Taxa do lixo enfrenta resistência em municípios brasileiros, com vereadores derrubando cobrança

A eliminação da taxa afeta aproximadamente 200 mil moradores em Cuiabá e potencialmente milhões em outras cidades, impactando a sustentabilidade dos serviços de coleta e tratamento de resíduos.
A taxa não melhorava o serviço, então decidimos eliminar
Argumento de Fortaleza para revogar a cobrança que havia sido implantada anos antes.
Mark

Por que tantos municípios estão derrubando essa taxa agora, se ela foi estabelecida por lei federal em 2020?

Mimi

Porque a lei federal não conseguiu vencer a resistência política local. Vereadores enfrentam pressão de eleitores que não querem pagar mais. E muitos prefeitos descobriram que podiam financiar o lixo de outras formas — parcerias, fundos municipais, transferências estaduais.

Mark

Mas a agência federal disse que isso impede acesso a recursos federais. Não é um problema sério?

Mimi

É, mas parece que alguns municípios calcularam que conseguem se virar sem esses recursos. São Paulo nunca cobrou a taxa e funciona. Cuiabá beneficiou duzentos mil moradores. A questão é se essa sustentabilidade é real ou ilusória.

Mark

E quando a Justiça entra, como em Caraguatatuba, o que acontece?

Mimi

O juiz pediu explicações. Ele disse que não consegue verificar agora se as fontes alternativas realmente funcionam. Então deu trinta dias para a Câmara provar que consegue manter o serviço. Se não conseguir, a taxa volta.

Mark

Qual é o risco real aqui para as cidades?

Mimi

Que o lixo não seja coletado. Ou que a coleta piore. Ou que o dinheiro acabe e ninguém saiba como pagar. A taxa era uma forma de garantir receita previsível. Sem ela, tudo depende de acordos que podem não durar.

Mark

Por que Fortaleza conseguiu eliminar a taxa sem tanta briga?

Mimi

Porque o novo prefeito fez isso logo no primeiro dia, como promessa de campanha. Já tinha uma parceria público-privada do estado para sustentar o serviço. Foi mais uma decisão política do que uma solução técnica.

  • Mais de 20 municípios revogaram ou tentaram eliminar a taxa entre 2023 e 2026
  • Quatro capitais estão envolvidas: Fortaleza, Goiânia, Cuiabá e Campo Grande
  • Caraguatatuba tem 30 dias para explicar como financiará coleta sem a taxa
  • Cuiabá beneficiou aproximadamente 200 mil moradores com a revogação

Vereadores em cidades como Fortaleza, Goiânia, Cuiabá e Campo Grande aprovaram leis para derrubar a cobrança de taxa de lixo, citando falta de melhoria nos serviços. A ANA alerta que a não implantação da taxa impede acesso a recursos federais de saneamento e constitui renúncia de receita que precisa ser justificada ou compensada.

Mais de 20 municípios revogaram ou tentaram eliminar a taxa de resíduos sólidos entre 2023 e 2026, desafiando o Marco Legal de Saneamento de 2020. Caraguatatuba é o último caso, com a Prefeitura contestando a decisão na Justiça.

Há mais de vinte municípios brasileiros que decidiram, entre 2023 e 2026, revogar, suspender ou tentar eliminar a cobrança pela coleta e tratamento de lixo. A decisão desafia uma lei federal de 2020 que tornou essa taxa um instrumento para financiar o saneamento urbano. O conflito revela uma tensão profunda entre o que a lei federal exige e o que as prefeituras e câmaras municipais acreditam que seus eleitores estão dispostos a pagar.

Caraguatatuba, no litoral de São Paulo, é o caso mais recente. Em junho deste ano, a Câmara de Vereadores aprovou a revogação da Taxa de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos, ignorando o veto do prefeito Mateus Silva. A lei aprovada prevê que o serviço seja financiado por outras fontes: acordos com a Sabesp, multas ambientais, fundos municipais, transferências de estados e da União, e parcerias público-privadas. O texto também determina a devolução do dinheiro já pago pelos moradores. Mas a Prefeitura contestou a decisão na Justiça, argumentando que a lei é inconstitucional por não apresentar estimativa de impacto financeiro e violar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Um desembargador negou o pedido de suspensão em julho, mas deu trinta dias para que a Câmara explicasse como garantiria a sustentabilidade dos serviços.

Fortaleza eliminou a taxa no início de 2025, logo após a posse do prefeito Evandro Leitão. A cobrança havia sido implantada anos antes com o objetivo de financiar a coleta e o tratamento de resíduos. A Prefeitura argumentou que a taxa não resultava em melhoria visível do serviço e decidiu extingui-la como primeiro ato da nova gestão. A cidade conta agora com uma parceria público-privada assinada pelo governo estadual e investimentos municipais para manter a infraestrutura de saneamento.

Em Goiânia, o prefeito Sandro Mabel vetou um projeto aprovado pelos vereadores que revogaria a Taxa de Limpeza Urbana. A Prefeitura sustenta que a cobrança é necessária para cumprir a lei federal de saneamento e que oferece subsídio de mais de oitenta por cento aos moradores. Em 2025, a taxa mensal era de vinte e um reais e cinquenta centavos; em 2026, foi corrigida pela inflação para vinte e dois reais e quarenta e seis centavos. A cobrança é feita junto com a fatura de água.

Cuiabá revogou a taxa para pequenos geradores em 2025, após a Câmara autorizar o Executivo a proceder com a revogação. O prefeito Abilio Brunini assinou um decreto extinguindo a cobrança, mas manteve a taxa para grandes geradores que produzem entre duzentos e cinco mil litros diários de lixo. A Prefeitura afirma que a medida beneficiou aproximadamente duzentos mil moradores sem eliminar a obrigação de custeio do serviço. Em Campo Grande, os vereadores aprovaram uma suspensão do aumento da taxa para 2026, mas a prefeita Adriane Lopes vetou a decisão. Quando a Câmara tentou derrubar o veto, faltou um voto: foram quatorze votos pela derrubada e oito pela manutenção, quando eram necessários quinze.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, que regula o setor, alertou que a não implantação da taxa constitui renúncia de receita que precisa ser registrada, justificada ou compensada. Mais importante: a ausência da cobrança impede que os municípios acessem recursos federais de saneamento. São Paulo, a maior capital do país, nunca cobrou a taxa de lixo. A Prefeitura afirma que o município possui condições de financiar os serviços de limpeza urbana por meio de um fundo municipal específico e que nenhuma nova taxa será instituída.

O que emerge desse mosaico é uma disputa sobre quem deve pagar pelos serviços essenciais de saneamento. As prefeituras que eliminaram a taxa argumentam que ela não melhorava os serviços ou que outras fontes de financiamento eram suficientes. Os tribunais começam agora a julgar se essas decisões são constitucionais. Caraguatatuba tem trinta dias para convencer a Justiça de que consegue manter a coleta de lixo sem a taxa. O resultado pode estabelecer precedentes para dezenas de outras cidades que enfrentam pressão política semelhante.

A não implantação de taxa ou tarifa do lixo é uma renúncia de receita que necessita ser registrada, justificada ou ter medidas para compensá-la
— Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
A cobrança não se refletia em melhoria do serviço de coleta de resíduos sólidos na capital
— Prefeitura de Fortaleza
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