Pode andar com joias caras e sentir-se seguro. Mas isso não é necessário no Mónaco.
Na noite de segunda-feira, uma bomba detonou à entrada de um edifício de luxo no Mónaco, ferindo gravemente um oligarca ucraniano e duas outras pessoas — marcando a primeira tentativa de assassínio com explosivo na história da cidade-Estado. O acontecimento abala não apenas corpos, mas uma reputação cuidadosamente construída ao longo de décadas: a de que o Mónaco era, acima de tudo, um santuário de segurança para os mais ricos do mundo. Quando a proteção se torna identidade, qualquer brecha transforma-se em crise existencial.
- Uma bomba explodiu à entrada do Sun's Palace, ferindo gravemente o oligarca ucraniano Vadym Yermolaiev, de 58 anos, e mais duas pessoas, incluindo uma criança de 13 anos.
- O atentado é inédito: nunca antes tinha sido registada uma tentativa de homicídio com explosivo nas ruas do Mónaco, abalando a imagem de invulnerabilidade que atrai milionários e celebridades.
- Apesar de 556 polícias, 1.387 câmaras com reconhecimento facial e mais de 134 mil verificações de identidade por ano, o suspeito conseguiu escapar a pé para França pela fronteira porosa com Beausoleil.
- O príncipe Alberto II classificou o ataque como 'um ato odioso' e ordenou reforços no patrulhamento, enquanto as polícias monegasca e francesa conduzem buscas conjuntas sem resultado até ao momento.
- O governo investe agora milhões para reforçar a fronteira norte, mas a questão que paira é mais difícil de resolver: como se reconstrói uma reputação de segurança quando o suspeito continua desaparecido?
Pouco antes das 21 horas de segunda-feira, uma bomba detonou à entrada do Sun's Palace, um edifício de apartamentos de luxo no Mónaco, ferindo gravemente o oligarca ucraniano Vadym Yermolaiev, de 58 anos, bem como uma mulher e uma criança de 13 anos. Foi a primeira tentativa de assassínio com explosivo alguma vez registada nesta cidade-Estado — um facto que o ministro de Estado Christophe Mirmand reconheceu com visível gravidade, acrescentando que as câmaras de segurança captaram o suspeito a circular pela área várias vezes antes do ataque.
O Mónaco construiu a sua reputação sobre números impressionantes: 556 polícias para menos de 39 mil habitantes, uma rede de 1.387 câmaras com reconhecimento facial ativas 24 horas por dia, e mais de 134 mil verificações de identidade aleatórias realizadas no ano anterior. No ano passado, não houve um único homicídio nem tentativa. O príncipe Alberto II descreveu o atentado como 'um ato odioso' e mobilizou forças de segurança para tranquilizar os residentes.
Mas o suspeito fugiu. As câmaras mostraram-no a atravessar a pé a fronteira norte com a cidade francesa de Beausoleil — uma passagem sem barreiras físicas, onde é possível sair do principado sem sequer se aperceber. A investigação por tentativa de homicídio premeditado prossegue com cooperação franco-monegasca, enquanto o governo anuncia investimentos para reforçar esta fronteira porosa.
A atração do Mónaco vai além da segurança: não há impostos sobre rendimento, património ou ganhos de capital, e cerca de 35 em cada 100 residentes são milionários. Lewis Hamilton, Novak Djokovic e Ringo Starr são alguns dos nomes que escolheram viver ali. Nick Edmiston, residente desde 1989, resumiu o apelo com uma frase: 'Pode andar por aí usando joias caras e sentir-se seguro.' Agora, com um suspeito em fuga e a primeira bomba na história do principado, essa certeza ficou suspensa no ar — e nenhuma câmara de vigilância consegue, por si só, restaurá-la.
Pouco antes das 21 horas de segunda-feira, uma explosão abriu um buraco na imagem que o Mónaco cuidadosamente cultivou durante décadas. Uma bomba detonou à entrada do Sun's Palace, um edifício de apartamentos de luxo construído nos anos 1920, ferindo gravemente o oligarca ucraniano Vadym Yermolaiev, de 58 anos, quando este saía para a rua. Uma mulher e uma criança de 13 anos também ficaram com ferimentos graves. Foi a primeira tentativa de assassínio com explosivo jamais registada nas ruas altamente vigiadas desta cidade-Estado.
O Mónaco construiu a sua reputação sobre a ideia de que era um dos lugares mais seguros do mundo. Não havia homicídios no ano anterior, nem sequer tentativas. Não havia assaltos à mão armada. A polícia registou 1.055 crimes no total, mas 38% deles eram delitos menores — vandalismo, pequenos furtos, fraudes. Isto numa população de 38.857 habitantes espalhada por apenas dois quilómetros quadrados, tornando-a o segundo Estado independente mais pequeno do mundo, com o tamanho aproximado da freguesia de Arroios em Lisboa. O príncipe Alberto II, que governa desde 2005, descreveu o atentado como "um ato odioso" e mobilizou a polícia e os serviços de segurança para caçar o responsável, ordenando reforços no patrulhamento das ruas para tranquilizar os residentes abastados.
A segurança do Mónaco repousa em números impressionantes. Existem 556 polícias no principado — um polícia para cada 70 residentes, comparado com um para cada 400 nos EUA e um para cada 425 no Reino Unido. Para além disso, há 125 oficiais militares de elite da Companhia dos Carabinieri do Príncipe dedicados à segurança do príncipe e da sua família. Uma rede de 1.387 câmaras de vigilância com reconhecimento facial funciona 24 horas por dia num centro de comando operacional. No ano anterior, foram realizadas mais de 134 mil verificações de identidade aleatórias nas ruas. Christophe Mirmand, ministro de Estado, afirmou que foi "a primeira vez na história que um ato deste tipo ocorreu no principado" e observou que as imagens de segurança mostraram o suspeito a circular pela área várias vezes enquanto esperava pelas vítimas.
Mas o suspeito conseguiu fugir. As câmaras captaram-no a caminhar pela rua e a entrar em França. O Mónaco não tem barreiras físicas na sua fronteira norte com a cidade francesa de Beausoleil — é possível atravessar a pé sem sequer se aperceber. O governo está a investir milhões para reforçar a segurança nesta fronteira porosa, mas por enquanto o responsável permanece em fuga, apesar das buscas conjuntas das polícias monegasca e francesa. A polícia abriu uma investigação por tentativa de homicídio premeditado e colocação de engenho explosivo em área pública.
O Mónaco atraiu milionários e celebridades precisamente por causa desta reputação de segurança. Lewis Hamilton, Jenson Button e Max Verstappen — pilotos de Fórmula 1 — vivem lá. Também Novak Djokovic, Björn Borg, Ringo Starr e Shirley Bassey. Nick Edmiston, fundador de uma empresa de construção de super iates que vive no Mónaco desde 1989, disse que o sentimento de segurança é o que torna o país especial. "Pode andar por aí usando joias caras e sentir-se seguro," afirmou. "Muitas pessoas ricas estão habituadas a estar sempre rodeadas de seguranças, mas isso não é necessário no Mónaco." Cerca de 35 em cada 100 residentes são milionários.
A segurança é apenas parte da atração. Não há impostos sobre o rendimento, património, propriedade ou ganhos de capital. As empresas constituídas no Mónaco estão isentas de impostos se a maior parte dos seus negócios estiver no principado. O único imposto é o IVA de 20%. Para solicitar residência, os candidatos devem abrir uma conta bancária e depositar pelo menos 500 mil euros. A procura é tão elevada que o governo investiu dois mil milhões de euros num aterro de seis hectares onde 120 apartamentos estão a ser vendidos a mais de 100 mil euros por metro quadrado — mais caro do que o 15 Central Park West em Manhattan ou o One Hyde Park em Londres. Um milhão de euros compra apenas 16 metros quadrados de propriedade residencial de primeira linha, menos de um terço do espaço que compraria em Paris.
Agora, com um suspeito em fuga e a primeira bomba de assassínio na história do principado, o Mónaco enfrenta uma questão que nenhuma quantidade de câmaras de vigilância ou polícias por quilómetro quadrado consegue responder completamente: como se protege um lugar que depende da sua reputação de segurança quando essa reputação é abalada? O governo está a reforçar o patrulhamento e a investir na fronteira, mas o dano à imagem já foi feito. A investigação continua, e o suspeito continua desaparecido.
Notable Quotes
Foi a primeira vez na história que um ato deste tipo ocorreu no principado— Christophe Mirmand, ministro de Estado do Mónaco
Pode andar por aí usando joias caras e sentir-se seguro. Muitas pessoas ricas estão habituadas a estar sempre rodeadas de seguranças, mas isso não é necessário no Mónaco— Nick Edmiston, fundador da Edmiston & Co., residente desde 1989
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que uma bomba consegue explodir num lugar com 556 polícias para 38 mil pessoas?
Porque a segurança não é apenas sobre números. É sobre fronteiras. O Mónaco não tem barreiras físicas com França — pode-se atravessar a pé. O suspeito foi apanhado pelas câmaras a entrar em França. Depois disso, desaparece.
Mas têm 1.387 câmaras de vigilância. Reconhecimento facial. Um centro de comando 24 horas.
Têm. E funcionam bem para crimes de rua, para pequenos furtos, para vandalismo. Mas alguém que planeia uma bomba não é um criminoso de rua. É alguém que sabe que pode sair do país em minutos.
Então o Mónaco é seguro apenas enquanto ninguém quiser realmente fazer algo perigoso?
Não é bem assim. É seguro porque é pequeno, porque é rico, porque as pessoas que vivem lá não têm razões óbvias para magoar-se umas às outras. Mas um oligarca ucraniano? Isso traz conflitos de fora. Traz pessoas com razões que nada têm a ver com Mónaco.
O príncipe Alberto disse que foi um ato odioso. Que mais podia ele dizer?
Podia dizer que a segurança que vendeu aos milionários — a ideia de que podem andar com joias caras sem medo — essa segurança tem limites. Tem uma fronteira. Literalmente.
Vai isto afastar as pessoas ricas?
Talvez. Ou talvez reforce a segurança de tal forma que ninguém mais consegue entrar ou sair. Mas isso muda o que o Mónaco é. Deixa de ser um refúgio. Torna-se uma fortaleza.