Em Qusra, na Cisjordânia ocupada, soldados israelenses instalaram-se dentro de residências palestinas após colonos bloquearem estradas, cortarem água e eletricidade e cercarem famílias por dias. A operação, justificada como medida de proteção, revela a tensão profunda entre discurso oficial e realidade vivida — onde aqueles que chegam em nome da segurança são também parte do sistema que a ameaça. O episódio não é exceção, mas reflexo de um padrão mais amplo de expansão de assentamentos que remodela, lentamente, a geografia humana da região.
Tropas israelenses ocupam casas palestinas na Cisjordânia após cerco de colonos
Precisamos de proteção. Precisamos de suprimentos. Precisamos viver livremente.
Por que os colonos bloquearam essas casas especificamente? Havia algo que os tornava alvo?
Qusra fica em uma área sob controle total da segurança israelense, o que torna mais fácil para os colonos agir com pouca resistência. As famílias têm documentos de propriedade emitidos por Israel, mas isso não as protege. É um padrão que se repete em toda a Cisjordânia.
E quando os soldados chegaram, eles realmente protegeram os palestinos ou apenas ocuparam as casas?
Essa é a questão central. Os militares dizem que foram lá para proteger e manter a segurança. Mas ocuparam posições dentro das casas, removeram câmeras de segurança, e as famílias continuam sem água, eletricidade e suprimentos. A proteção não parece estar funcionando.
Havia vídeos de soldados orando com os colonos. Como isso muda a narrativa?
Muda tudo. Sugere que não há separação clara entre a força de segurança e os colonos. Se os soldados estão participando de orações com as pessoas que estão cercando as casas, a imparcialidade desaparece. Os militares disseram que estão tomando medidas disciplinares, mas o dano já foi feito.
Loui Ridi pediu proteção, suprimentos e liberdade. Qual desses é mais urgente?
Neste momento, suprimentos. Quinze pessoas, incluindo duas crianças, estão presas sem água ou eletricidade. A urgência é fisiológica. Mas a liberdade é o que realmente está em jogo — o direito de viver em suas próprias casas sem cerco.
O embaixador americano chamou os colonos de terroristas. Isso muda algo no terreno?
Muda a retórica internacional, mas não a realidade imediata. Ridi foi claro: palavras não são suficientes. Ele precisa de ação — de alguém que realmente retire os colonos e restaure os serviços básicos. As declarações são bem-vindas, mas vazias sem consequência.
El Pulso
- Colonos israelenses sitiaram três casas palestinas em Qusra, cortando água, eletricidade e bloqueando estradas, deixando cerca de 15 pessoas — incluindo duas crianças — presas sem suprimentos básicos por dias.
- Soldados israelenses, em vez de remover os colonos, ocuparam as próprias residências palestinas, criando uma situação em que a 'proteção' e a opressão se tornaram indistinguíveis para as famílias cercadas.
- Um palestino-americano em Ohio acompanhava o cerco da casa de seu irmão por câmera de segurança — até que os soldados a removeram, cortando o último fio de contato com sua família.
- O embaixador americano chamou as ações dos colonos de 'criminosas', mas moradores deixaram claro que palavras não substituem água, suprimentos ou liberdade de movimento.
- As operações militares em Qusra podem se estender até domingo, enquanto o padrão se repete em toda a Cisjordânia, onde cerca de 500 mil colonos coexistem com 3 milhões de palestinos sob uma política de expansão acelerada.
Em Qusra, na Cisjordânia ocupada, soldados israelenses instalaram-se dentro de residências palestinas após colonos bloquearem estradas, cortarem água e eletricidade e cercarem famílias por dias. A operação, justificada como medida de proteção, revela a tensão profunda entre discurso oficial e realidade vivida — onde aqueles que chegam em nome da segurança são também parte do sistema que a ameaça. O episódio não é exceção, mas reflexo de um padrão mais amplo de expansão de assentamentos que remodela, lentamente, a geografia humana da região.
Na quinta-feira, 13 de agosto, soldados israelenses ocuparam três casas palestinas na aldeia de Qusra, na Cisjordânia ocupada. Segundo o prefeito local e moradores, as tropas estabeleceram posições dentro das residências alegando proteger os habitantes — mas a história que antecede essa ocupação conta algo diferente.
Tudo começou no fim de semana anterior, quando colonos israelenses bloquearam o acesso às casas, montaram uma barraca nos quintais e cortaram água e eletricidade. O objetivo era claro: pressionar as famílias a abandonar suas terras. A ONU registrou que cerca de 15 palestinos, incluindo duas crianças, ficaram presos sem suprimentos básicos, enquanto colonos atiravam pedras e gritavam insultos contra as residências.
Loui Ridi, palestino-americano que vive em Ohio, acompanhava a situação do irmão por câmera de segurança — até que os soldados a removeram na quinta-feira. 'É aterrorizante, é frustração, é medo pela vida da minha família', disse ele. Os militares informaram que as operações em Qusra poderiam continuar até domingo.
A presença militar gerou controvérsia: um vídeo mostrou israelenses fardados participando de uma oração com colonos dentro da barraca. Na quarta-feira, uma tentativa de usar gás lacrimogêneo para retirar os colonos fracassou. O embaixador americano Mike Huckabee chamou as ações dos colonos de 'criminosas', mas Ridi foi direto: 'Precisamos de proteção. Precisamos viver livremente em nossa casa.'
O caso de Qusra não é isolado. Com cerca de 146 assentamentos e 390 postos avançados na Cisjordânia, e sob um governo que acelera a expansão colonial, as famílias palestinas permanecem cercadas — agora também pelas tropas que dizem estar ali para protegê-las.
Na quinta-feira, 13 de agosto, soldados israelenses entraram em casas palestinas na aldeia de Qusra, na Cisjordânia ocupada. Segundo o prefeito local, Abed Al Athem Wadi, e moradores da região, as tropas estabeleceram posições dentro de três residências — uma nos arredores da aldeia e duas mais próximas ao centro. Os militares israelenses justificaram a ação dizendo que foram enviados para proteger os moradores e manter a segurança, afirmando que receberam instruções para que os palestinos permanecessem em suas casas. Mas a sequência de eventos que levou a essa ocupação conta uma história diferente.
Tudo começou no fim de semana anterior, quando colonos israelenses bloquearam a estrada de acesso às três casas e montaram uma barraca nos quintais das residências, impedindo que qualquer pessoa entrasse ou saísse. Antes disso, os mesmos colonos haviam cortado o fornecimento de eletricidade e água. A ação tinha um objetivo claro: forçar as famílias palestinas a abandonar suas terras. Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 15 palestinos, incluindo duas crianças, ficaram presos dentro de suas casas sem água, eletricidade ou suprimentos básicos. As famílias cercadas relataram que seus recursos estavam se esgotando e que os colonos continuavam danificando suas propriedades, atirando pedras contra as casas e gritando insultos.
Loui Ridi, um palestino-americano que mora em Ohio, acompanhava a situação de seu irmão através de uma câmera de segurança instalada em sua casa em Qusra. Na quinta-feira, os soldados removeram a câmera. Ridi descreveu o que sentia como impotência absoluta: "É aterrorizante, é frustração, é medo pela vida da minha família", disse ele à Reuters. Ele planejava viajar para a casa em breve, mas a situação permanecia incerta. Os militares informaram aos moradores que as operações em Qusra poderiam continuar até domingo.
A presença militar não foi sem controvérsia. Um vídeo feito no início da semana mostrou vários israelenses vestidos com roupas militares verdes participando de uma oração matinal com os colonos dentro da barraca. Os militares disseram estar tomando medidas disciplinares contra qualquer integrante das forças envolvido no episódio. Na quarta-feira, as tropas haviam tentado usar gás lacrimogêneo para retirar os colonos — uma tentativa que fracassou. Depois disso, os militares enviaram mais tropas para a região, alegando que realizariam "missões defensivas e patrulhas".
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, fez declarações públicas sobre o caso. Afirmou que as forças militares e a polícia israelenses foram "retirar os terroristas israelenses que estão fazendo isso", e descreveu as ações dos colonos como "criminosas". Ridi recebeu bem as palavras do embaixador, mas deixou claro que não eram suficientes: "Precisamos de proteção. Precisamos de suprimentos. Precisamos viver livremente em nossa casa."
O que acontece em Qusra não é isolado. Os palestinos afirmam que as autoridades israelenses permitem que colonos se apropriem de terras e recursos em toda a Cisjordânia com impunidade, inclusive em áreas onde os proprietários possuem documentos de propriedade emitidos pelo próprio governo israelense. Casos de apropriação de terras por colonos são especialmente comuns em áreas nos arredores de aldeias como Qusra, que fica em uma região sob controle total da segurança israelense. Segundo o grupo israelense de monitoramento Peace Now, existem cerca de 146 assentamentos na Cisjordânia, além de 390 pequenos postos avançados. A Cisjordânia, território que Israel capturou na guerra de 1967, abriga cerca de 3 milhões de palestinos e 500 mil colonos israelenses.
O governo de direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vem liderando uma rápida expansão dos assentamentos na região. Os militares enfrentam pressão crescente para interromper as apropriações ilegais de terras incentivadas por essa política governamental. Mas enquanto as declarações de proteção continuam, as famílias de Qusra permanecem cercadas — agora não apenas pelos colonos, mas também pelas tropas que afirmam estar ali para protegê-los.
Citas Notables
É aterrorizante, é frustração, é medo pela vida da minha família— Loui Ridi, palestino-americano cujo irmão estava cercado em Qusra
As ações daqueles que estão fazendo isso contra a casa dessa família são criminosas— Mike Huckabee, embaixador dos Estados Unidos em Israel