Vinte anos após a colisão que ceifou 154 vidas no céu do Mato Grosso, o voo Gol 1907 permanece como um divisor de águas na história da aviação brasileira — não apenas pelo que destruiu, mas pelo que obrigou a construir. O choque entre um Boeing 737 e um jato executivo a 37 mil pés revelou as fraturas de um sistema onde a busca pela verdade técnica e a busca por culpados caminhavam perigosamente juntas. A tragédia de setembro de 2006 acabou por reformular, em lei e em prática, a maneira como o Brasil aprende com seus desastres aéreos.
Tragédia da Gol há 20 anos transformou investigação de acidentes aéreos no Brasil
Separou investigação de causas de responsabilidades criminais
Por que uma caixa-preta em um hall de escritório? Parece um memorial, mas também parece um aviso.
É ambos. A Gol mantém ali um dos equipamentos do voo 1907 como forma de manter viva a memória daquelas 154 pessoas. Mas também é um lembrete constante de que aquilo aconteceu, de que a segurança não é algo que você conquista uma vez e depois esquece.
A companhia diz que o acidente foi causado pela "atuação irresponsável de outro operador aéreo". Mas o relatório do Cenipa não apontou falhas da Gol. Então por que ela coloca a culpa em outro operador?
Porque tecnicamente está certo. O Legacy era a aeronave que perdeu o transponder, cujos pilotos não perceberam os alertas. Mas Luke tem razão em questionar — a Gol não estava envolvida no erro operacional, mas seus passageiros pagaram o preço.
E o que mudou depois disso tudo? Vinte anos é tempo suficiente para saber se as lições foram realmente aprendidas.
A Lei de 2014 separou investigação de causas de investigação criminal. Antes disso, essas coisas andavam juntas, criando conflitos. Agora o Cenipa descobre o que deu errado para evitar que aconteça novamente, e a polícia apura responsabilidades em paralelo.
Mas separar investigação de causas de investigação criminal é realmente uma inovação? Outros países fazem isso há décadas.
Verdade. Mas para o Brasil, foi uma mudança estrutural importante. E o STF confirmou o modelo em 2024, então virou lei consolidada.
Os controladores de tráfego aéreo foram condenados. Mas os pilotos do Legacy, que estavam nos EUA, não cumpriram pena. Isso não deixa a justiça incompleta?
Deixa. Mas também mostra um limite real — você não pode prender alguém que está em outro país e que seu país não quer extraditar. É uma falha do sistema internacional, não do modelo brasileiro.
O que importa é que houve responsabilização criminal pela primeira vez na história da aviação brasileira. Antes disso, acidentes aéreos não geravam condenações criminais. Esse precedente mudou a cultura.
E o major-brigadeiro Kersul, que coordenou o resgate — como ele lida com aquilo 20 anos depois?
Ele diz que se lembra daqueles dias toda vez que ocorre um acidente aéreo. Coordenou 54 dias de operação para resgatar 154 corpos. Assumiu o comando do Cenipa enquanto estava no local. É uma história de responsabilidade pessoal diante de uma tragédia.
Mas a pergunta que fica é: se todas essas mudanças foram implementadas, por que ainda temos acidentes aéreos? A segurança melhorou, mas não é perfeita.
Nenhuma segurança é perfeita. O que mudou é que agora temos mecanismos melhores para aprender com os erros e evitar que o mesmo tipo de acidente aconteça novamente.
El Pulso
- A 37 mil pés, o desaparecimento silencioso do Legacy do radar — causado por um transponder em modo de espera que ninguém percebeu — tornou a colisão inevitável e matou 154 pessoas em segundos.
- A investigação expôs uma contradição estrutural: o mesmo sistema que deveria aprender com o acidente estava emaranhado em processos criminais que incentivavam o silêncio em vez da transparência.
- Pela primeira vez na aviação brasileira, controladores de tráfego aéreo militares foram condenados criminalmente, criando um precedente que abalou instituições e abriu caminho para reformas.
- A Lei 12.970, aprovada em 2014 e confirmada pelo STF em 2024, separou definitivamente a investigação de causas da apuração criminal, libertando o Cenipa para investigar sem o peso de produzir culpados.
- Radares modernizados, treinamentos mais rigorosos, cabines reformuladas e a consolidação da Anac como agência regulatória independente são os frutos concretos de uma catástrofe que o Brasil decidiu não desperdiçar.
Vinte anos após a colisão que ceifou 154 vidas no céu do Mato Grosso, o voo Gol 1907 permanece como um divisor de águas na história da aviação brasileira — não apenas pelo que destruiu, mas pelo que obrigou a construir. O choque entre um Boeing 737 e um jato executivo a 37 mil pés revelou as fraturas de um sistema onde a busca pela verdade técnica e a busca por culpados caminhavam perigosamente juntas. A tragédia de setembro de 2006 acabou por reformular, em lei e em prática, a maneira como o Brasil aprende com seus desastres aéreos.
No oitavo andar da sede da Gol, em São Paulo, uma caixa-preta laranja repousa dentro de uma estrutura de acrílico ao lado de outra, idêntica, que permanece vazia. É um memorial silencioso ao Boeing 737 PR-GTD e às 154 pessoas que não sobreviveram ao dia 29 de setembro de 2006.
Naquela tarde, o voo 1907 seguia de Manaus para o Rio de Janeiro quando, sobre a Serra do Cachimbo, colidiu com um jato executivo Embraer Legacy 600. O Boeing perdeu parte da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou na queda sobre mata fechada. O Legacy, danificado, conseguiu pousar na base aérea próxima — seus sete ocupantes sobreviveram. A investigação do Cenipa revelou uma cadeia de falhas: o transponder do Legacy havia entrado em modo de espera sem que os pilotos notassem, o sistema anticolisão TCAS não funcionou adequadamente, e o controle de tráfego aéreo não detectou o problema a tempo.
Mas o legado mais duradouro do acidente não foi técnico — foi institucional. Até então, a apuração das causas de um acidente e a investigação criminal corriam juntas, criando conflitos que comprometiam o aprendizado. A Lei 12.970, aprovada em 2014, separou essas funções: o Cenipa passou a investigar exclusivamente as causas e recomendar medidas preventivas, enquanto a Justiça apura responsabilidades em paralelo. O Supremo Tribunal Federal confirmou o modelo em 2024. Os controladores militares envolvidos foram condenados criminalmente — um precedente inédito na aviação brasileira.
O major-brigadeiro Jorge Kersul Filho estava chegando em casa quando foi chamado de volta à base naquela tarde. Nos 54 dias seguintes, coordenou a operação de resgate na Serra do Cachimbo, organizando clareiras para helicópteros e um centro de operações a 40 quilômetros do local da queda. O último corpo retirado foi o do bancário Marcelo Paixão Lopes. A história desses dias foi registrada por sua irmã, a jornalista Maria Tereza Kersul, no livro 'Ninguém Ficou para Trás'.
Duas décadas depois, a placa ao lado da caixa-preta no hall da Gol resume o que restou: 'Que as lições apreendidas nesse acidente reafirmem nosso compromisso com a segurança'. O Brasil investiu em radares, softwares, treinamentos e regulação. A tragédia do voo 1907 não foi desperdiçada.
No oitavo andar da sede da Gol, na zona sul de São Paulo, duas estruturas de acrílico idênticas ocupam o hall. Uma permanece vazia. A outra abriga uma das caixas-pretas — laranja, na verdade — do Boeing 737 com matrícula PR-GTD. Há duas décadas, esse avião colidiu no ar com outro, e 154 pessoas morreram. Nenhuma delas sobreviveu.
Em 29 de setembro de 2006, o voo 1907 saía de Manaus rumo ao Rio de Janeiro, com parada prevista em Brasília. A 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso, o Boeing encontrou um jato executivo Embraer Legacy 600 que viajava de São José dos Campos para Fort Lauderdale. O choque foi inevitável. O Boeing perdeu cerca de um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou durante a queda em uma área de mata fechada. O Legacy, danificado mas ainda pilotável, conseguiu pousar na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Sete pessoas estavam a bordo — todas sobreviveram. Os dois pilotos foram condenados, mas não cumpriram pena e vivem nos Estados Unidos.
A investigação do Cenipa, órgão da Força Aérea Brasileira responsável por apurar acidentes aéreos, identificou uma sequência de falhas que levou à colisão. O transponder do Legacy passou para modo de espera sem que os pilotos percebessem, removendo o avião do radar. O sistema anticolisão TCAS não funcionou como deveria. Os pilotos não notaram os alertas indicando que esses equipamentos críticos estavam fora de operação. O relatório final não apontou erros da tripulação ou da companhia Gol, mas sim uma cadeia de problemas operacionais e de controle de tráfego aéreo.
Mas o acidente de 2006 provocou algo maior que a identificação de causas técnicas. Ele forçou uma transformação estrutural na forma como o Brasil investiga acidentes aéreos. Até então, a apuração de causas e a investigação de responsabilidades criminais andavam juntas, criando conflitos de interesse. O Cenipa precisava descobrir o que havia dado errado para evitar que acontecesse novamente, mas ao mesmo tempo estava envolvido em processos que buscavam culpados e punições. A Lei 12.970, aprovada em 2014, separou essas duas funções. Desde então, o Cenipa investiga exclusivamente as causas dos acidentes e recomenda medidas preventivas. Polícia, Ministério Público e Justiça apuram as responsabilidades legais e criminais em paralelo. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal confirmou a validade desse modelo.
Os controladores de tráfego aéreo — militares — foram condenados a pelo menos dois anos de reclusão e expulsos das forças armadas. Foi a primeira responsabilização criminal desse tipo na história da aviação brasileira. O especialista em segurança de voo Douglas Avedikian chama isso de precedente inédito. Para ele, o acidente do Gol 1907 produziu efeitos importantes não apenas no Brasil, mas mundialmente. O país aumentou gradualmente o número de controladores, investiu em radares, softwares e sistemas de comunicação, e acelerou a consolidação da Anac como agência regulatória. Os treinamentos de controladores foram ajustados com ênfase em proficiência de inglês técnico. As cabines passaram por melhorias ergonômicas, os alertas de sistemas críticos foram reforçados, e os simuladores ganharam mais rigor nos treinamentos.
O major-brigadeiro Jorge Kersul Filho, hoje aos 70 anos e na reserva, estava prestes a assumir o comando do Cenipa quando o telefone tocou naquela tarde de 29 de setembro. Ele havia acabado de chegar em casa quando recebeu a ordem de voltar à base — um avião comercial havia desaparecido. Como era o oficial disponível no Comaer, foi escalado para coordenar o possível resgate. No sábado seguinte, embarcou para a Serra do Cachimbo. Sua transição de comando do Cenipa ocorreu enquanto ele estava no local do acidente, responsável por toda a coordenação do resgate dos corpos. Saiu de Cachimbo na quinta-feira para assumir oficialmente em Brasília na sexta-feira de manhã e voou de volta no mesmo dia.
A operação levou 54 dias. Kersul coordenou toda a logística, desde a abertura da primeira clareira para helicópteros até a organização de um centro de operações na fazenda Jarinã, a 40 quilômetros do local da queda, e na base aérea do Cachimbo. O último corpo retirado foi o do bancário Marcelo Paixão Lopes. Suas memórias daqueles dias estão registradas no livro "Ninguém Ficou para Trás: A Operação de Busca e Resgate do Voo 1907", escrito há dez anos por sua irmã, a jornalista Maria Tereza Kersul.
No hall do oitavo andar, ao lado da caixa-preta laranja, uma placa diz: "Que as lições apreendidas nesse acidente reafirmem nosso compromisso com a segurança de nossos clientes, colaboradores e parceiros". A Gol afirma que a memória dos 154 passageiros e tripulantes permanece na empresa 20 anos depois, e que o aprendizado gerado por esse evento trágico continua guiando seu compromisso com a segurança.
Citas Notables
O caso marcou um precedente inédito no país. Foi a primeira responsabilização criminal com esse formato na história da aviação brasileira— Douglas Avedikian, especialista em segurança de voo
Deus colocou as melhores pessoas do meu lado— Major-brigadeiro Jorge Kersul Filho, ex-comandante do Cenipa