Brasil possui segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas responde por apenas 0,5% da produção global, permanecendo dependente de processamento externo. China controla 60% da extração, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs de terras raras, enquanto EUA investe US$ 400 milhões em capacidades estratégicas.
Terras raras: Brasil precisa transformar riqueza mineral em soberania tecnológica
Soberania se constrói acumulando conhecimento, não destruindo suas bases
Por que o Brasil não simplesmente aumenta a extração de terras raras? Se temos a segunda maior reserva, por que não exportar mais?
Porque extrair mais minério bruto, sozinho, não resolve nada. A China extrai 60% das terras raras do mundo, mas refina 91% e fabrica 94% dos ímãs. O valor real está na transformação, não na escavação. Se continuarmos vendendo minério bruto, apenas alimentamos a dependência.
Mas é justo questionar: quanto dessa transformação é tecnicamente viável fazer aqui? O Brasil tem infraestrutura de pesquisa para competir com a China nesse nível?
Tinha. O laboratório-fábrica de ímãs em Minas foi construído com parcerias com universidades federais e institutos de pesquisa. Funcionava. Depois foi vendido.
Vendido? Por quem?
Pelo governo Zema, em 2023, à Fiemg por 35 milhões de reais. Era um ativo público que o Estado havia investido em construir.
Continua operando, certo? Sob o CIT Senai?
Sim, continua. Mas o Estado perdeu a propriedade de uma infraestrutura estratégica. Quando a China e os EUA tratam essas capacidades como questão de segurança nacional, o Brasil vende.
E no nível federal? Há algo parecido?
A Ceitec. Empresa pública para fabricar semicondutores. Bolsonaro autorizou a dissolução em 2020, começou a liquidação em 2021. Lula reverteu em 2023, mas anos de pesquisa foram perdidos.
Qual é o argumento para vender? Falta de rentabilidade?
Nunca fica claro. O TCU suspendeu a dissolução da Ceitec apontando insuficiências na justificativa. É uma escolha política, não uma necessidade econômica.
E agora? O governo Lula está investindo?
Sim. 23 bilhões de reais em inteligência artificial até 2028, mais 5 bilhões em transformação de minerais estratégicos. Mas precisam chegar à execução real.
Esses números são previstos ou já estão sendo gastos?
Previstos. Por isso a tarefa é acompanhar até o resultado. E cobrar continuidade, independente de quem ganhe as próximas eleições.
Por que isso importa para quem não trabalha com tecnologia?
Porque afeta a possibilidade de encontrar trabalho qualificado no país, de ter empresas brasileiras desenvolvendo soluções para saúde pública, de negociar preços quando serviços essenciais dependem de tecnologia de poucos fornecedores. Soberania é isso.
Il Polso
- Brasil possui segunda maior reserva de terras raras, mas produz apenas 0,5% da oferta global
- China controla 60% da extração, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs de terras raras
- Laboratório-fábrica de ímãs em Minas foi vendido por R$ 35 milhões em dezembro de 2023
- Governo Lula prevê R$ 23 bilhões em IA e R$ 5 bilhões em transformação de minerais estratégicos
Brasil possui segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas responde por apenas 0,5% da produção global, permanecendo dependente de processamento externo. China controla 60% da extração, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs de terras raras, enquanto EUA investe US$ 400 milhões em capacidades estratégicas.
Coluna argumenta que o Brasil deve transformar suas reservas de terras raras em capacidade industrial e tecnológica própria, em vez de apenas exportar commodities, exigindo decisões políticas sobre soberania e desenvolvimento.
O Brasil senta sobre uma riqueza que poucos países possuem: a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Dezessete elementos químicos que, quando transformados em ímãs potentes, alimentam motores, geradores de energia e os discos rígidos que armazenam nossos dados. Mas essa abundância subterrânea não se traduz em poder. Em 2025, enquanto o planeta extraía aproximadamente 390 mil toneladas de terras raras, o Brasil respondeu por apenas 2 mil toneladas — menos de 0,5% da produção global. Temos a matéria-prima. Não temos a indústria.
A diferença entre extrair e transformar é onde reside o poder real. Quando a China refina 91% das terras raras do mundo e fabrica 94% dos ímãs permanentes de alto desempenho, ela não apenas controla um produto — controla o acesso à tecnologia que move a economia global. Os Estados Unidos compreenderam isso. Em julho de 2025, a MP Materials assinou um acordo com o Departamento de Defesa que previa 400 milhões de dólares em investimento direto, além de compromissos de compra mínima por dez anos. Dinheiro público, planejamento estratégico, proteção de uma capacidade considerada vital à segurança nacional. Enquanto isso, o Brasil segue vendendo minério bruto.
Minas Gerais encarna essa contradição. Rica em recursos, dependente de exportação de commodities, a região carrega o que economistas chamam de maldição dos recursos naturais — a especialização em extração que impede o avanço para atividades mais sofisticadas. Em 2016, a Codemig havia apostado em outra direção. Anunciou um laboratório-fábrica de ímãs de terras raras, desenvolvido em parceria com a Fundação Certi, a Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas. A ideia era simples e radical: agregar valor aos minerais dentro do Brasil, desenvolver tecnologia aqui, criar empregos qualificados aqui. As obras foram concluídas em 2021. Dois anos depois, em dezembro de 2023, o governo Zema vendeu o empreendimento à Fiemg por 35 milhões de reais. A infraestrutura continuou operando sob o CIT Senai, mas o Estado abriu mão de ser proprietário de um instrumento de desenvolvimento tecnológico que havia construído com recursos públicos.
Esse desmonte não é isolado. No plano federal, o governo Bolsonaro autorizou a dissolução da Ceitec em dezembro de 2020 — a empresa pública criada para desenvolver e fabricar semicondutores no Brasil. A liquidação começou em fevereiro de 2021, exatamente quando as grandes potências tratavam chips como questão estratégica. O Tribunal de Contas da União suspendeu o processo, apontando insuficiências na justificativa, e o governo Lula autorizou a reversão em 2023. Mas o dano estava feito: anos de pesquisa, engenharia e produção interrompidos, capacidades destruídas. Nenhum país chega à fronteira tecnológica demolindo suas bases de conhecimento.
A ligação com inteligência artificial passa por essa infraestrutura. Treinar e usar sistemas de IA exige centros de dados, equipamentos de armazenamento, fornecimento de energia confiável. Terras raras integram esse conjunto ao lado de cobre e silício. Uma jazida não fabrica um processador, mas pode ser o ponto de partida de uma política industrial capaz de ampliar a participação brasileira na economia tecnológica. Isso exige uma decisão política clara sobre o país que estamos dispostos a construir.
O governo Lula apresenta iniciativas que merecem ser defendidas. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê cerca de 23 bilhões de reais entre 2024 e 2028, reunindo crédito, recursos públicos e contrapartidas privadas. Em 2025, BNDES e Finep lançaram uma chamada de 5 bilhões de reais para projetos de transformação de minerais estratégicos. São valores previstos que precisam ser acompanhados até a execução real. A tarefa agora é lutar para que essas políticas tenham continuidade, recursos e cobrança pública.
Mas essa luta não é apenas sobre neodímio ou ímãs. Ela diz respeito à possibilidade de uma jovem estudar numa universidade pública e encontrar trabalho qualificado no país. À capacidade de uma empresa brasileira desenvolver soluções para o SUS. Ao poder de negociar preços e condições quando serviços essenciais dependem de tecnologias fornecidas por poucas empresas. Soberania ganha sentido quando chega à vida das pessoas.
Também chega à vida de quem mora perto das minas. A extração e o processamento exigem controle de resíduos e proteção da água, com riscos que variam conforme a jazida e a tecnologia. O povo mineiro já conhece esse processo — já recebeu os danos enquanto outros colheram os benefícios. Defender as terras raras exige defender as comunidades afetadas, a fiscalização ambiental e a pesquisa em reciclagem. Não há projeto de desenvolvimento legítimo que entregue a essas populações os riscos e reserve a outros os ganhos. A cooperação internacional é bem-vinda quando ajuda a construir capacidades duradouras, com processamento no Brasil, formação de profissionais e participação de pesquisadores e empresas nacionais. Mas a urgência de atrair capital não pode apagar a pergunta fundamental: o que ficará para a sociedade brasileira?
Citazioni salienti
Quando a disputa internacional exige investimento paciente e capacidade de decisão, retirar do patrimônio estatal um instrumento de desenvolvimento tecnológico é uma escolha política— Marina Marinho, colunista
Nenhum país chega à fronteira tecnológica destruindo suas bases de pesquisa, engenharia e produção— Marina Marinho, colunista