Toia Lemann transforma arte em roupa sem se considerar estilista

Gosto mais de roupa do que de moda. O objeto roupa me interessa.
Toia Lemann explica a distinção que orienta seu trabalho: não é sobre tendências, é sobre o que a roupa é.
Mark

Por que ela insiste em não ser estilista? Parece uma recusa deliberada.

Mimi

Acho que é honestidade. Ela não foi treinada em moda, não pensa em silhuetas ou proporções como um estilista pensa. Ela pensa como artista — em imagem, em composição, em o que quer dizer.

Luke

Mas ela tem estilistas na equipe. Então quem é responsável pela roupa que sai pronta? Quem faz a modelagem?

Mimi

Ela orienta, eles executam. É colaboração. Mas a visão, o que entra no tecido, vem dela.

Mark

E isso funciona? As roupas vendem?

Mimi

Vendem o suficiente para ela estar em três canais de distribuição e trabalhar compulsivamente, como ela mesma diz.

Luke

Mas quanto? Não temos números. Sabemos que ela está no Iguatemi e no Mata Lab, mas não sabemos o volume, não sabemos se é um negócio viável ou se é sustentado pela fortuna da família.

Mimi

Justo. Isso fica em aberto.

Mark

A morte da mãe parece central nessa história. Como você lê isso?

Mimi

Como um ponto de ruptura. Ela estava presa numa vida que não era dela. A morte da mãe — que era artista, que era psicanalista, que era referência — abriu uma porta. Ela passou a usar os trabalhos da mãe nas roupas, depois seus próprios. É como se estivesse processando o luto através da criação.

Luke

Mas ela não fala muito sobre isso. Ela diz que "chegou uma hora" em que decidiu usar seus próprios trabalhos. Não sabemos exatamente quando, não sabemos quanto tempo levou.

Mimi

Verdade. A gente tem a narrativa dela, mas não temos a cronologia completa.

  • A morte da mãe e artista Maria Quental desencadeou uma crise profunda que levou Toia a abandonar o consultório de psicanálise e reorganizar toda a sua vida criativa.
  • O impulso inicial de estampar obras da mãe em roupas nasceu do luto, mas exigiu anos de tentativas e marcas anteriores antes de encontrar forma e identidade próprias.
  • Toia recusa o título de estilista com firmeza: a visão e as estampas são suas, mas uma equipe garante o acabamento e a viabilidade comercial das peças.
  • A coleção Eu vim da Bahia convoca memórias de fazenda, cacaueiros, lampião e Jorge Amado — uma Bahia de sangue e infância, não de cartão-postal.
  • Com loja no Shopping Iguatemi desde 2024 e presença no Mata Lab e no e-commerce, a marca expande alcance sem abrir mão da atemporalidade como princípio criativo.

Entre o luto e a criação, Toia Lemann encontrou na roupa não uma carreira de moda, mas uma linguagem própria — aquela que a psicanalista e artista visual carioca sempre soube falar através de telas, papéis e agora tecidos. Desde 2018, sua marca homônima existe na fronteira entre galeria e loja, transformando obras visuais em peças atemporais que recusam tendências e obedecem apenas à memória e ao olhar. Com a nova coleção Eu vim da Bahia, Toia convoca ancestralidade, infância e pertencimento para dentro do vestuário — lembrando que a arte, quando verdadeira, não precisa de rótulo para se fazer sentir.

Toia Lemann não se apresenta como estilista — e faz questão disso. Psicanalista de formação e artista visual por vocação, ela construiu uma marca que existe na fronteira entre galeria e loja, onde a roupa é tratada como objeto artístico, não como produto de moda. "Gosto mais de roupa do que de moda", resume ela. "O objeto roupa me interessa."

A marca nasceu em 2018 numa cobertura do Leblon, no Rio de Janeiro, funcionando como espaço híbrido: enquanto artistas expunham nas paredes, Toia lançava coleções com estampas tiradas dessas mesmas obras. No início, usava os trabalhos de sua mãe, Maria Quental, também artista. Depois expandiu para outros criadores — e, mais tarde, para os seus próprios.

A transição foi marcada por perda. Quando Maria Quental morreu, Toia atravessou uma crise que a fez deixar o consultório de psicanálise, onde atuava na linha freudiana com influências de Melanie Klein e Winnicott. Amava a teoria, mas a prática clínica havia se tornado um sacerdócio que não cabia mais em sua vida. O primeiro impulso de transformar as obras da mãe em estampas veio do luto. "Chegou uma hora em que decidi pegar meus trabalhos e fazer estampas. Isso acabou me absorvendo e hoje trabalho compulsivamente."

Em setembro, ela lança a coleção Eu vim da Bahia, ancorada em memória familiar: ancestrais baianos, férias na fazenda da avó em Ilhéus, casarão sem luz elétrica, fogão a lenha, passeios a cavalo entre cacaueiros. Uma Bahia vivida, não encenada.

Filha primogênita do empresário Jorge Paulo Lemann, Toia mantém reserva sobre a vida pessoal e um cotidiano despojado — ateliê em apartamento no Itaim, paredes pintadas por ela mesma, viagens a São Paulo a cada quinze dias. Suas peças chegam ao público pelo e-commerce, pela loja no Shopping Iguatemi e pelo Mata Lab, no complexo Cidade Matarazzo. A técnica é mista: lápis, grafite, pastel, colagem e aquarela, tudo junto. A moda segue seu caminho. Ela segue o seu.

Toia Lemann não fala de moda como quem a domina. Ela fala dela como quem a tolera — algo que permeia tudo, inevitável como o ar, mas não o que a move. "Não entendo de moda e nunca segui tendências", diz a psicanalista e artista visual carioca. "Mas sempre imagino o resultado do meu trabalho estampado em roupas. Acho que gosto mais de roupa do que de moda. O objeto roupa me interessa."

Essa distinção — entre moda e roupa — é o fio que atravessa sua trajetória. Em 2018, ela lançou uma marca com seu nome, começando no Rio de Janeiro, numa cobertura da rua Dias Ferreira, no Leblon, aquele bairro de bares e restaurantes onde a vida pulsa. O espaço funcionava como híbrido deliberado: galeria e loja ao mesmo tempo. Enquanto artistas expunham seus trabalhos nas paredes, Toia lançava coleções que incorporavam essas mesmas obras em tecido — uma peça de roupa que carregava a pintura, o desenho, a criação visual de alguém.

No início, ela usava os trabalhos de sua mãe, Maria Quental, também artista, para estampar as peças. Depois expandiu, convidando outros criadores. Quando a pandemia fechou as portas, Toia percorreu um caminho longo até encontrar seu próximo endereço: São Paulo, no Shopping Iguatemi, onde está desde 2024. Agora trabalha com coleções que ela descreve como atemporais, sempre falando algo do Brasil, sempre com estampas que vêm de seus próprios trabalhos.

"Não me defino como estilista, porque não sou", resume ela, com a clareza de quem já respondeu isso muitas vezes. Ela tem uma equipe de estilistas que a orienta, que garante o acabamento perfeito, que resolve o desafio de tornar a roupa comercial — porque, afinal, é preciso vender. Mas a criação, a visão, o que entra no tecido, isso vem dela. E vem sem se curvar ao que está em alta. "Quando vou fazer uma roupa, penso no que gosto, independentemente do que está na moda ou do que estão gostando."

Em setembro, ela lança a coleção Eu vim da Bahia, e o faz com propriedade que vem de sangue e memória. Seus ancestrais eram baianos. Ela passou férias na fazenda da avó paterna, Yvette Lemann, em Ilhéus — aquelas propriedades antigas, sem luz elétrica, com casarão e fogão a lenha, iluminadas por lampião. Sua avó, filha de suíços que imigraram para Salvador, contava histórias do passado e adorava Jorge Amado. Os programas da infância de Toia eram passear a cavalo ou de mula entre os cacaueiros. Essa é a Bahia que entra na coleção.

Toia tem 60 anos, é a filha primogênita do empresário Jorge Paulo Lemann, cuja família responde pela terceira maior fortuna do país segundo a Forbes deste ano — um patrimônio de US$ 19,7 bilhões. Mas ela mantém como princípio a reserva sobre sua vida pessoal. Seu dia a dia é despojado. O ateliê paulista fica num apartamento de classe média alta no Itaim, um cômodo onde todos os papéis de parede foram pintados por ela mesma. Ela vem a São Paulo a cada quinze dias. A maior parte do tempo trabalha no Rio.

Suas roupas circulam por três caminhos: o e-commerce, a loja em São Paulo, e o Mata Lab, a loja de departamentos de luxo no complexo Cidade Matarazzo que privilegia a brasilidade. No Rio, vende para clientes tradicionais que vão ao ateliê. Ela chegou a fazer almofadas, papéis de parede, jogos americanos. Louça ainda pretende fazer. Sua técnica é mista: lápis, grafite, pastel, colagem, aquarela — tudo junto, tudo ao mesmo tempo.

A trajetória até aqui passou por uma crise. Toia era psicanalista, formada na Sociedade Brasileira de Psicanálise, na linha freudiana com inclinação para Melanie Klein e Donald Winnicott. Sua mãe também era. Havia simbiose entre elas. Quando Maria Quental morreu, Toia entrou numa grande crise que a levou a reorganizar tudo. Deixou o consultório — aquilo não tinha vocação, aquilo era rígido demais, aquilo não se encaixava mais. Mesmo amando a psicanálise como teoria, a vida real de psicanalista era uma espécie de sacerdócio que ela não queria mais. Trabalhou em hospitais psiquiátricos, no Judiciário, adorava, mas de repente mudou.

O primeiro impulso de fazer algo com as obras da mãe veio do luto. O princípio foi difícil. Ela teve outras marcas até encontrar o caminho. Só com a marca Toia Lemann deixou de usar os trabalhos da mãe e começou a usar os seus próprios. "Chegou uma hora em que decidi pegar meus trabalhos e fazer estampas. Era um passo que precisava dar. Isso acabou me absorvendo e hoje trabalho compulsivamente." Agora, a roupa é o objeto que a interessa. A moda segue seu caminho. Ela segue o seu.

Quando vou fazer uma roupa, penso no que gosto, independentemente do que está na moda ou do que estão gostando.
— Toia Lemann
Isso acabou me absorvendo e hoje trabalho compulsivamente.
— Toia Lemann, sobre o trabalho com suas próprias estampas
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