Testes nucleares na Coreia do Norte reativaram falhas sísmicas, aponta estudo

A crosta terrestre tem uma longa memória
Pesquisadora explica por que perturbações de curta duração podem ter consequências que duram décadas.
Mark

Por que essa descoberta importa? Temos terremotos o tempo todo.

Mimi

Porque esses terremotos não deveriam estar acontecendo. A região era praticamente estável por 2 mil anos. Agora, após uma explosão em 2017, há 1.399 tremores registrados. A atividade está aumentando, não diminuindo.

Luke

Mas quantos desses terremotos foram realmente causados pela explosão? O estudo detectou apenas tremores registrados por múltiplas estações. Pode haver muito mais que não foi contado.

Mark

Então a explosão reativou falhas antigas?

Mimi

Exatamente. Havia fraturas na crosta terrestre que estavam dormentes. A explosão as perturbou, e agora elas continuam se movimentando. Pode ser água infiltrando-se nas fraturas, aumentando a pressão.

Luke

Mas o estudo não menciona água subterrânea. Essa é uma teoria baseada em casos similares em Oklahoma e nos Países Baixos. Não é confirmado para a Coreia do Norte.

Mark

A Coreia do Norte poderia estar testando bombas novamente sem que soubéssemos?

Mimi

Kim disse que não há evidências de novos testes desde 2017. Mas a Coreia do Norte restaurou o local em 2022, segundo agências internacionais. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo lá.

Luke

E aqui está o problema real: sem acesso ao local ou aos dados sísmicos norte-coreanos, os cientistas estão trabalhando com informações incompletas. Eles sabem que algo mudou, mas não sabem exatamente o quê.

Mark

Isso torna o monitoramento de testes nucleares mais difícil?

Mimi

Muito mais. Se a atividade sísmica continua aumentando naturalmente, como você distingue um novo teste de um terremoto causado pela reativação de falhas? A linha fica borrada.

Luke

E isso é exatamente o que o estudo diz: complica a distinção entre eventos relacionados a explosões e eventos tectônicos. Mas ainda não sabemos se a Coreia do Norte está testando novamente ou não.

  • 1.399 terremotos registrados entre 2008 e 2025 na região do Monte Mantap
  • Teste nuclear de 2017 teve potência estimada em 160 quilotons e magnitude de 6,3
  • Sismicidade aumentou anos após o teste, contrariando padrões típicos pós-explosão
  • Coreia do Norte restaurou local de testes em março de 2022, segundo agências internacionais

Desde o teste nuclear de 2017 na Coreia do Norte, foram registrados 1.399 terremotos na região, com frequência e magnitude aumentando ao longo dos anos. Diferentemente de padrões típicos pós-explosão, a sismicidade continuou aumentando anos após o teste final, indicando reativação de falhas preexistentes na crosta terrestre.

Cientistas detectaram aumento prolongado na atividade sísmica em local de testes nucleares da Coreia do Norte após explosão de 2017, sugerindo que perturbações de curta duração podem ter consequências duradouras na crosta terrestre.

Cientistas descobriram que a Coreia do Norte pode ter desencadeado um processo sísmico que continua até hoje. Após a explosão nuclear mais potente do país em 2017 — estimada em 160 quilotons — a região ao redor do Monte Mantap, no norte do país, registrou 1.399 terremotos entre 2008 e 2025. O que surpreendeu os pesquisadores não foi apenas o número de tremores, mas o padrão: enquanto testes nucleares anteriores causavam pequenos terremotos que desapareciam em dias ou semanas, desta vez a atividade sísmica continuou aumentando anos depois da explosão.

A Coreia do Norte realizou seis testes nucleares subterrâneos entre 2006 e 2017 no mesmo local, situado no Monte Mantap, na província de Hamgyong do Norte. O teste final, em 2017, desencadeou um terremoto de magnitude 6,3 e acredita-se que tenha provocado o colapso de um túnel. Kwang-Hee Kim, professor da Universidade Nacional de Pusan e autor principal do estudo publicado na revista Science, liderou uma equipe que analisou dados de ondas sísmicas coletados entre 2008 e 2025. "Ficamos, basicamente, muito surpresos", disse Kim. "A tendência sísmica era muito clara e linear."

Antes do século 21, a região apresentava estabilidade tectônica notável. Registros históricos chineses e coreanos que abrangem mais de 2 mil anos documentam apenas um evento sísmico a cerca de 100 quilômetros de distância. A Península Coreana repousa sobre uma crosta continental estável, diferentemente do Japão, situado a leste. Mas a equipe identificou falhas "intraplaca" preexistentes — fraturas antigas na crosta terrestre localizadas longe das fronteiras ativas de placas tectônicas. A topografia irregular do Monte Mantap, uma montanha grande e íngreme, pode ter deixado algumas dessas falhas mais próximas do ponto de ruptura, com as explosões subterrâneas servindo como gatilho para sua reativação.

O padrão observado desafia o que se sabia sobre os efeitos sísmicos de testes nucleares. Desde a Guerra Fria, cientistas documentaram que explosões nucleares causam pequenos terremotos detectáveis, mas esses efeitos eram de curta duração e restritos à área ao redor do "marco zero". A maioria dos terremotos registrados no Monte Mantap teve magnitude entre 2 e 3, ocorrendo a pouca profundidade. Mas a sismicidade permaneceu baixa até 2017, quando aumentou acentuadamente após a sexta detonação. Sunyoung Park, professora assistente do Departamento de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago, observou que "na maioria dos casos anteriores, os terremotos desencadeados por testes nucleares subterrâneos diminuíram relativamente rápido após a perturbação inicial. Aqui, parece ocorrer o oposto: a sismicidade persistiu e até aumentou com o passar do tempo."

Park ofereceu uma explicação baseada em processos que ocorrem quando explosões fraturaram um grande volume de rocha, criando novas fissuras e caminhos para a circulação da água. À medida que a água se infiltra nessas fraturas, aumenta a pressão dos poros na rocha, afastando as superfícies das falhas e facilitando seu deslizamento. Como a água se desloca lentamente, a resposta sísmica pode sofrer um atraso de anos. Esse fenômeno não é inédito: nos Países Baixos, mais de 1.700 terremotos ocorreram desde o início da extração de gás na década de 1960, causando danos a propriedades. Em Oklahoma, a injeção de águas residuais relacionada à produção de petróleo e gás entre 2009 e 2015 provocou um aumento acentuado na atividade sísmica do estado.

A descoberta levanta questões sobre o monitoramento futuro de locais de testes nucleares. A distinção entre eventos relacionados a explosões e eventos tectônicos naturais tornou-se menos clara. Kim afirmou que os pesquisadores não tinham evidências de que novos testes tenham ocorrido desde 2017, mas a equipe não teve acesso ao local de Punggye-ri nem a dados sísmicos provenientes da Coreia do Norte. A Agência Internacional de Energia Atômica relatou que o país começou a restaurar túneis de teste em março de 2022, e um relatório de 2025 da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA afirmou que a Coreia do Norte havia restaurado seu local de testes nucleares. Pesquisas sul-coreanas documentaram possíveis sinais de exposição à radiação em desertores norte-coreanos que viviam perto do local, embora os cientistas afirmem que a causa permanece incerta. O que está claro é que a crosta terrestre, como observou Park, tem uma longa memória — e perturbações de curta duração podem ter consequências que persistem por anos ou até décadas.

Ficamos, basicamente, muito surpresos. A tendência sísmica era muito clara e linear.
— Kwang-Hee Kim, autor principal do estudo
A crosta terrestre tem uma longa memória
— Sunyoung Park, Universidade de Chicago
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