Café e carne bovina tiveram aumentos significativos nos EUA: café subiu 21% em 12 meses, enquanto exportações de carne caíram 51% em relação ao ano anterior. Economistas alertam que as tarifas aumentam custos para consumidores americanos, desaceleram a economia e geram incerteza nos mercados financeiros globais.
Tarifas de Trump contra Brasil pressionam inflação nos EUA e geram custo político
Contribuíram para pressionar os preços, mas não são a causa única
Por que Trump impôs essas tarifas se elas parecem prejudicar mais os americanos do que ajudar?
A justificativa oficial era que o Brasil era superavitário comercialmente—o que não é verdade. Mas há uma estratégia mais profunda: Trump quer desvalorizar o dólar para estimular a industrialização nos EUA. O problema é que as tarifas geram incerteza, afastam investidores estrangeiros e causam fuga de capitais, o que pressiona o dólar para baixo, mas também prejudica consumidores americanos com inflação.
E o Brasil, como está sendo afetado?
As exportações de carne caíram 51% em relação ao ano anterior. O café, nosso principal produto de exportação para lá, encareceu 21% em um ano. Mas há uma ironia: enquanto os brasileiros sofrem com a redução de vendas, o governo Lula tenta negociar, e Trump já sinalizou abertura para conversa na ONU.
Qual é o custo político para Trump?
Pesquisas mostram que mais da metade dos americanos se opõe às tarifas. Senadores republicanos e democratas já apresentaram resoluções para cancelá-las. Se a economia desacelerar e a inflação persistir, isso pode prejudicar suas chances de eleger um aliado republicano e sua própria popularidade.
Isso já aconteceu antes na história americana?
Sim. Richard Nixon tentou desvalorizar o dólar em 1971, resultando em inflação e alta de juros. Ronald Reagan assinou o Acordo de Plaza em 1985 com outros países para enfraquecer o dólar, gerando déficit fiscal. Barack Obama tentou pressionar a China para valorizar o yuan em 2009, e também houve aumento de inflação. Nenhuma dessas tentativas saiu como planejado.
O que vem a seguir?
Trump sinalizou abertura para negociar com Lula. Se conseguirem se reunir nas próximas semanas, pode haver redução das tarifas. Mas enquanto isso, a economia americana continua desacelerando e os consumidores americanos pagam mais caro por café e carne.
O Pulso
- Café subiu 21% em 12 meses nos EUA, com alta de 3,6% entre julho e agosto—maior taxa em 28 anos
- Exportações brasileiras de carne caíram 51,1% em relação a agosto do ano anterior, de 19,1 mil para 9,3 mil toneladas
- Tarifas de 50% impostas em agosto após 10% em abril e 40% adicional em julho
- Mais da metade dos americanos se opõe às tarifas, segundo pesquisas de opinião
Café e carne bovina tiveram aumentos significativos nos EUA: café subiu 21% em 12 meses, enquanto exportações de carne caíram 51% em relação ao ano anterior. Economistas alertam que as tarifas aumentam custos para consumidores americanos, desaceleram a economia e geram incerteza nos mercados financeiros globais.
Dois meses após impor tarifas de 50% contra produtos brasileiros, especialistas avaliam se a medida de Trump foi contraproducente, com inflação de alimentos nos EUA e queda nas exportações brasileiras.
Há quase dois meses, Donald Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, e agora especialistas discutem se a medida saiu pela culatra. Os números começam a contar uma história que o consumidor americano já sente no bolso.
O café, que chega às mesas americanas principalmente do Brasil, subiu 21% no acumulado de doze meses. Só entre julho e agosto, o salto foi de 3,6%—a maior taxa em 28 anos, segundo o Índice de Preços ao Consumidor dos EUA. A carne bovina também encareceu, com alta de 7,3% no ano. Mas enquanto os preços sobem para o consumidor americano, as exportações brasileiras desabam. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes reporta queda de 51,1% nas vendas para os EUA em relação a agosto do ano anterior, caindo de 19,1 mil toneladas para 9,3 mil toneladas.
Jarbas Thaunahy, professor de finanças da Strong Business School, rejeita a simplificação de que foi um "tiro no pé". Para ele, é mais preciso dizer que as tarifas pressionaram os preços domésticos sem ser a causa única. O efeito líquido, porém, agrava a inflação alimentar num momento em que outros choques já afetam a economia, reforçando o custo político interno das medidas. A economia americana, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, desacelerará para 1,8% em 2025, acima dos 1,6% estimados em junho.
O contexto das tarifas remonta a abril, quando Trump impôs 10% sobre produtos brasileiros. Em julho, anunciou uma taxa extra de 40%, totalizando 50%. A justificativa oficial foi que o Brasil é superavitário nas relações comerciais com os EUA—afirmação factualmente incorreta, já que o Brasil é deficitário. Trump também citou o processo judicial contra Jair Bolsonaro, chamando-o de "caça às bruxas" do Judiciário brasileiro. Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de estado.
O governo Lula tem tentado negociar a redução das taxas, mas as tentativas foram prejudicadas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Enquanto isso, o custo político para Trump cresce internamente. Cinco senadores—quatro democratas e um republicano—apresentaram uma resolução para cancelar as tarifas, argumentando que ameaçam setores da economia americana. Pesquisas mostram que mais da metade dos americanos se opõe às tarifas, o que pode prejudicar a popularidade de Trump e suas chances de eleger um aliado republicano.
Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, explica que mesmo com proteção temporária de indústrias locais, a elevação de custos de insumos tende a encarecer o custo de vida e fragilizar cadeias produtivas que dependem de complementaridade internacional. No plano institucional, a inflexão tarifária desafia a estabilidade das relações comerciais multilaterais. Os efeitos adversos incluem aumento de preços ao consumidor, elevação de custos para empresas americanas que dependem de insumos brasileiros e deterioração da eficiência produtiva.
Analistas do mercado financeiro sugerem que a política de tarifas tem objetivo de desvalorizar o dólar, que está em patamar elevado e pressiona a inflação. Trump defende desde sua campanha o aumento da industrialização nos EUA, dificultado pela valorização da moeda. Thaunahy explica a ambiguidade: as tarifas encarecem importações e reduzem saída de dólares, o que tenderia a valorizar a moeda, mas medidas protecionistas geram incerteza e reduzem confiança de investidores estrangeiros, provocando fuga de capitais que pressiona o dólar para baixo. Ao longo de 2025, anúncios de novas tarifas causaram depreciação do dólar em relação ao euro e ao iene. O real também se valorizou, fechando a semana em R$ 5,35 ante aos R$ 5,44 do primeiro dia do mês, com perda de 14,25% da moeda americana no acumulado do ano.
Thaunahy alerta que a estratégia unilateral pode render ganhos geopolíticos de curto prazo, mas enfraquece a influência institucional dos EUA no longo prazo, gera fragmentação do comércio global e acelera a busca por alternativas ao sistema centrado no dólar. No começo da semana, Trump discursou na abertura da Assembleia-Geral da ONU e sinalizou possível reunião com Lula. Os presidentes se encontraram rapidamente, e Trump concordou que têm assuntos a resolver. A equipe do governo Lula celebrou a fala e espera que uma reunião, online ou por telefone, aconteça nas próximas semanas.
Citações Notáveis
Contribuíram para pressionar os preços domésticos, mas não são a causa única. O efeito líquido agravará a inflação alimentar em um momento de outro choque, reforçando a percepção de um custo político interno das medidas tomadas— Jarbas Thaunahy, professor de finanças da Strong Business School
A estratégia unilateral pode render ganhos geopolíticos de curto prazo, mas enfraquece a influência institucional dos EUA no longo prazo, gera fragmentação do comércio global e acelera a busca por alternativas ao sistema centrado no dólar— Jarbas Thaunahy