Relógio inteligente com IA detecta ansiedade e estresse em tempo real

O corpo não mente, mas a mente nem sempre sabe o que o corpo está sentindo
A tecnologia detecta ansiedade através de sinais fisiológicos antes que a consciência do usuário perceba.

Numa era em que a mente humana frequentemente se perde antes de perceber que está perdida, pesquisadores da Unicamp desenvolveram um relógio inteligente capaz de sentir a ansiedade e o estresse antes mesmo que o próprio usuário os reconheça. O projeto Viva Bem, financiado pela Fapesp e pela Samsung, combina eletrocardiograma e acelerometria para construir uma 'assinatura fisiológica' personalizada, treinando algoritmos com precisão superior a 80%. Mais do que uma inovação tecnológica, trata-se de uma proposta filosófica: devolver ao ser humano a consciência de si mesmo, antes que o silêncio do corpo se torne um grito.

  • A ansiedade e o estresse afetam milhões silenciosamente, e a medicina tradicional frequentemente só age quando os sintomas já se tornaram insuportáveis.
  • O smartwatch da Unicamp rompe esse ciclo ao monitorar continuamente sinais cardíacos e de movimento, emitindo alertas proativos antes que o usuário perceba o próprio estado emocional.
  • Protocolos clínicos rigorosos — como forçar participantes a resolver cálculos complexos em 30 segundos sob contagem regressiva — garantem que os algoritmos aprendam padrões reais de pressão cotidiana, não simulações artificiais.
  • A tecnologia não diagnostica nem substitui profissionais de saúde; funciona como uma sentinela que recomenda buscar ajuda, preservando a autonomia e a decisão do usuário.
  • Após apresentação na FAPESP Week Londres e avaliação em curso pela Samsung, o próximo passo decisivo é a aprovação da Anvisa para expandir os testes ao público real.

Um relógio que sente o corpo antes que a mente perceba o que acontece com ela. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas tornaram isso realidade com o projeto Viva Bem, um smartwatch capaz de detectar ansiedade e estresse em tempo real com precisão superior a 80%. Financiado pela Fapesp e pela Samsung, o projeto representa uma virada na relação entre tecnologia vestível e saúde mental.

O dispositivo coleta dois fluxos contínuos de dados: o eletrocardiograma, que registra a atividade elétrica do coração, e a acelerometria, que mapeia os movimentos do braço ao longo do dia. Juntos, esses sinais formam uma 'assinatura de dados' única para cada pessoa — um padrão fisiológico que a inteligência artificial aprende a reconhecer como resposta ao estresse. Para treinar os algoritmos, a equipe liderada pelo professor Anderson Rocha criou cenários que simulam a pressão real da vida cotidiana, como pedir a participantes que resolvam multiplicações complexas em apenas 30 segundos enquanto observam uma contagem regressiva no próprio pulso.

Rocha apresentou os resultados na FAPESP Week Londres, em junho, onde a comunidade científica internacional acompanhou o avanço. Uma técnica inicial já foi publicada, e uma versão aprimorada está em avaliação pela Samsung. O progresso é deliberado: nada é lançado antes de estar pronto.

A tecnologia não faz diagnósticos nem substitui médicos ou psicólogos. Age como uma sentinela silenciosa — ao detectar episódios ansiosos recorrentes, emite um alerta e recomenda a busca por um especialista. Os dados pertencem ao usuário, e a decisão final também. O escopo do Viva Bem vai além da ansiedade: o mesmo sistema monitora hipertensão, diabetes, Parkinson e risco de quedas em idosos, com o objetivo de identificar os primeiros sinais de diversas condições antes que se agravem.

Antes de chegar ao público, a tecnologia precisará da aprovação da Anvisa para expandir os testes a usuários reais — etapa essencial para garantir segurança e confiabilidade fora do ambiente controlado do laboratório. Para Rocha, que também lidera o projeto Horus, voltado à detecção de deepfakes e desinformação, o fio condutor é o mesmo: 'A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar.' Não se trata apenas de tecnologia mais inteligente, mas de tecnologia que verdadeiramente serve à humanidade.

Um relógio inteligente que sente o seu corpo antes de você sentir a sua mente. Essa não é mais ficção científica. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram um smartwatch capaz de detectar ansiedade e estresse em tempo real, com precisão superior a 80%, analisando continuamente os sinais que seu coração e seus movimentos enviam. O projeto, batizado Viva Bem, é financiado pela Fapesp e pela Samsung, e representa um salto significativo na forma como a tecnologia vestível pode servir à saúde mental.

O sistema funciona de forma elegantemente simples: o relógio coleta dois tipos de dados constantemente. O primeiro é o eletrocardiograma, que registra a atividade elétrica do coração. O segundo é a acelerometria, que mapeia cada movimento do seu braço ao longo do dia. Quando combinados, esses sinais criam o que os cientistas chamam de "assinatura de dados" — um padrão único e pessoal que a inteligência artificial foi treinada para reconhecer. Não é um padrão genérico. É o seu padrão, a forma particular como seu corpo responde ao mundo.

Para chegar a essa precisão, a equipe de pesquisa liderada por Anderson Rocha, professor da Unicamp e coordenador do centro, desenvolveu protocolos clínicos rigorosos. Eles não simplesmente pediram às pessoas para ficarem ansiosas e observaram o que acontecia. Em vez disso, criaram cenários controlados que simulam a pressão real da vida cotidiana. Em um dos testes, participantes precisam multiplicar 309 por 17 em apenas 30 segundos enquanto observam uma contagem regressiva no próprio relógio. É uma situação simples, mas eficaz: o corpo responde. A frequência cardíaca sobe. Os movimentos mudam. E o algoritmo aprende a reconhecer esses padrões fisiológicos associados à ansiedade.

Rocha apresentou esses resultados durante a FAPESP Week Londres, entre 2 e 4 de junho, reunindo a comunidade científica internacional. A equipe já publicou uma técnica inicial e agora trabalha em uma versão aprimorada, atualmente em avaliação pela Samsung, que fornece o hardware dos dispositivos. O progresso é constante, mas deliberado — não há pressa em lançar algo que não esteja pronto.

É importante ser claro sobre o que essa tecnologia não faz: ela não substitui médicos ou psicólogos. Não faz diagnósticos. Funciona como uma sentinela silenciosa. Se o relógio detecta episódios ansiosos recorrentes, emite um alerta e recomenda que você procure um especialista. A decisão permanece sua. Os dados são seus. A tecnologia apenas oferece informação, e você decide o que fazer com ela. Essa distinção — entre monitoramento proativo e diagnóstico — é fundamental para entender o projeto.

O escopo do Viva Bem vai além da ansiedade. O mesmo sistema monitora hipertensão, diabetes, Parkinson e o risco de quedas em idosos. A inteligência artificial observa continuamente, fornecendo informações que permitem ao usuário tomar decisões informadas sobre sua própria saúde. O objetivo final é identificar os primeiros sintomas de diversas condições, contribuindo para uma melhor qualidade de vida antes que os problemas se agravem.

Antes que a tecnologia chegue ao público, ela precisa passar por aprovação regulatória. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) terá que autorizar a expansão dos testes para usuários reais. Esse passo é essencial — não apenas para validar a eficácia, mas para garantir que a ferramenta seja segura e confiável quando colocada nas mãos de pessoas fora do ambiente controlado do laboratório.

Rocha também apresentou outro projeto do centro, chamado Horus, focado em "realidades sintéticas" — o universo de conteúdos gerados por inteligência artificial. O laboratório desenvolveu ferramentas para detectar deepfakes, ataques por SMS e WhatsApp, falsificações em publicações científicas e rastrear conteúdos ilícitos. Saúde e combate à desinformação convergem em um valor central: a confiança. "A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar", disse Rocha. Não é apenas sobre tecnologia mais inteligente. É sobre tecnologia que serve verdadeiramente à humanidade.

A ideia não é fazer o diagnóstico, mas ser uma ferramenta de alerta
— Anderson Rocha, coordenador do Centro de Pesquisa Aplicada Viva Bem
A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar
— Anderson Rocha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um relógio precisa saber que você está ansioso antes de você saber?

Model

Porque a ansiedade não começa na sua mente consciente. Começa no seu corpo — no coração acelerado, nos movimentos que mudam. Se você consegue detectar isso cedo, pode intervir antes que o problema se agrave.

Inventor

Mas como você treina um algoritmo para reconhecer algo tão pessoal e variável quanto a ansiedade?

Model

Criando situações controladas onde você sabe exatamente quando a pessoa está ansiosa. Pedir para multiplicar números complexos em 30 segundos é simples, mas funciona. O corpo não mente.

Inventor

E se o relógio disser que você está ansioso quando você não está? Ou vice-versa?

Model

Por isso a precisão acima de 80% é importante, mas também por isso isso não é um diagnóstico. É um alerta. Se o padrão se repete, você procura um médico. A tecnologia não toma decisões por você.

Inventor

Qual é a diferença entre isso e qualquer outro smartwatch que monitora frequência cardíaca?

Model

A diferença é que isso não apenas mede um número isolado. Combina ECG com acelerometria para criar sua assinatura pessoal. Aprende como você especificamente responde ao estresse, não como as pessoas em geral respondem.

Inventor

Quando isso vai estar disponível para as pessoas comuns?

Model

Primeiro precisa passar pela Anvisa. A Samsung está avaliando a versão atual. Não há data definida, mas o projeto está em fase de maturação. Quando chegar, será porque foi testado rigorosamente.

Inventor

E os dados? Quem tem acesso ao que o relógio descobre sobre você?

Model

Essa é a questão que o projeto ainda está respondendo. A intenção é que você tenha controle sobre seus dados, mas os detalhes de privacidade e segurança ainda estão sendo definidos.

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