Um tratado esquecido desde 1947 ressurge como instrumento central da política hemisférica de Donald Trump: o Tiar, único mecanismo da OEA que autoriza explicitamente o uso de força militar, está sendo ativado para enquadrar o crime organizado brasileiro — o PCC e o CV — como ameaças regionais. Com 14 países latino-americanos já alinhados sob o Escudo das Américas, Trump constrói uma maioria que transforma a segurança interna de nações soberanas em questão de defesa coletiva continental. O que parece uma manobra técnica carrega uma pergunta antiga: onde termina a cooperação e começa a intervenç
Trump busca militarizar combate ao crime organizado na América Latina via Tiar
O único instrumento que menciona força militar
Por que Trump escolheu o Tiar especificamente? Existem outras formas de coordenar segurança na região?
O Tiar é único porque é o único tratado da OEA que autoriza explicitamente o uso de força militar. Existem outras ferramentas de coordenação, mas nenhuma com essa autoridade legal. Trump quer militarizar a resposta, e o Tiar é o instrumento que permite isso.
Mas o artigo 20 diz que nenhum país é obrigado a usar tropas sem consentimento próprio. Isso não esvazia o poder do tratado?
Tecnicamente sim. Mas estamos num contexto em que aliados de Trump cedem a pressões permanentemente. A preocupação é que esse limite formal se torne apenas simbólico.
E Brasil e México? Por que são "pedras no sapato"?
Porque têm peso regional e não mostram a mesma disciplina que outros aliados. Se recusarem participar, enfraquece a coalizão.
Mas recusar o quê, exatamente? O Tiar ainda não foi ativado. Estamos falando de uma possibilidade, não de uma decisão já tomada.
Verdade. O que sabemos é que Trump pedirá ativação, provavelmente conseguirá os dez votos iniciais, e então precisará de 13 para decisões. Aí é que Brasil e México importam.
E se o Tiar for ativado, o que muda na prática para o combate ao crime organizado?
Muda porque abre espaço legal para coordenação militar entre países. Não significa invasão automática, mas cria a estrutura para operações conjuntas.
Mas operações conjuntas contra quem, exatamente? O PCC e o CV são organizações criminosas, não Estados. O Tiar foi feito para ameaças externas entre nações.
Exatamente. É uma aplicação criativa — ou questionável, dependendo do ponto de vista — de um tratado de 1947 para um problema contemporâneo.
Então a questão real é se os países vão aceitar essa reinterpretação?
Sim. E se vão ceder à pressão americana para fazer isso.
O Pulso
- Trump ressuscitou um tratado de 1947 adormecido para criar uma base legal que autoriza força militar contra organizações criminosas brasileiras em solo latino-americano.
- Quatorze países já classificaram o PCC e o CV como ameaças, e o Tiar pode ser ativado com apenas dez votos — Trump tem doze garantidos pelo Escudo das Américas.
- O artigo 20 do Tiar proíbe obrigar países a enviar tropas, mas aliados que sistematicamente cedem à pressão de Washington tornam esse limite cada vez mais simbólico do que real.
- Brasil e México se consolidam como os únicos obstáculos de peso a essa arquitetura de segurança hemisférica, mas a pressão sobre ambos tende a se intensificar nos próximos meses.
- O precedente venezuelano — Maduro preso após ataque militar americano a Caracas — paira sobre o debate como sinal do que a Casa Branca considera dentro dos limites do aceitável.
Um tratado esquecido desde 1947 ressurge como instrumento central da política hemisférica de Donald Trump: o Tiar, único mecanismo da OEA que autoriza explicitamente o uso de força militar, está sendo ativado para enquadrar o crime organizado brasileiro — o PCC e o CV — como ameaças regionais. Com 14 países latino-americanos já alinhados sob o Escudo das Américas, Trump constrói uma maioria que transforma a segurança interna de nações soberanas em questão de defesa coletiva continental. O que parece uma manobra técnica carrega uma pergunta antiga: onde termina a cooperação e começa a intervenção?
O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca existia há décadas na prateleira da diplomacia hemisférica, convocado raramente e lembrado por poucos. A última vez que os Estados Unidos o acionaram foi em 2019, contra o governo de Nicolás Maduro — o mesmo Maduro que hoje está preso nos EUA após uma operação militar americana em Caracas. Agora Trump encontrou no Tiar algo que nenhum outro instrumento da OEA oferece: autorização explícita para o uso de força armada.
Na semana passada, 14 países integrantes do Escudo das Américas — iniciativa lançada em março deste ano — classificaram o PCC e o CV como ameaças regionais. Esse movimento abre o caminho formal para ativar o Tiar. O processo é mais simples do que parece: dez votos bastam para convocar consultas, e treze para aprovar decisões dentro do tratado. Trump já conta com doze dos dezenove membros. O décimo terceiro, analistas avaliam, será questão de pressão rotineira.
O artigo 8º do tratado lista as medidas possíveis diante de uma ameaça: ruptura diplomática, bloqueio econômico, interrupção de comunicações e, no limite, uso da força militar. O artigo 20 estabelece que nenhum país é obrigado a enviar tropas sem consentimento próprio — uma salvaguarda formal que, no entanto, perde peso quando aliados demonstram padrão consistente de capitulação diante de Washington.
Nem todos os membros da OEA integram o Tiar. O Canadá nunca aderiu. O México saiu do acordo há anos. Equador e Bolívia também estão fora. Ainda assim, os números favorecem Trump. Dois governos, porém, resistem com peso real: Brasil e México. Ambos têm influência regional suficiente para complicar a agenda americana — e os próximos meses dirão se essa resistência se sustenta diante da pressão que inevitavelmente virá.
O tratado que Trump quer ativar estava guardado há anos, pouco usado e menos ainda lembrado. A última vez que os Estados Unidos o convocaram foi em 2019, quando pressionavam o governo de Nicolás Maduro na Venezuela — o mesmo Maduro que agora está preso nos EUA após um ataque militar americano a Caracas no início de janeiro. Agora Trump encontrou nele um instrumento para algo bem maior: militarizar o combate ao crime organizado na América Latina.
Na semana passada, Trump conseguiu que 14 países latino-americanos que fazem parte do Escudo das Américas — uma iniciativa lançada em março deste ano — classificassem o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como ameaças. Isso abriu caminho para ativar o Tiar, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, um acordo de 1947 que permanecia adormecido. O Tiar é especial por uma razão simples: é o único instrumento dentro da Organização dos Estados Americanos que autoriza explicitamente o uso de força militar.
O processo é mais direto do que parece. O governo americano pedirá que o Tiar seja ativado através de uma "convocação de consultas" — o termo diplomático para isso. O Conselho Permanente da OEA analisará o pedido, e apenas dez votos são necessários para aprovação. Uma vez ativado, as decisões dentro do tratado precisam de 13 votos para passar — dois terços dos 19 membros. Trump tem isso garantido: 12 dos 19 membros do Tiar integram o Escudo das Américas. Conseguir o décimo terceiro voto será simples, especialmente considerando os mecanismos de pressão que se tornaram rotina na organização.
O artigo 8º do Tiar lista o que pode ser feito em caso de ameaça externa: retirada de chefes de missões diplomáticas, ruptura de relações, interrupção de relações econômicas e de comunicações de todo tipo, e finalmente — o ponto crucial — uso da força armada. Existe um limite formal no artigo 20: nenhum país é obrigado a usar suas tropas sem consentimento próprio. Mesmo que a maioria vote a favor de uma intervenção militar, cada nação soberana decide se participa ou não. Mas esse limite gera preocupação num contexto em que os aliados de Trump mostram disciplina consistente, cedendo a pressões permanentes para preservar relações amigáveis com a Casa Branca.
A OEA tem 32 membros ativos, mas nem todos integram o Tiar. O Canadá nunca fez parte. O México denunciou o tratado há anos — na prática, saiu do acordo. Equador e Bolívia não são membros. Ainda assim, Trump tem números suficientes. Ele está avançando sua política de segurança hemisférica usando simultaneamente o Escudo das Américas e os instrumentos da OEA, e o Tiar é a peça que faltava porque é o único que menciona força militar.
No contexto da OEA, países caribenhos como o Haiti já se posicionaram contra declarações sobre direitos de afrodescendentes exclusivamente por pressão dos EUA. Nesse cenário, a política de segurança regional que Trump pretende implementar encontrará poucos obstáculos institucionais. Dois governos, porém, emergem como grandes pedras no sapato: Brasil e México. Ambos têm peso regional e, até agora, não mostram a mesma disposição de ceder que caracteriza outros aliados americanos. O que acontece nos próximos meses dependerá em grande medida de como esses dois países se posicionam diante da pressão que virá.
Citações Notáveis
Nenhum Estado será obrigado a empregar a força armada sem o seu próprio consentimento— Artigo 20 do Tiar