Títulos IPCA+ longos ganham 4% em um dia após primeiro turno eleitoral

Um bom crédito não é necessariamente um bom investimento
A gestora Sparta alerta investidores a avaliar o risco de oscilação de preço que estão assumindo.
Mark

Por que exatamente os títulos longos subiram tanto em um dia? Parece desproporcional.

Mimi

Quando os juros caem, os títulos já emitidos ganham valor porque continuam pagando taxas mais altas que os novos. Quanto mais longo o prazo, maior o efeito. Nesse caso, o resultado eleitoral alimentou expectativas de cortes de gastos, o que pressionou os juros para baixo.

Luke

Mas isso é especulação sobre o que um governo faria, certo? O resultado do primeiro turno não garante nada sobre política fiscal.

Mimi

Exato. Por isso os especialistas alertam para cautela. Se Lula vencer no segundo turno, Ricardo Trevisan diz que "boa parte desse movimento vai por água abaixo".

Mark

E quanto aos títulos IPCA+ de prazo intermediário? Por que alguns gestores preferem esses?

Mimi

Letícia Albuquerque, da Tivio Capital, prefere IPCA+ com prazo médio de sete anos porque oferece menos risco de oscilação que os muito longos, mas ainda protege contra inflação.

Luke

Ela diz que alongar só faz sentido com "visibilidade de medidas críveis de ajuste fiscal". Temos isso agora?

Mimi

Não. É por isso que ela recomenda cautela. A Sparta também alerta que pedidos de resgate de setembro devem aparecer em outubro e novembro, o que pode pressionar os preços.

Mark

Então o Tesouro Selic segue sendo a opção mais segura?

Mimi

Para quem quer esperar o resultado eleitoral, sim. Guilherme Almeida diz que não traz ganho relevante, mas "garante que o investidor continue no jogo" com a Selic em 13,75%.

Luke

E as debêntures? Subiram 2,58%, mas o acúmulo no ano é apenas 7,07%, bem abaixo do Tesouro Selic.

Mimi

Setembro foi ruim para elas. O prêmio que as empresas pagam acima dos títulos públicos subiu 0,40 ponto percentual, o que derrubou os preços. Segundo a Sparta, não foi problema de crédito, mas falta de compradores.

Mark

Então ainda vale entrar em prefixados agora?

Mimi

Gabriel Magno acha que sim, mas lembra que a eleição não acabou. Ricardo Farias recomenda esperar a euforia passar para separar ajuste de exagero.

Luke

E se o cenário virar? Os mesmos títulos que subiram 4% podem cair 4%?

Mimi

Sim. É por isso que o risco de reversão vale nos dois sentidos. Tudo depende do resultado do segundo turno em 25 de outubro.

  • Títulos IPCA+ de longo prazo subiram 4,09% em um dia, superando três meses inteiros de rendimento do CDI — um movimento que surpreendeu até investidores experientes.
  • Prefixados registraram a maior queda de taxa em um único dia desde 2008, sinalizando que o mercado apostou pesado em um cenário de corte de gastos sob um eventual novo governo.
  • Debêntures de infraestrutura avançaram 2,58% na segunda-feira, mas ainda acumulam ganho modesto no ano, expostas a um mercado com poucos compradores e fluxos instáveis.
  • Especialistas dividem-se entre travar taxas agora e aguardar o segundo turno: o risco de reversão é simétrico — o que valorizou os títulos pode desvalorizá-los com a mesma velocidade.
  • O segundo turno, marcado para 25 de outubro, paira como horizonte de incerteza: analistas alertam que os preços já embutem quatro anos de um governo específico, e uma virada eleitoral pode desfazer boa parte do movimento.

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, os mercados de renda fixa responderam com uma intensidade rara: títulos públicos atrelados à inflação de longo prazo valorizaram 4,09% em um único dia, comprimindo em horas o que levaria meses para ser acumulado. O resultado eleitoral — com Flávio Bolsonaro à frente de Lula — alimentou expectativas de maior disciplina fiscal, derrubando os juros futuros e reacendendo um debate antigo sobre o quanto o preço de um ativo reflete fundamentos e o quanto reflete esperança.

Na segunda-feira após o primeiro turno das eleições presidenciais, os títulos públicos de longo prazo atrelados à inflação viveram uma valorização abrupta. O índice IMA-B 5+ avançou 4,09% em um único dia — mais do que três meses inteiros de rendimento do CDI. Para investidores com fundos de renda fixa em carteira, foi uma recomposição de patrimônio quase instantânea.

A lógica é clássica: quando os juros caem, títulos já emitidos ganham valor por pagarem taxas superiores aos novos papéis. Quanto mais distante o vencimento, mais pronunciado o efeito. O resultado eleitoral — com Flávio Bolsonaro à frente de Lula — alimentou expectativas de um governo mais comprometido com cortes de gastos, pressionando os juros futuros para baixo. Analistas apontam que boa parte do prêmio de risco dos títulos longos reflete a preocupação com o crescimento da dívida pública, o que explica a reação tão intensa.

Os prefixados foram igualmente sensíveis: o IRF-M 1+ subiu 3,60%, a maior queda de taxa em um dia desde 2008. No outro extremo, o Tesouro Selic mal se moveu, com ganho de 0,05% — mas especialistas continuam recomendando-o para quem prefere aguardar o desfecho eleitoral sem grandes oscilações. As debêntures de infraestrutura avançaram 2,58% na segunda-feira, embora acumulem apenas 7,07% no ano, bem abaixo do Tesouro Selic. A defasagem vem, em parte, de setembro, quando o prêmio pago pelas empresas subiu sem refletir problemas de crédito — apenas uma mudança de fluxo em mercado com poucos compradores.

A cautela, porém, é unânime entre os gestores. Alguns recomendam esperar a euforia passar antes de comprar prefixados; outros veem espaço para travar taxas, mas lembram que a eleição não terminou. Há quem prefira títulos IPCA+ com prazo intermediário, argumentando que alongar só faz sentido com maior visibilidade sobre o ajuste fiscal. O risco de reversão é real e simétrico: analistas avaliam que os preços já embutem quatro anos de um governo específico, e uma virada no segundo turno — marcado para 25 de outubro — pode desfazer rapidamente boa parte do movimento. O desafio para o investidor é distinguir o que é ajuste fundamentado do que é, simplesmente, aposta eleitoral.

Na segunda-feira após o primeiro turno das eleições presidenciais, os títulos públicos atrelados à inflação com vencimento mais longo experimentaram uma valorização abrupta. O índice IMA-B 5+, que acompanha esses papéis, avançou 4,09% em um único dia — um ganho que equivale a mais de três meses inteiros de rendimento do CDI. Para quem mantinha fundos de renda fixa em carteira, foi um movimento que recompôs patrimônio rapidamente.

A lógica por trás dessa valorização é simples e bem conhecida entre investidores de renda fixa: quando os juros caem, os títulos já emitidos ganham valor porque continuam pagando taxas superiores aos novos papéis lançados no mercado. Quanto mais distante o vencimento, mais pronunciado é esse efeito. O resultado eleitoral — com Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula no primeiro turno — alimentou expectativas de um novo governo mais focado em cortes de gastos, o que pressionou os juros para baixo. Leonardo Mendes, analista da Manchester Investimentos, observa que boa parte do prêmio de risco cobrado pelos títulos longos está relacionada à preocupação com o crescimento da dívida pública, razão pela qual esses papéis reagiram com tanta força ao resultado.

Os prefixados foram particularmente sensíveis. O índice IRF-M 1+, que reúne títulos prefixados com mais de um ano até o vencimento, subiu 3,60% — a maior queda de taxa em um único dia desde 2008. Os títulos IPCA+ com prazo de até cinco anos renderam 0,99%, enquanto o Tesouro Selic, que acompanha a taxa básica de juros, praticamente não se moveu, com ganho de apenas 0,05%. Apesar do rendimento modesto, especialistas continuam recomendando o Tesouro Selic para quem prefere aguardar o desfecho eleitoral, já que com a Selic em 13,75%, ele oferece segurança sem grandes oscilações — o que Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, descreve como uma forma de "garantir que o investidor continue no jogo".

As debêntures incentivadas — títulos de dívida de empresas de infraestrutura isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas — também subiram, com o índice Anbima avançando 2,58% na segunda-feira. Porém, o acúmulo no ano ainda é modesto: 7,07%, bem abaixo dos 10,79% do Tesouro Selic. Parte dessa defasagem vem de setembro, quando o prêmio que as empresas pagam acima dos títulos públicos subiu em média cerca de 0,40 ponto percentual. Segundo a gestora Sparta, esse movimento não refletiu problemas de crédito nas empresas, mas sim uma mudança pequena no fluxo de compra e venda em um mercado com poucos compradores. Os fundos de debêntures atrelados ao CDI tiveram um dos piores meses da história, enquanto os corrigidos pelo IPCA terminaram setembro no positivo porque a queda dos juros compensou a alta do prêmio. Na segunda-feira, a diferença reapareceu: debêntures de infraestrutura corrigidas pelo IPCA subiram 2,58%, enquanto as atreladas ao CDI ganharam apenas 0,09%.

Mas a cautela é necessária. Ricardo Farias, gestor de renda fixa da Fator Administração de Recursos, recomenda que quem ainda não comprou prefixados espere a euforia passar para distinguir ajustes legítimos de preço de exageros. Gabriel Magno, sócio da AW Capital, vê espaço para travar taxas prefixadas nos níveis atuais, mas lembra que a eleição não terminou e o cenário pode mudar. Letícia Albuquerque, head de Soluções de Investimentos da Tivio Capital, prefere títulos IPCA+ com prazo intermediário, em torno de sete anos, argumentando que "alongar só faz sentido quando a gente tiver mais visibilidade de medidas críveis de ajuste fiscal". A gestora Sparta, por sua vez, observa que o aumento recente do prêmio começa a criar oportunidades, mas mantém cautela porque os resgates solicitados após o resultado ruim de setembro devem aparecer nos dados de outubro e novembro. "Um bom crédito não é necessariamente um bom investimento", afirma na carta mensal, defendendo que investidores avaliem quanto risco de oscilação de preço estão assumindo e quanto recebem por isso.

O risco de reversão é real nos dois sentidos. A mesma oscilação que valorizou os títulos longos na segunda-feira pode desvalorizá-los se o cenário mudar até o segundo turno, marcado para 25 de outubro. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, avalia que os preços já embutem quatro anos de governo Flávio Bolsonaro e que, se Lula vencer, "boa parte desse movimento vai por água abaixo". Para investidores, o desafio agora é separar o que é ajuste fundamentado do que é aposta eleitoral — e estar preparado para qualquer resultado.

Alongar só faz sentido quando a gente tiver mais visibilidade de medidas críveis de ajuste fiscal
— Letícia Albuquerque, head de Soluções de Investimentos da Tivio Capital
Se Lula vencer, boa parte desse movimento vai por água abaixo
— Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital
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