Terceira via se fragmenta: Zema anuncia oposição ao PT enquanto Caiado e Cury evitam posicionamento

Não venci, mas caí de pé com orgulho, honra e dignidade
Ronaldo Caiado reflete sobre sua eliminação da disputa presidencial e sua decisão de aguardar orientação do PSD.
Mark

Como é possível que quatro candidatos que juntos receberam mais de 8 milhões de votos simplesmente desapareçam da conversa política?

Mimi

Eles não desaparecem, mas se fragmentam. Zema vai para um lado, Caiado fica em suspenso esperando seu partido decidir, Cury se recusa a escolher. Cada um está respondendo de forma diferente ao mesmo problema: a terceira via não conseguiu se consolidar como alternativa real.

Luke

Mas espera — Zema com 0,27% dos votos está celebrando porque o Novo atingiu a cláusula de barreira. Isso é uma vitória real para o partido, não para sua candidatura pessoal. Precisamos separar essas coisas.

Mark

Então Zema está sendo honesto quando diz que está satisfeito?

Mimi

Ele está satisfeito com o resultado do partido, sim. Mas também está fazendo uma escolha política clara: vai para o lado que ele vê como vencedor — a direita. É uma decisão estratégica.

Luke

E Caiado? Ele diz que vai conversar com Kassab, mas o PSD é um partido grande, com interesses diversos. Não sabemos ainda qual será a orientação.

Mark

Cury é interessante porque ele recusa completamente escolher. Por quê?

Mimi

Cury construiu sua candidatura como alternativa à polarização. Se ele escolher um lado agora, desmente toda a sua campanha. Então ele se silencia. É uma forma de manter a coerência.

Luke

Mas também é uma forma de não ter responsabilidade. Ele pode dizer depois que suas ideias estão disponíveis para quem for sábio — é uma saída elegante, mas vaga.

Mark

E Renan Santos?

Mimi

Renan é diferente. Ele está claramente decepcionado e libera sua militância para apoiar bolsonaristas. É uma rendição, na verdade.

Luke

Ele diz que "não existe direita no Brasil para além de Bolsonaro". Isso é uma análise política, não apenas uma capitulação. Ele está reconhecendo que a direita se consolidou em torno de um nome.

Mark

Então a terceira via não era tão sólida quanto parecia?

Mimi

Não era. Ela existia enquanto havia esperança de que um terceiro candidato pudesse vencer. Quando isso não aconteceu, cada um voltou para suas raízes políticas ou para suas convicções pessoais.

  • Romeu Zema (Novo) recebeu 0,27% dos votos e anuncia oposição ao PT no segundo turno
  • Augusto Cury (Avante) terminou em terceiro com 3.429.197 votos (2,89%) e descarta apoio a qualquer candidato
  • Renan Santos (Missão) ficou em quarto com 2.656.451 votos (2,24%) e libera militância para bolsonaristas
  • Ronaldo Caiado (PSD) aguarda conversa com Gilberto Kassab antes de anunciar posicionamento

Romeu Zema (Novo) declara posicionamento contra o PT no segundo turno, celebrando avanço da direita nas eleições presidenciais. Ronaldo Caiado (PSD) aguarda conversa com liderança partidária antes de anunciar apoio; Augusto Cury e Renan Santos mantêm neutralidade.

Após eliminação do segundo turno presidencial, candidatos da terceira via adotam posições distintas: Zema anuncia oposição ao PT, Caiado aguarda decisão do PSD, enquanto Cury e Renan Santos descartam apoio a qualquer candidato.

A terceira via brasileira, que chegou a representar uma alternativa à polarização entre petistas e bolsonaristas, se desintegrou na noite de domingo após a confirmação de que nenhum de seus candidatos avançaria ao segundo turno. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro se preparavam para a disputa final, os quatro principais nomes que tentaram oferecer um caminho diferente se viram obrigados a escolher entre os dois polos que diziam rejeitar — ou simplesmente se recusar a escolher.

Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato do Novo, foi o mais direto. Com 0,27% dos votos e 99,99% das urnas apuradas, ele saiu da apuração em Belo Horizonte celebrando o que chamou de avanço da direita, muito maior do que as pesquisas haviam indicado. Sem citar Flávio Bolsonaro nominalmente, Zema anunciou que se posicionaria contra o PT no segundo turno, onde quer que a legenda estivesse em disputa. Sua satisfação extrapolava o próprio desempenho: o Novo havia atingido os requisitos da cláusula de barreira com a eleição de três senadores e oito ou mais deputados federais. "Missão concluída. Partido Novo atingindo cláusula de barreira e direita fortalecida", escreveu nas redes sociais. O dia de votação de Zema, porém, foi marcado por uma controvérsia: ele entrou na cabine com um celular, fato que o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais informou que investigaria. Questionado, o ex-governador disse ter levado o aparelho por hábito, negou utilizá-lo e afirmou que suas anotações estavam em papel.

Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, adotou uma postura mais cautelosa. Antes de anunciar qualquer apoio, disse que se reuniria com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, para discutir qual candidato a legenda apoiaria no segundo turno. Caiado avaliou sua campanha com uma frase que resumia sua frustração contida: "Não venci, mas caí de pé. Caí com orgulho, com honra, com dignidade". Ele classificou a eleição como atípica e reclamou da falta de debates, argumentando que temas como segurança pública, economia e a relação entre os Poderes ficaram ofuscados por outras questões. Mencionou também o endividamento da população e as altas taxas de juros. Caiado afirmou que continuaria na vida pública, apoiando o governador eleito Daniel Vilela e sua filha Gracinha, eleita para o Senado, mas não indicou planos para disputar outro cargo.

Augusto Cury, que terminou em terceiro lugar com 3.429.197 votos (2,89% do total), descartou completamente declarar apoio a qualquer um dos candidatos do segundo turno. O escritor e médico, que havia alcançado 10% nas intenções de voto em pesquisa divulgada no início de setembro, disse que se silenciaria em relação àqueles que avançaram. Sua frustração, porém, não era com o percentual obtido, mas com o alcance de suas propostas. "A dor que eu sinto não é de ter tido 3%. Para quem é, talvez, novo na política, isso seria uma vitória. O que me entristece é que nós temos tantos projetos e que poderemos mudar para sempre esse país, mas eles estão disponíveis para aqueles que forem sábios", afirmou. Cury reafirmou que não pretende fazer carreira política e defendeu a continuidade de suas propostas — fim da reeleição presidencial, mandatos fixos de oito anos para ministros do Supremo Tribunal Federal e adoção do semipresidencialismo. Também atribuiu parte de seu desempenho à dificuldade de alcançar eleitores pelas redes sociais e pediu uma auditoria internacional, mas ressaltou que respeita completamente as urnas eletrônicas.

Renan Santos, candidato do Missão e ligado ao Movimento Brasil Livre, foi ainda mais crítico de seu próprio resultado. Com 2.656.451 votos (2,24% do total), ele terminou em quarto lugar e afirmou que o resultado foi pior do que esperava. O partido não passaria da cláusula de barreira e elegeria apenas um deputado estadual e um federal no mesmo estado. "O resultado é ruim. Não vamos passar de cláusula de barreira, vamos ter apenas um deputado estadual e um deputado federal no mesmo estado. O resultado não é bom, não é bom para o projeto, não é bom para aquilo que a gente desenhava", declarou. Renan também observou que Flávio Bolsonaro teve melhor desempenho que seu pai, apesar de suas críticas anteriores ao senador, e avaliou que o PL construiria uma base "colossal" no país. Diferentemente de Cury, Renan liberou sua militância para apoiar candidatos, dizendo que quem quisesse sair do grupo para se tornar bolsonarista poderia fazê-lo.

A fragmentação da terceira via reflete não apenas a derrota eleitoral de seus candidatos, mas também a impossibilidade de manter uma posição equidistante em um segundo turno que recoloca a polarização no centro da disputa. Enquanto Zema escolheu um lado explicitamente, Caiado aguarda orientação partidária, e Cury e Renan se recusam a escolher — cada um deles sinalizando uma visão diferente sobre o que fazer quando a alternativa ao sistema bipolar desaparece.

Onde tivermos PT no segundo turno, estarei contra o PT
— Romeu Zema
A dor que eu sinto não é de ter tido 3%. O que me entristece é que nós temos tantos projetos e que poderemos mudar para sempre esse país, mas eles estão disponíveis para aqueles que forem sábios
— Augusto Cury
O resultado é ruim. Não vamos passar de cláusula de barreira, vamos ter apenas um deputado estadual e um deputado federal no mesmo estado
— Renan Santos
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur O GLOBO ↗
Nous contacter FAQ