Tratado de Itaipu completa 50 anos com renegociação que pode impactar preço de energia

O Paraguai quer vender energia a 220 dólares, não a 44
A diferença entre o preço internacional e o que o Brasil atualmente paga revela a assimetria no coração do tratado.
Mark

Por que esse aniversário de 50 anos é tão importante? Parece apenas uma data.

Mimi

Porque marca o fim de uma obrigação contratual. O Paraguai foi forçado a vender seu excedente energético ao Brasil a preço de custo desde 1973. Agora, em 2023, essa cláusula expira e pode ser renegociada.

Luke

Mas espera — o Paraguai realmente quer renegociar, ou é apenas uma possibilidade teórica?

Mimi

O Paraguai claramente quer. Deseja vender seu excedente no mercado livre, onde os preços são muito maiores. Hoje recebe 44 dólares por kWh; o mercado internacional paga 220.

Mark

E o Brasil? Que posição tem?

Mimi

O Brasil está dividido. Alguns temem aumento nas tarifas. Outros veem oportunidade de criar um mercado de energia mais competitivo e até reduzir custos.

Luke

Mas há um detalhe importante: as negociações oficiais ainda não começaram. O novo presidente paraguaio só toma posse em agosto. Então tudo isso é ainda especulação.

Mimi

Verdade. Mas o presidente Lula já sinalizou que quer um novo tratado benéfico para ambos.

Mark

Quanto o Paraguai ganha atualmente com essa venda compulsória?

Mimi

Cerca de 360 milhões de dólares por ano.

Luke

Que é muito dinheiro para o Paraguai, mas uma fração do que ganharia se vendesse a preços de mercado. Isso explica a pressão por renegociação.

Mark

E se não chegarem a um acordo?

Mimi

Tecnicamente, o tratado continua vigente. Mas ambos os países têm incentivo para negociar — o Paraguai quer mais receita, o Brasil quer estabilidade energética.

Luke

O grande risco é que isso se torne um jogo de poder diplomático, não apenas uma negociação comercial.

  • O Paraguai, que consome apenas 5% de sua cota de energia de Itaipu, foi obrigado por 50 anos a vender os 45% restantes ao Brasil por apenas US$ 44 o kWh — enquanto o mercado internacional paga US$ 220.
  • Com o vencimento do Anexo C do tratado, Assunção quer romper a venda compulsória e negociar livremente seu excedente, o que pode encerrar décadas de assimetria financeira entre os sócios.
  • Para o consumidor brasileiro, o risco é concreto: especialistas alertam que a energia de Itaipu pode ficar mais cara caso o Paraguai passe a comercializar sua cota a preços de mercado.
  • Mas há quem veja oportunidade: com as dívidas de construção já quitadas, uma renegociação bem conduzida poderia, segundo representantes da indústria, até reduzir tarifas e abrir espaço para um mercado de energia mais competitivo.
  • As negociações oficiais só começam após agosto de 2023, quando o novo presidente paraguaio tomar posse — e Lula já sinalizou que o Brasil quer um acordo que seja bom para os dois lados.

Cinquenta anos após sua assinatura, o Tratado de Itaipu chega a um momento de transformação: a cláusula que obrigava o Paraguai a vender seu excedente energético ao Brasil a preço de custo expira, abrindo caminho para uma renegociação que pode redesenhar o equilíbrio entre dois países unidos por uma das maiores usinas do mundo. O que nasceu como acordo de desenvolvimento conjunto revela, agora, as tensões entre parceria e assimetria — e o resultado das negociações que se aproximam tocará a vida de milhões de consumidores brasileiros.

Em 26 de abril de 1973, Brasil e Paraguai assinaram o Tratado de Itaipu para explorar juntos o potencial do Rio Paraná. A usina construída entre 1975 e 1982 tornou-se uma das maiores do mundo, respondendo por 8,7% da energia consumida no Brasil e 86,4% da consumida no Paraguai. Mas o aniversário de 50 anos não é apenas efeméride: é o ponto em que uma obrigação histórica expira.

Desde o início, o Paraguai tinha direito a metade da energia produzida, mas consumia apenas uma fração disso. Os 45% que sobravam eram vendidos compulsoriamente ao Brasil pelo custo de produção — US$ 44 por kWh, enquanto o mercado internacional pratica US$ 220. Essa assimetria tem raízes estruturais: o Brasil financiou praticamente toda a construção da usina e, em 2021, respondeu por 86% de toda a receita gerada, recebendo 76% da energia.

Agora, com o Anexo C do tratado passível de revisão, o Paraguai quer vender seu excedente no mercado livre, escolhendo parceiros e preços. A Itaipu Binacional confirmou que as negociações oficiais começarão após agosto de 2023, quando o novo presidente paraguaio assumir — as eleições ocorrem em 30 de abril.

As consequências para o Brasil dividem especialistas. O professor Fábio Raia, da Mackenzie, prevê aumento nas tarifas para o consumidor. Já Paulo Pedrosa, da Abrace Energia, argumenta que, com as dívidas de construção quitadas, uma renegociação poderia até baratear a energia. Comercializadores do setor vão além e enxergam na revisão uma oportunidade de ampliar a competição no mercado energético brasileiro.

A jurista Gracemerce Camboim alerta que as negociações serão complexas: embora os direitos sejam iguais no papel, os países são profundamente desiguais na prática. Ela defende que a tarifa continue sendo definida pelo custo e que a contratação de potência seja feita com antecedência para garantir planejamento de ambos os lados.

O presidente Lula já marcou presença simbólica no tema, comparecendo à posse do novo diretor-geral brasileiro da usina e declarando que os dois países têm maturidade para construir um novo acordo benéfico para ambos. O relógio está marcado — e o que sair dessas negociações pode redefinir o custo da energia para milhões de brasileiros.

Há exatamente cinco décadas, em 26 de abril de 1973, Brasil e Paraguai assinaram o Tratado de Itaipu, selando um acordo para explorar conjuntamente o potencial hidrelétrico do Rio Paraná. A barragem seria construída entre 1975 e 1982, e a usina resultante se tornaria uma das maiores do mundo. Mas este aniversário de 50 anos marca algo além de uma efeméride: é o ponto de inflexão onde uma obrigação imposta ao Paraguai — vender seu excedente energético ao Brasil a preço de custo — expira e abre espaço para renegociação.

A estrutura do acordo é simples em aparência, complexa em consequências. A usina pertence aos dois países em partes iguais. Com 20 unidades de geração, ela produz 8,7% da energia consumida no Brasil e 86,4% da consumida no Paraguai. Em 2022, o sistema gerou 69.873 GW/h. Mas o Paraguai não utiliza sua cota inteira. Consome apenas 5% da energia que lhe cabe por direito — os outros 45% ficam ociosos em seus cofres energéticos. Desde 1973, essa sobra foi obrigada a fluir para o Brasil, vendida não ao preço de mercado, mas ao custo de produção. Hoje, essa venda compulsória rende ao Paraguai cerca de 360 milhões de dólares anuais.

O contraste com os preços internacionais é gritante. Enquanto o mercado global negocia quilowatt-hora a 220 dólares, o Brasil paga apenas 44 dólares ao Paraguai. A assimetria não é acidental — é estrutural. O Brasil, muito maior, mais populoso e mais industrializado, financiou praticamente toda a construção da usina. Em 2007, o país assumiu integralmente a correção monetária da dívida de Itaipu. Segundo dados de 2021, 86% de toda a receita da usina veio do Brasil, embora o país tenha recebido apenas 76% da energia. Os custos de operação, royalties e remuneração totalizavam 676 milhões de dólares — e 64% desse montante foram repassados ao Paraguai.

Agora, com o anexo C do tratado passível de revisão, o Paraguai quer mudar as regras. O país deseja vender seu excedente no mercado livre, comercializando com outros parceiros se tiver tecnologia para isso. A Itaipu Binacional, entidade binacional que opera o sistema, confirmou que as negociações oficiais começarão após agosto de 2023, quando o novo presidente paraguaio tomar posse. Os paraguaios votam no domingo 30 de abril, mas o mandatário só assume em agosto.

Para o Brasil, as implicações são diretas. Se o Paraguai conseguir vender seu excedente a preços de mercado, o custo da energia para o consumidor brasileiro tende a subir. Fábio Raia, professor de engenharia elétrica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que isso resultará em aumento nas tarifas. Mas nem todos veem apenas ameaça. Paulo Pedrosa, presidente da Abrace Energia, que representa consumidores industriais, enxerga oportunidade. Com as dívidas de construção já pagas, argumenta, uma renegociação poderia permitir redução significativa nas tarifas. A Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia vai além: vê na revisão do tratado uma chance de fomentar competição no mercado de energia, permitindo que compradores e vendedores negociem livremente preços e prazos.

Gracemerce Camboim, jurista e professora de Direito Internacional na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, alerta que as negociações não serão simples. Embora os direitos das partes sejam iguais no papel, os países são desiguais na prática, e essa assimetria precisa ser encarada. Ela defende que dois princípios continuem valendo: que a tarifa de Itaipu seja definida pelo custo, como estabelece o tratado original, e que a potência seja contratada com antecedência para permitir planejamento de cada nação.

O tema já preocupa as autoridades brasileiras. Em março de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu à posse do novo diretor-geral brasileiro da usina, o economista Enio Verri. Em seu discurso, Lula dirigiu-se ao presidente do Paraguai, ressaltando que ambos os países têm maturidade e consciência para fazer um novo tratado que seja benéfico para o desenvolvimento de ambas as nações e para manter a relação cordial entre os dois povos. As negociações oficiais ainda não começaram, mas o relógio está marcado. O que sair delas pode redefinir o custo da energia para milhões de brasileiros.

O Paraguai pretende vender o excedente ao mercado livre e é soberano para comercializar essa energia com outros países, caso tenha tecnologia para isso
— Fábio Raia, professor de engenharia elétrica da Universidade Presbiteriana Mackenzie
A construção de Itaipu foi praticamente integralmente paga pelo Brasil. O Paraguai recebeu toda a energia de que precisava sem contribuir proporcionalmente com a construção e ainda obtém uma receita adicional
— Gracemerce Camboim, jurista e professora de Direito Internacional
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