Região sem comboio há anos quer integração europeia através de corredor ferroviário que reduziria viagem Porto-Madrid para 2h45. Estudo da Associação Vale d'Ouro prevê criação de 41 mil milhões de euros e benefício para 1,1 milhões de habitantes.
Trás-os-Montes reclama corredor ferroviário de alta velocidade Porto-Madrid
Bragança não seja o fim de linha, mas um nó para a Europa
Porque é que esta região específica reclama agora, e não antes?
Porque finalmente têm um estudo técnico robusto que mostra que é viável e economicamente rentável. Antes era um desejo vago; agora é uma proposta com números.
Os 41 mil milhões de euros — são investimento público ou retorno económico esperado?
É o valor económico criado ao longo do corredor, não o custo da construção. É o que a região poderia gerar em atividade económica se a ligação existisse.
Se o governo já propôs uma ligação a Bragança, porque é que os autarcas dizem que não é aceitável?
Porque uma ligação isolada a Bragança, sem conexão à alta velocidade espanhola, deixa a região ainda periférica. Eles querem ser um nó de passagem para a Europa, não um fim de linha.
Qual é o risco político para o governo em rejeitar isto?
Rejeitar é dizer que a coesão regional é retórica. Numa região que não tem comboio há anos, é uma mensagem difícil de defender.
E se Espanha não quiser construir os seus 40 quilómetros?
Então a ligação portuguesa fica incompleta. Por isso os autarcas estão a pressionar agora, enquanto há janela de decisão.
The Pulse
- Nove concelhos de Trás-os-Montes sem qualquer quilómetro de linha ferroviária
- Corredor Porto-Madrid reduziria viagem para 2h45 e geraria 41 mil milhões de euros
- Consulta pública do Plano Nacional Ferroviário decorre até fevereiro de 2023
- Ligação entraria em Espanha por Zamora, a apenas 40 quilómetros de distância
Região sem comboio há anos quer integração europeia através de corredor ferroviário que reduziria viagem Porto-Madrid para 2h45. Estudo da Associação Vale d'Ouro prevê criação de 41 mil milhões de euros e benefício para 1,1 milhões de habitantes.
Nove autarcas de Trás-os-Montes reclamam ligação ferroviária de alta velocidade a Espanha no Plano Nacional Ferroviário, propondo corredor Porto-Madrid via Bragança e Zamora.
Nove presidentes de câmara da região de Trás-os-Montes estão a bater à porta do governo com um pedido claro: incluir a sua região num corredor ferroviário de alta velocidade que ligaria Porto a Madrid, passando por Bragança e atravessando a fronteira em Zamora. O apelo foi feito esta semana em conferência de imprensa em Bragança, enquanto decorre a consulta pública do Plano Nacional Ferroviário, que se estende até fevereiro.
A Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes (CIMTTM) argumenta que a proposta atual do governo contempla uma ligação a Bragança e Miranda do Douro, mas de forma insuficiente. Não prevê a conexão à rede de alta velocidade espanhola, não estabelece um calendário para a execução das obras, e não oferece alternativas que beneficiem o sul do distrito através de rotas como Vila Franca das Naves. Jorge Fidalgo, presidente da CIM, resumiu a frustração numa frase: a região quer "apanhar o comboio". Há anos que os nove concelhos desta comunidade não têm um único quilómetro de linha ferroviária operacional — o comboio deixou de circular na Linha do Tua até Mirandela há bastante tempo.
O que os autarcas propõem é diferente. Apoiam um estudo realizado pela Associação Vale d'Ouro que desenha uma ligação Porto-Madrid através de Trás-os-Montes, passando por Vila Real, Bragança e Miranda do Douro, e entrando em Espanha por Zamora. Fidalgo insistiu que Bragança não deveria ser o fim de linha, mas sim um ponto de passagem para uma região que se vê como o território português mais próximo do centro europeu. "Se queremos falar de coesão e desenvolvimento regional, temos de passar das palavras à ação", afirmou, apelando ao governo para que seja "sensível porque é de justiça elementar".
Os números apresentados pela Associação Vale d'Ouro são ambiciosos. O corredor Porto-Madrid reduziria o tempo de viagem entre as duas cidades em 15 minutos, estabelecendo a ligação em 2 horas e 45 minutos, com conexão à Linha do Douro. O estudo prevê a criação de 41 mil milhões de euros em valor económico ao longo deste corredor, que serviria uma população de 1,1 milhões de habitantes. Do lado português, a linha teria 200 quilómetros; do lado espanhol, apenas 40. Esta assimetria é relevante: através desta rota, Espanha fica a apenas 40 quilómetros de distância até Zamora, enquanto pela rota alternativa de Vila Formoso, a distância seria de 200 quilómetros até Medina del Campo.
O que está em jogo é mais do que infraestrutura ferroviária. É a questão de se uma região periférica, historicamente afastada das grandes rotas de transporte, consegue finalmente integrar-se nas redes europeias de mobilidade. A consulta pública do Plano Nacional Ferroviário prossegue até fevereiro, e a decisão do governo sobre se prioriza esta ligação será um teste da sua retórica sobre coesão territorial.
Notable Quotes
A região quer apanhar o comboio— Jorge Fidalgo, presidente da CIM Terras de Trás-os-Montes
Se queremos falar de coesão e desenvolvimento regional, temos de passar das palavras à ação— Jorge Fidalgo