Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com grandes chances de vitória após campanha pobre em ideias mas rica em ataques à reputação. Eleição reflete rejeição ao lulopetismo e esgotamento do PT, além de crise institucional do STF que afetou a percepção dos eleitores.
Tempos complexos pela frente: democracia em risco após vitória bolsonarista
Autoridades com inclinações autoritárias chegam ao poder pela porta da democracia
Como é possível que 82% dos eleitores digam estar preocupados com corrupção e nenhum dos dois candidatos do segundo turno apresente um plano para combatê-la?
É um vazio que fala muito sobre a campanha. Parece que o tema foi considerado menos importante que os ataques pessoais e a mobilização emocional.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O artigo diz que nenhum dos dois candidatos "disse" quais planos tem — isso é baseado em cobertura de campanha ou em uma análise sistemática de propostas? Há diferença entre não ter plano e não ter comunicado o plano.
Justo. Mas o silêncio em si é revelador. Se houvesse propostas, estariam sendo debatidas.
E quanto ao fator STF? A imagem dos ministros rindo realmente mudou votos?
O artigo sugere que os eleitores fizeram essa conexão e que isso apareceu especialmente nas votações para o Senado. Mas é uma interpretação do comportamento eleitoral.
Exatamente. Correlação não é causalidade. Sabemos que houve uma crise no STF, sabemos que Lula é associado ao tribunal, sabemos que houve voto à direita. Mas atribuir a mudança de voto especificamente àquela imagem é uma inferência, não um fato medido.
Então o que realmente sabemos sobre por que as pessoas votaram assim?
Sabemos que houve rejeição ao lulopetismo, que o PT não se adaptou às redes sociais, que a ultradireita comunicou melhor. Esses são padrões observáveis.
E sabemos que 33,4 milhões de pessoas não votaram. Isso também importa — talvez mais do que qualquer outra coisa.
Der Puls
- Flávio Bolsonaro avançou ao segundo turno com margem expressiva e é favorito para vencer em 20 dias
- 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas — recorde de abstenção
- 82,7% dos entrevistados em pesquisa do Inac/Datafolha se declararam muito ou extremamente preocupados com corrupção
- Nenhum dos dois candidatos do segundo turno apresentou planos concretos para combater corrupção
- Crise do STF coincidiu com campanha e afetou percepção dos eleitores, especialmente nas votações para o Senado
Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com grandes chances de vitória após campanha pobre em ideias mas rica em ataques à reputação. Eleição reflete rejeição ao lulopetismo e esgotamento do PT, além de crise institucional do STF que afetou a percepção dos eleitores.
Flávio Bolsonaro (PL) vence o primeiro turno eleitoral com margem expressiva e se posiciona como favorito para o segundo turno em 20 dias, em campanha marcada por ataques pessoais e ausência de propostas substantivas.
O Brasil saiu das urnas no primeiro turno com um resultado que surpreendeu poucos e assustou muitos. Flávio Bolsonaro, número dois do clã bolsonarista, avançou para o segundo turno com margem expressiva e posição de favorito para vencer em vinte dias. A campanha que o levou até aqui foi notável principalmente pelo que não ofereceu: ideias estruturadas, propostas de governo, soluções para os problemas que afligem o país. O que sobrou foi abundante em ataques pessoais e acusações diretas aos adversários. Tudo isso aconteceu enquanto 33,4 milhões de eleitores simplesmente não compareceram às urnas — um recorde de abstenção que fala tanto sobre o resultado quanto qualquer votação.
Mas o que significa ser bolsonarista, filosoficamente falando? A pergunta não é retórica. Observadores tentam definir o movimento além da simples lealdade ao patriarca ex-presidente ou seus herdeiros políticos. Alguns adeptos rejeitam a vacinação. Outros repetem que a Terra é plana. Há quem defenda que as Forças Armadas funcionem como um quarto poder. Muitos negam que tenha havido golpe militar em 1964 ou que o coronel Brilhante Ustra tenha praticado tortura. Manifestantes nas ruas pedem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não há um catálogo coeso de ideias — há, sim, um sentimento de ruptura com as instituições existentes.
O timing é quase simbólico demais para ser acidental. O dia seguinte às eleições do primeiro turno coincidiu com o aniversário da Constituição de 1988, o mesmo documento que poderia vir a ser esvaziado nos próximos anos se o padrão se consolidar. Cientistas políticos como Steven Ziblatt e Daniel Levitsky descrevem um mecanismo bem conhecido: autoridades com inclinações autoritárias chegam ao poder pela porta da democracia eleitoral. Uma vez dentro, iniciam um processo gradual e frequentemente irreversível de corrosão das instituições democráticas. Daron Acemoglu, laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2024, reforça o aviso: sem instituições fortes, não há desenvolvimento possível. O livro "Como as Democracias Morrem", dos professores de Harvard, documenta esse padrão em múltiplos países — Estados Unidos sob Donald Trump, Hungria sob Viktor Orbán, Turquia sob Recep Erdogan, Venezuela sob Hugo Chávez, Brasil sob Jair Bolsonaro. Agora o país pode estar à beira de viver essa experiência novamente, desta vez com Flávio Bolsonaro como figura central.
Há uma contradição gritante no que os eleitores dizem e no que os candidatos oferecem. Uma pesquisa do Instituto Não Aceito Corrupção em parceria com o Datafolha mostrou que 82,7% dos entrevistados se declaravam muito ou extremamente preocupados com corrupção. Nenhum dos dois candidatos que avançaram para o segundo turno apresentou planos concretos para combatê-la ou preveni-la. O tema simplesmente desapareceu da campanha, como se não existisse. O mesmo silêncio envolve as emendas parlamentares, cujos valores explodiram nos últimos anos. Enquanto o país se aproxima de um colapso fiscal, ninguém fala sobre isso.
O voto à direita não necessariamente reflete uma mudança profunda na visão de mundo dos eleitores. Pode ser, em grande medida, uma reação negativa — rejeição ao lulopetismo e aos sinais claros de esgotamento do Partido dos Trabalhadores. Lula subestimou seu adversário com arrogância. Seu partido não conseguiu se adaptar à dinâmica das redes sociais e aos novos tempos. A ultradireita, por outro lado, soube dizer exatamente o que os eleitores queriam ouvir.
Houve ainda o fator institucional. O Supremo Tribunal Federal atravessa sua maior crise de história. Após uma sessão descrita como deplorável, um fotojornalista capturou ministros rindo abertamente, mesmo diante de acontecimentos graves. Os eleitores interpretaram aquilo como zombaria deles próprios e fizeram a conexão entre Lula e a crise institucional. A resposta veio nas urnas, especialmente nas escolhas para o Senado, criando as condições políticas para possíveis impeachments de ministros.
O que vem pela frente é incerto. Tempos complexos aguardam o cidadão comum, independentemente de quem vença em 25 de outubro. O país precisa se preparar.
Bemerkenswerte Zitate
Sem instituições fortes não existe evolução nem desenvolvimento possível— Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia em 2024
Cientistas políticos descrevem que autoridades com inclinações autoritárias acessam o poder pela via das eleições democráticas e, uma vez instalados, iniciam um processo progressivo e irreparável de deterioração das instituições democráticas— Ziblatt e Levitsky, professores de Harvard