Entre a dedicação e o transtorno existe uma fronteira que as escalas de avaliação nem sempre conseguem traçar com precisão. Uma revisão científica recente lembra que organizar a vida em torno do treino pode ser simplesmente a marca de um atleta sério — e não o sinal de uma disfunção clínica. O problema verdadeiro emerge quando o exercício escapa ao controle, compromete a saúde e passa a dominar o humor de forma que a pessoa já não consegue parar, mesmo diante de lesões ou perdas reais.
Treinar muito é vício? Estudos podem superestimar a dependência
Se você é dedicado, consegue cancelar uma sessão sem transtorno emocional
Como diferenciamos um atleta dedicado de alguém com dependência real de exercício?
A dedicação é compatível com descanso e flexibilidade. Quando você consegue cancelar um treino sem sofrimento emocional, você está no controle. O problema é quando o exercício domina seu humor ou você não consegue parar mesmo doente.
Mas a escala de dependência mede exatamente isso — frequência, dificuldade de parar, continuidade apesar de prejuízos. Como sabemos que a escala está superestimando e não identificando casos reais?
A revisão aponta que uma pontuação alta pode refletir apenas dedicação intensa. O diagnóstico real exige prejuízos concretos — emocionais, físicos, sociais.
Quais são esses prejuízos concretos?
Síndrome de overtraining, RED-S, arritmias, rabdomiólise. Atletas em esportes de resistência têm risco três a cinco vezes maior de fibrilação atrial.
Mas esses são danos fisiológicos do excesso, não necessariamente sinais de vício comportamental. Uma pessoa pode ter overtraining sem ter dependência psicológica.
Exatamente. Por isso a entrevista clínica é mais importante que a escala. Precisa investigar o que sustenta o comportamento — se é ansiedade, depressão, pressão estética.
E qual é o tratamento?
Terapia cognitivo-comportamental, principalmente. O objetivo não é parar de treinar, mas recuperar equilíbrio e flexibilidade.
As evidências sobre tratamento são limitadas, certo? Então ainda estamos aprendendo como ajudar essas pessoas.
Sim. O importante agora é não confundir dedicação com doença, mas também não ignorar quando há perda real de controle.
El Pulso
- Ferramentas amplamente usadas para medir dependência de exercício podem classificar erroneamente atletas dedicados como casos clínicos, gerando alarme onde há apenas comprometimento intenso com o esporte.
- A linha entre disciplina e compulsão só se torna perigosa quando o exercício domina o humor, impede o descanso necessário e começa a prejudicar relações, saúde física e vida social.
- Cargas excessivas prolongadas trazem riscos concretos e independentes de qualquer diagnóstico: síndrome de overtraining, RED-S, risco três a cinco vezes maior de arritmias e rabdomiólise capaz de causar insuficiência renal.
- Especialistas recomendam substituir o rastreamento por escalas isoladas por entrevistas clínicas mais aprofundadas, capazes de distinguir dedicação saudável de compulsão real.
- O tratamento não exige abandonar o esporte, mas recuperar flexibilidade e controle — com terapia cognitivo-comportamental como abordagem principal, ainda que as evidências permaneçam limitadas.
Entre a dedicação e o transtorno existe uma fronteira que as escalas de avaliação nem sempre conseguem traçar com precisão. Uma revisão científica recente lembra que organizar a vida em torno do treino pode ser simplesmente a marca de um atleta sério — e não o sinal de uma disfunção clínica. O problema verdadeiro emerge quando o exercício escapa ao controle, compromete a saúde e passa a dominar o humor de forma que a pessoa já não consegue parar, mesmo diante de lesões ou perdas reais.
Quando alguém treina seis dias por semana e reorganiza compromissos sociais em torno da academia, está viciado ou apenas dedicado? Segundo uma revisão científica recente, a resposta é mais complexa do que as ferramentas de avaliação costumam sugerir. Pontuações altas em escalas como a Exercise Dependence Scale podem refletir simplesmente um envolvimento intenso com o esporte — não um transtorno que exija intervenção.
Everton Crivoi, do Hospital Israelita Einstein, esclarece que organizar a vida em função dos treinos é característica normal de muitos atletas sérios. O transtorno só se configura quando há perda de controle, quando a pessoa não consegue parar mesmo doente ou lesionada, ou quando o exercício passa a prejudicar outras áreas da vida. A distinção é prática: quem é dedicado consegue cancelar uma sessão sem sofrimento emocional; quem é compulsivo não.
O debate não é recente. Desde os anos 1970, pesquisadores discutem onde termina a disciplina e começa a disfunção. Estudos posteriores diferenciaram dois tipos de exercício compulsivo: o primário, em que a recompensa está na própria atividade, e o secundário, em que o excesso mascara ansiedade, depressão ou transtornos alimentares.
Os riscos físicos do excesso existem independentemente de qualquer diagnóstico. A sobrecarga prolongada pode causar síndrome de overtraining, RED-S — com comprometimento hormonal e ósseo —, risco aumentado de arritmias e rabdomiólise por esforço, que em casos graves evolui para insuficiência renal. Uma revisão de 2023 identificou que a maioria dos casos de rabdomiólise ocorreu após corridas de longa distância e levantamento de peso.
Diante de sinais reais de compulsão, especialistas recomendam entrevistas clínicas em vez de escalas isoladas, e apontam a terapia cognitivo-comportamental como principal abordagem. O objetivo não é abandonar o esporte, mas recuperar equilíbrio — aprendendo que perder dias de treino, quando necessário, está longe de ser um fracasso.
Quando um atleta treina seis dias por semana, acorda cedo para malhar antes do trabalho e reorganiza compromissos sociais em torno da academia, ele está viciado ou apenas dedicado? A resposta, segundo uma revisão científica recente, é mais nuançada do que as escalas de avaliação costumam sugerir. Uma pontuação alta em ferramentas de rastreamento pode indicar simplesmente um envolvimento intenso com o esporte — não necessariamente um transtorno clínico que exija intervenção.
A ferramenta mais comum para medir essa relação é a Exercise Dependence Scale, que examina sete dimensões do comportamento: a necessidade de aumentar progressivamente o volume de treino, o desconforto quando se interrompe a prática, a dificuldade em controlar os exercícios e a continuidade apesar de consequências negativas. Everton Crivoi, responsável pela preparação física do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, do Hospital Israelita Einstein, ressalta que uma pontuação elevada nessa escala não traduz automaticamente um diagnóstico. Organizar a vida em função dos treinos e manter dedicação alta são características normais de muitos atletas profissionais e amadores sérios. Um volume alto de exercício só se torna transtorno quando gera prejuízos reais — emocionais, físicos ou sociais.
A distinção que Crivoi propõe é clara: se você é dedicado, você sabe que precisa descansar e consegue cancelar uma sessão sem sofrer perturbação emocional. O problema emerge quando o exercício domina o humor, quando a pessoa não consegue parar mesmo estando doente ou lesionada, ou quando a atividade passa a prejudicar outras áreas da vida. Essa conversa sobre dependência de exercício não é nova. Em 1970, o psiquiatra americano Frederick Baekeland documentou alterações no sono, aumento da ansiedade e tensão sexual em estudantes impedidos de se exercitar. Seis anos depois, William Glasser cunhou o termo "dependência positiva" para descrever relações intensas com atividades benéficas como exercício e meditação. Mas em 1979, o psicólogo do esporte William Morgan contestou essa visão, apontando os danos do excesso e tratando-o como uma possível disfunção comportamental.
Pesquisadores como Szabo, Demetrovics e Chhabra descrevem o exercício compulsivo como um comportamento em que a atividade ocupa lugar central na rotina e é usada para regular o humor. Tentativas de reduzir a prática frequentemente resultam em recaídas. Eles diferenciam dois tipos: o primário, em que a recompensa está no próprio exercício, e o secundário, em que o treinamento excessivo mascara outro problema — como ansiedade, depressão, transtornos alimentares, transtorno dismórfico corporal ou dismorfia muscular. Pressões relacionadas à aparência e ao desempenho costumam estar por trás desse comportamento.
Os danos causados por cargas excessivas, porém, não dependem da existência de vício. A combinação prolongada de sobrecarga e recuperação insuficiente pode levar à síndrome de excesso de treinamento, marcada por queda persistente de desempenho, fadiga e alterações em mecanismos hormonais e neuroquímicos — um consenso do European College of Sport Science e do American College of Sports Medicine. Quando o gasto energético não é compensado pela ingestão adequada de energia, desenvolve-se a síndrome de deficiência energética relativa no esporte (RED-S), associada a alterações hormonais, comprometimento da saúde óssea e outras repercussões fisiológicas, conforme consenso do Comitê Olímpico Internacional publicado em 2023 no British Journal of Sports Medicine.
Atletas submetidos a treinamento intenso prolongado em esportes de resistência enfrentam riscos específicos. Estudos encontraram risco três a cinco vezes maior de arritmias, principalmente fibrilação atrial, nesse grupo comparado a adultos saudáveis. Exercícios muito intensos também podem provocar rabdomiólise por esforço — destruição de células musculares capaz de causar insuficiência renal em casos graves. Uma revisão de 2023 no Clinical Journal of Sport Medicine analisou 772 pacientes e identificou que a maioria dos casos ocorreu após corrida, especialmente maratonas, e levantamento de peso.
Quando há perda de controle ou prejuízos reais, a recomendação não é abandonar a atividade física definitivamente. O objetivo é recuperar o controle sobre o comportamento, incorporar períodos adequados de descanso e investigar fatores que sustentam a compulsão. Os autores da revisão sugerem que, para pessoas com sinais de risco, uma entrevista clínica de acompanhamento é mais indicada do que se basear apenas na pontuação de um instrumento de rastreamento. É fundamental reconhecer o perigo e, quando a própria pessoa não consegue identificá-lo, seu círculo social deve ajudar. A terapia cognitivo-comportamental é a abordagem mais estudada, embora as evidências sobre o tratamento ainda sejam limitadas. Outras intervenções podem ser indicadas conforme a gravidade e as condições associadas. Para Crivoi, o tratamento passa por devolver equilíbrio à relação com o treinamento — não parando, mas garantindo maior flexibilidade e reconhecendo que está tudo bem perder dias de treino.
Citas Notables
Uma pontuação alta na escala não significa necessariamente um diagnóstico. Organizar a rotina em função dos treinos e manter um alto nível de dedicação fazem parte da vida de muitos atletas.— Everton Crivoi, preparador físico do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação
Para quem apresenta sinais de risco, o mais indicado costuma ser uma entrevista clínica de acompanhamento, que permita investigar o que sustenta o comportamento, em vez de se basear apenas na pontuação de um instrumento de rastreamento.— Autores da revisão científica