, empresa mineira estatal venezuelana, apenas dois meses após a captura de Maduro — contradizendo diretamente a própria lista negra que Trump impôs em 2019 ao ouro venezuelano.
- Aviões transportaram o metal para fora da Venezuela antes mesmo de qualquer inspeção às minas, e parte do ouro está ligada a mineiros que pagam subornos a gangues criminosas.
- O resultado é um fracasso operacional sem saída visível: o governo trouxe o ouro, mas não conseguiu fazer com que o sistema financeiro internacional o absorva.
Há uma ironia pesada no coração desta história: o mesmo governo que, em 2019, colocou o ouro venezuelano numa lista negra por corrupção e destruição ambiental, negociou em 2026 um acordo para trazer esse mesmo metal para solo norte-americano. O ouro chegou, foi depositado em armazéns, e ficou parado — porque as refinarias internacionais, obrigadas a verificar a origem dos metais que processam, não encontraram as garantias que a lei exige. O que resta é um impasse silencioso: centenas de milhões de dólares em metal que ninguém toca, símbolo de uma contradição que o poder não conseguiu resolver com a mesma facilidade com que assinou o acordo.
Centenas de milhões de dólares em ouro venezuelano repousam intactos em armazéns norte-americanos. As refinarias recusam-se a processá-lo, e a razão é ao mesmo tempo simples e intratável: as normas internacionais exigem que qualquer refinaria verifique a origem do metal antes de o tocar — e no caso deste ouro, ninguém consegue garantir que não financiou crime organizado, destruição ambiental ou corrupção.
A contradição no centro da história é difícil de ignorar. Em março de 2019, durante o seu primeiro mandato, Donald Trump colocou o ouro venezuelano numa lista negra, invocando precisamente essas ligações a práticas criminosas e ambientalmente destrutivas. Em março deste ano, dois meses após a captura de Nicolás Maduro por Washington, funcionários da Administração Trump negociaram um acordo de vários milhões de dólares com a Minerven, a empresa mineira estatal venezuelana, para vender ouro nos mercados norte-americanos.
O acordo envolvia o comerciante de matérias-primas Trafigura, que transportaria entre 650 e 1.000 quilos de barras de ouro Dore para refinarias norte-americanas. Aviões partiram da Venezuela com o metal antes de qualquer inspeção às minas. Parte desse ouro está associada a mineiros que pagam subornos a gangues. Fontes anónimas descrevem a situação com ironia amarga: ao deter Maduro, Trump ligou os Estados Unidos a uma indústria marcada pela mesma criminalidade que dizia combater.
O impasse é agora concreto e sem solução à vista. O ouro está nos armazéns. Vale centenas de milhões. Mas permanece imóvel, à espera de garantias que ninguém parece capaz de fornecer — um fracasso silencioso, medido em toneladas de metal que o sistema financeiro internacional se recusa a absorver.
Centenas de milhões de dólares em ouro venezuelano chegaram aos armazéns norte-americanos e ficaram ali, intocados. As refinarias recusam-se a processá-lo. A razão é simples e complicada ao mesmo tempo: ninguém consegue garantir que o metal não financiou crime organizado, destruição ambiental ou corrupção — e as normas internacionais exigem exatamente essa garantia antes de qualquer refinaria tocar no ouro.
A investigação do The New York Times traça uma linha que vai desde as minas do sul da Venezuela até à Casa Branca e às casas comerciais europeias. O que emerge é uma contradição difícil de ignorar. Durante o seu primeiro mandato, Donald Trump colocou o ouro venezuelano numa lista negra, em março de 2019, justamente por causa dessas ligações à destruição ambiental e a práticas corruptas. Mas em março deste ano, apenas dois meses depois da captura de Nicolás Maduro por Washington, funcionários da Administração Trump negociaram um acordo de vários milhões de dólares com a Minerven, a empresa mineira estatal venezuelana, para vender ouro nos mercados norte-americanos.
O acordo previa que a Minerven fornecesse entre 650 e 1.000 quilos de barras de ouro Dore ao comerciante de matérias-primas Trafigura, que se encarregaria de transportar o metal para as refinarias norte-americanas. Uma tonelada de ouro, naquele momento, valia cerca de 165 milhões de dólares — aproximadamente 140 milhões de euros. Aviões transportaram ouro para fora da Venezuela mesmo antes de as empresas visitarem as minas. Parte desse ouro está ligada a mineiros que pagam subornos a gangues.
Fontes anónimas consultadas pelo NYT descrevem a situação com uma ironia amarga: Trump ligou os Estados Unidos a uma indústria que continua marcada pela mesma criminalidade que ele dizia estar a combater ao deter Maduro. Investidores norte-americanos estão a investir numa mina ligada a membros do crime organizado, como parte de um acordo negociado pela própria Administração Trump.
Mas aqui está o problema prático que ninguém conseguiu contornar. As refinarias internacionais têm de cumprir normas que exigem a verificação da origem do ouro. Não podem processar metal que financiou grupos criminosos. Não podem processar metal extraído com destruição ambiental. Não podem processar metal que envolveu corrupção. E no caso do ouro venezuelano que chegou aos armazéns norte-americanos, essas garantias não existem — ou pelo menos, as refinarias não estão dispostas a acreditar que existem.
O resultado é um impasse. O ouro está lá. Vale centenas de milhões. Mas permanece intacto, esperando por uma solução que ninguém parece ter encontrado. A Administração conseguiu trazer o metal para os Estados Unidos, mas não conseguiu fazer com que ninguém o processe. É um fracasso silencioso, medido em toneladas de ouro que não se move.
Citações Notáveis
Investidores norte-americanos estão a investir numa mina ligada a membros do crime organizado, como parte de um acordo negociado pela Administração Trump— Fontes anónimas citadas pelo The New York Times
Trump ligou os Estados Unidos a uma indústria que continua a estar marcada pela mesma criminalidade que ele dizia estar a combater ao deter Nicolás Maduro— Fontes anónimas citadas pelo The New York Times