A tecnologia veio para ficar, e seria interessante para os EUA se integrarem
Em Washington, o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil tornou-se palco de um debate mais amplo sobre soberania financeira, inovação e cooperação entre nações. O USTR, que havia classificado o Pix como injusto em junho, abriu audiências públicas onde defensores brasileiros e americanos apresentaram argumentos técnicos e históricos que desafiam essa narrativa. Uma pergunta reveladora do Departamento do Tesouro — sobre como os EUA poderiam se beneficiar de uma integração com o Pix — sugeriu que, por trás das críticas oficiais, existe espaço para enxergar o sistema brasileiro não como adversário, mas como espelho de possibilidades. A decisão final, contudo, pertence ao campo político, não ao técnico.
- O USTR havia classificado o Pix como discriminatório em junho, colocando o sistema de pagamentos mais bem-sucedido do mundo em rota de colisão com a política comercial americana.
- Defensores brasileiros e americanos ocuparam o mesmo painel para contestar a narrativa de injustiça, apresentando dados que mostram o Google Pay como maior iniciador de transações Pix no Brasil.
- Uma proposta concreta emergiu das audiências: integrar o Pix ao Fed Now, os dois sistemas compartilham a mesma base tecnológica e padrão de mensageria, tornando a conexão tecnicamente viável.
- O próprio Departamento do Tesouro americano sinalizou abertura ao perguntar como os EUA poderiam se beneficiar dessa integração — uma ruptura de tom em relação às críticas anteriores.
- Os representantes americanos presentes atuavam como coletores de informação técnica, e a decisão final permanece nas mãos de tomadores de decisão políticos, cujo veredicto ainda é incerto.
Em Washington, o Escritório do Representante Comercial dos EUA abriu dois dias de audiências públicas sobre práticas comerciais brasileiras, com o Pix ocupando um dos sete painéis de debate. O sistema havia sido criticado pelo USTR em junho como injusto e discriminatório — mas foi justamente nesse painel que uma pergunta do Departamento do Tesouro abriu uma fresta inesperada: como os Estados Unidos poderiam se beneficiar de uma integração com o Pix?
Gustavo Pessoa, professor da FGV, e Vinícius Nunes Pinto, executivo da indústria de pagamentos, foram os dois defensores brasileiros presentes. Pessoa argumentou que o Brasil representa o maior sucesso mundial em adoção de pagamentos instantâneos, superando até a Índia em termos relativos, e que seria vantajoso para os EUA aprender com essa experiência. Pinto foi mais específico: propôs uma ponte entre o Pix e o Fed Now, ressaltando que os dois sistemas compartilham a mesma base tecnológica e padrão de mensageria.
A defesa não veio apenas de brasileiros. Melinda St Louis, da organização americana Public Citizen, caracterizou as críticas do USTR como politicamente motivadas, comparando o Pix a infraestruturas públicas como estradas e redes elétricas. Ela apontou ainda uma inconsistência reveladora: o Federal Reserve americano também exerce papel duplo, fiscalizando bancos enquanto opera o Fed Now — exatamente como o Banco Central faz com o Pix.
Pessoa apresentou dados que contradizem diretamente a narrativa de discriminação: a emissão de cartões de crédito no Brasil dobrou após o lançamento do Pix, e o Google Pay é hoje o maior iniciador de transações no sistema — fato que desmente qualquer alegação de favorecimento a empresas brasileiras.
O ambiente das audiências foi descrito como aberto e razoável, com tempo igual para todos os participantes. Mas Pessoa reconheceu que os representantes americanos presentes estavam realizando trabalho técnico a ser entregue a tomadores de decisão — e que a conclusão final seria provavelmente política. A pergunta do Tesouro sobre integração sugeriu que há, ao menos em alguns círculos, disposição para ver o Pix como oportunidade de cooperação. O veredicto, porém, permanece em aberto.
Em Washington, na segunda-feira, o Escritório do Representante Comercial dos EUA abriu dois dias de audiências públicas sobre práticas comerciais brasileiras, com particular atenção ao Pix. O sistema de pagamentos instantâneos do Brasil, que o USTR havia criticado em junho como injusto e discriminatório, ocupou apenas um dos sete painéis de debate — mas foi ali que uma pergunta do Departamento do Tesouro americano sinalizou algo potencialmente construtivo: como os Estados Unidos poderiam se beneficiar de uma integração com o Pix?
Gustavo Pessoa, professor da FGV que testemunhou pessoalmente em Washington, foi um dos dois defensores brasileiros no painel. Ao seu lado estava Vinícius Nunes Pinto, executivo com trajetória na indústria de pagamentos. Pessoa respondeu à pergunta do Tesouro argumentando que, embora o sistema indiano de pagamentos instantâneos seja quatro vezes maior em volume, o caso brasileiro representa o maior sucesso em termos de adoção popular e empresarial. Ele sugeriu que seria benéfico para os EUA, como maior potência financeira ocidental, aprender com a experiência brasileira e considerar uma integração.
Pinto foi além, propondo especificamente uma ponte entre o Pix e o Fed Now, o sistema de pagamentos instantâneos que o Federal Reserve está desenvolvendo. Os dois sistemas, segundo ele, compartilham a mesma base tecnológica e padrão de mensageria, tornando uma conexão não apenas possível mas potencialmente fortalecedora do comércio bilateral. A sugestão técnica contrastava com o tom das críticas americanas anteriores, abrindo uma porta que parecia fechada semanas antes.
Pessoa descreveu o ambiente das audiências como "razoável e aberto", apesar dos depoimentos serem limitados a cinco minutos cada. Havia divergências de opinião mesmo dentro dos painéis, e todos os participantes receberam tempo igual para falar. O professor deixou claro sua percepção de que os representantes do governo americano ali presentes estavam realizando um trabalho técnico que seria posteriormente entregue aos tomadores de decisão — uma etapa que ele reconheceu ser provavelmente política.
A defesa do Pix não se limitou aos brasileiros. Melinda St Louis, da organização americana Public Citizen, que defende direitos dos consumidores, também testemunhou em favor do sistema. Ela caracterizou as críticas do USTR como politicamente motivadas, argumentando que o Pix é uma infraestrutura pública digital análoga às estradas, redes elétricas e moeda que governos fornecem em todo o mundo. St Louis apontou ainda uma inconsistência nas alegações americanas: o próprio Federal Reserve americano exerce um papel duplo, fiscalizando bancos enquanto opera o Fed Now, assim como o Banco Central brasileiro faz com o Pix.
Pessoa reforçou em seu depoimento dados que contradizem a narrativa de discriminação. A emissão de cartões de crédito no Brasil dobrou após o lançamento do Pix, resultado da inclusão financeira que o sistema promoveu. Mais significativo ainda: o Google Pay, a carteira digital do Android, é o maior iniciador de transações Pix no Brasil — um fato que desmente qualquer alegação de que o sistema favorece empresas brasileiras em detrimento de concorrentes americanas.
Pinto manteve seu foco em argumentos técnicos durante a audiência, evitando entrar em questões tarifárias. Seu objetivo era deixar claro que o Pix representou um ponto de inflexão no sistema financeiro brasileiro, destrancando uma nova fase de inovação e inclusão. Pessoa, por sua vez, ressaltou que sua apresentação prévia ao USTR já havia documentado que o Pix não é discriminatório e que não há base factual para alegações de concorrência desleal.
O que emergiu das audiências foi uma tensão entre a posição técnica e a política. Os representantes americanos presentes pareciam estar coletando informações e argumentos que seriam consolidados em um relatório para os tomadores de decisão finais. A pergunta do Tesouro sobre integração sugeriu que, ao menos em alguns círculos do governo americano, havia abertura para ver o Pix não como ameaça, mas como oportunidade de cooperação. A decisão final, porém, permanecia em aberto — e claramente não seria determinada apenas por dados técnicos.
Notable Quotes
O ambiente era razoável e aberto, com opiniões divergentes mesmo dentro dos painéis, e a decisão final será provavelmente política— Gustavo Pessoa, professor da FGV
O Pix destravou uma nova fase no sistema financeiro brasileiro— Vinícius Nunes Pinto, executivo de pagamentos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Tesouro americano faria uma pergunta sobre integração com o Pix se o USTR havia acabado de criticar o sistema?
Porque governo não é monolítico. O USTR tem uma posição, mas o Tesouro pode estar vendo a questão de forma diferente — como oportunidade de cooperação financeira, não como ameaça comercial.
A sugestão de integrar o Pix com o Fed Now é tecnicamente viável?
Segundo os defensores brasileiros que testemunharam, sim. Os dois sistemas usam a mesma tecnologia e padrão de mensageria. Seria como construir uma ponte entre duas estradas que já falam a mesma linguagem.
Mas por que isso importaria para os EUA?
Porque facilitaria transações entre os dois países. Comércio bilateral mais fluido, menos intermediários, custos menores. É um benefício mútuo, não uma concessão unilateral.
A defesa do Pix foi convincente?
Pessoa disse que o ambiente era aberto e que todos foram ouvidos igualmente. Mas ele também reconheceu que a decisão final será política, não técnica. Os dados estão lá — a emissão de cartões dobrou, o Google Pay é o maior iniciador de Pix. Mas política é outra conversa.
O que muda agora?
Agora os representantes americanos consolidam o que ouviram e entregam para os tomadores de decisão. A pergunta do Tesouro sobre integração é um sinal de que pelo menos alguns setores do governo americano estão abertos a uma narrativa diferente da que o USTR apresentou em junho.