Na véspera do primeiro turno, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad se encontraram pela última vez em debate televisionado, revelando que a disputa pelo governo de São Paulo é também um espelho da polarização que divide o Brasil. Com 50% das intenções de voto contra 30%, Tarcísio chegou ao confronto como favorito, mas o verdadeiro campo de batalha foi o imaginário nacional — onde Lula, Bolsonaro e seus herdeiros políticos pautaram cada acusação. O debate iluminou uma tensão antiga: em tempos de polarização profunda, governar um estado pode ser apenas um pretexto para disputar o país.
Tarcísio e Haddad trocam ataques em último debate antes do primeiro turno em SP
Vocês querem o Milei aqui, né? Vocês forneciam o osso
Por que um debate sobre governador de São Paulo virou tanto sobre a disputa presidencial?
Porque os dois candidatos estão ligados a máquinas presidenciais diferentes. Haddad saiu do governo Lula há pouco tempo, e Tarcísio é aliado dos Bolsonaro. Eles não conseguem falar de saúde ou educação sem trazer a briga nacional para dentro.
Mas isso é escolha deles ou é estrutura? Haddad estava sendo atacado sobre sua gestão como prefeito — isso é legítimo. Tarcísio estava respondendo sobre ligações com o PCC. Não é claro que eles estavam fugindo do tema ou que o tema naturalmente puxa para o nacional.
Justo. Mas note que Haddad terminou falando de Flávio Bolsonaro nas considerações finais. Isso não era sobre São Paulo.
E quanto às acusações sobre o PCC? Haddad acusou Tarcísio de pedir votos para filhos de alguém preso em operação do PCC, e Tarcísio acusou Haddad de estar em palanque com liderança do PCC. Quem tem razão?
A reportagem não diz. Ela relata que Milton Leite foi preso em operação que investiga suspeita de envolvimento do PCC com transporte coletivo — mas não diz se Leite foi acusado de ser do PCC ou se apenas estava sob investigação. E sobre Haddad na Favela do Moinho, não há contexto. Tarcísio afirmou, Haddad não respondeu, mas a reportagem não verifica.
Então são acusações não resolvidas.
Exatamente. E isso importa porque são acusações graves.
A pesquisa mostra Tarcísio com 50% e Haddad com 30%. Isso significa que Tarcísio venceu o debate?
Não necessariamente. A pesquisa é anterior ao debate. O que importa é se o debate muda algo. A reportagem não diz.
E não há análise de quem saiu melhor. A reportagem apenas lista o que cada um disse. Isso é bom — deixa o leitor pensar — mas também deixa a pergunta aberta.
Haddad ficou em silêncio quando Tarcísio mencionou o selo de ouro em alfabetização. Isso é significativo?
Parece que Haddad não sabia que o ministério que ele havia comandado havia dado esse selo. Ou não se lembrava. É um momento em que ele parece desarmado.
Mas a reportagem não diz se o selo é real, quando foi entregue, ou se é relevante. Tarcísio pode estar usando um prêmio que não significa muito. Não sabemos.
El Pulso
- Tarcísio entra no debate com vantagem confortável nas pesquisas, mas Haddad aposta na nacionalização do confronto para reverter o placar.
- Acusações de ligações com o PCC contaminam os dois lados — Haddad questiona os laços de Tarcísio com Milton Leite, enquanto o governador o coloca em palanque com liderança criminosa.
- Saúde, educação e contas públicas viram palco de versões opostas da realidade: cada dado citado por um é contestado com outro dado pelo adversário.
- A economia nacional entra pela janela — recuperações judiciais, arcabouço fiscal, Petrobras e até Javier Milei são convocados para o ringue paulistano.
- Nas considerações finais, Haddad abandona São Paulo e mira Flávio Bolsonaro, transformando o encerramento do debate estadual em comício presidencial.
Na véspera do primeiro turno, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad se encontraram pela última vez em debate televisionado, revelando que a disputa pelo governo de São Paulo é também um espelho da polarização que divide o Brasil. Com 50% das intenções de voto contra 30%, Tarcísio chegou ao confronto como favorito, mas o verdadeiro campo de batalha foi o imaginário nacional — onde Lula, Bolsonaro e seus herdeiros políticos pautaram cada acusação. O debate iluminou uma tensão antiga: em tempos de polarização profunda, governar um estado pode ser apenas um pretexto para disputar o país.
Na noite de 29 de setembro, a TV Globo transmitiu o último debate entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad antes do primeiro turno para o governo de São Paulo. O governador chegou ao confronto com 50% das intenções de voto contra 30% do adversário — margem que o colocava a um passo da vitória sem segundo turno. Mas o debate que se seguiu raramente ficou dentro das fronteiras do estado.
A polarização nacional moldou cada troca de acusações. Haddad, ex-ministro da Fazenda de Lula, e Tarcísio, aliado próximo da família Bolsonaro, usaram São Paulo como arena para disputas maiores. O momento mais tenso envolveu o PCC: Haddad questionou Tarcísio por pedir votos para filhos de Milton Leite, preso em operação sobre suspeita de envolvimento do crime organizado com o transporte coletivo. Tarcísio revidou afirmando que Haddad havia compartilhado palanque com uma liderança criminosa na Favela do Moinho — acusação que o petista não respondeu diretamente.
Na saúde, cada candidato apresentou sua própria versão do caos: Haddad culpou a herança da pandemia gerida por Bolsonaro pelas filas do SUS; Tarcísio afirmou que Haddad descumpriu 9 de 10 metas quando foi prefeito de São Paulo. Ao ouvir Haddad falar de mães de crianças atípicas, Tarcísio recorreu a uma comparação com Pinóquio para acusar o adversário de mentir sobre cortes no atendimento especializado.
A economia trouxe novos combustíveis. Tarcísio citou o número recorde de pedidos de recuperação judicial para atacar a gestão federal; Haddad respondeu com ironia sobre empresários e defendeu a reforma tributária que conduziu como ministro. A menção a Milei aqueceu ainda mais o debate — Haddad insinuou que Tarcísio desejava importar o modelo argentino para São Paulo, e o governador respondeu que o presidente argentino estava indo bem diante de uma situação complexa.
Em educação, a queda de São Paulo no Ideb foi contestada com o desempenho no Pisa e com um selo ouro do Ministério da Educação — o mesmo que Haddad havia comandado. O candidato do PT afirmou não se lembrar do reconhecimento.
Nas considerações finais, Haddad deixou São Paulo de lado por completo. Voltou-se para Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, chamando-o de ameaça nacional e listando escândalos sob investigação. O debate terminou onde havia começado: não em São Paulo, mas no centro da disputa que divide o Brasil.
Na noite de terça-feira, 29 de setembro, a TV Globo transmitiu o último confronto entre os dois principais candidatos ao governo de São Paulo antes do primeiro turno. Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e Fernando Haddad, do PT, passaram duas horas trocando acusações que oscilavam entre questões estaduais e ataques que reverberavam a disputa presidencial em andamento. O cenário político era claro: pesquisa Datafolha divulgada dias antes mostrava Tarcísio com 50% das intenções de voto contra 30% de Haddad, colocando o governador em posição de vencer já no primeiro turno.
A dinâmica do debate refletia as alianças nacionais. Haddad havia deixado o cargo de ministro da Fazenda do governo Lula apenas seis meses antes, enquanto Tarcísio mantinha laços próximos com a família Bolsonaro — particularmente com o senador Flávio, que disputava a Presidência pelo PL. Essa polarização nacional atravessou cada troca de argumentos, mesmo quando o tema era infraestrutura de São Paulo ou filas do SUS.
Um dos momentos mais tensos envolveu acusações sobre ligações criminosas. Haddad questionou Tarcísio por ter pedido votos para os filhos de Milton Leite, ex-vereador preso em 18 de setembro em operação que investigava suspeita de envolvimento do PCC com o transporte coletivo. Haddad chamou Leite de "prefeito sombra". Tarcísio respondeu que a família Leite não ocupava cargos no governo paulista. O governador, por sua vez, afirmou que Haddad havia estado em palanque com uma liderança do PCC na Favela do Moinho, no centro de São Paulo — uma acusação que o candidato do PT não respondeu diretamente.
Na saúde, Haddad argumentou que o governo Lula havia herdado um caos deixado pela gestão da pandemia de Covid no governo Bolsonaro, citando o represamento de procedimentos e o aumento das filas do SUS em São Paulo. Tarcísio rebateu com críticas à gestão de Haddad quando este foi prefeito da capital, afirmando que o petista descumpriu 9 de 10 metas na saúde e que 80% das pessoas avaliaram sua gestão na área como ruim. Quando Haddad mencionou mães de crianças atípicas que passavam o dia inteiro com seus filhos porque o governo havia eliminado atendimento especializado nas escolas, Tarcísio respondeu com uma comparação: "Haddad, você me lembra aquele personagem do desenho animado que tinha um senhorzinho que era bonzinho que fez um boneco e, quando o boneco mentia, o nariz crescia". O governador afirmou que havia mantido e ampliado as contratações de profissionais de apoio e que as escolas estaduais passariam a ter salas sensoriais.
Em economia, Tarcísio citou as crises das Casas Bahia, Tok&Stok e Habib's para questionar Haddad sobre o número recorde de pedidos de recuperação judicial no governo Lula. Haddad respondeu com deboche sobre a rede varejista, dizendo que não iria "ficar defendendo empresário que é criminoso". Sobre as contas públicas, Haddad afirmou ter recebido um país quebrado de Paulo Guedes, ministro da Economia no governo Bolsonaro, e questionou: "Vocês dilaceraram a Petrobras, venderam a BR Distribuidora e o gás. E vem cobrar ajuste?". Tarcísio criticou o arcabouço fiscal, chamando-o de "negacionismo fiscal". Haddad defendeu a reforma tributária que havia conduzido como ministro e insinuou que Tarcísio desejava uma gestão como a do presidente argentino Javier Milei, dizendo: "Vocês querem o Milei aqui, né? Vocês forneciam o osso e agora querem carne de burro em São Paulo?". Tarcísio respondeu que Milei havia enfrentado uma situação complexa e estava indo bem.
Em educação, Haddad citou a queda de São Paulo no ranking do Ideb e mencionou que o estado havia ficado abaixo da média nacional em alfabetização de crianças. Tarcísio respondeu destacando a avaliação positiva do estado no Pisa e mencionou que São Paulo havia recebido o selo ouro do Ministério da Educação para alfabetização — o mesmo ministério que Haddad havia comandado. Após um silêncio, Haddad afirmou não se lembrar do selo.
Nas considerações finais, Haddad nacionalizou completamente o debate com críticas a Flávio Bolsonaro, chamando-o de "ameaça para o país" e afirmando que estava envolvido em "absolutamente todos os escândalos que estão sendo investigados", citando o caso "Dark Horse" e a proximidade de Flávio com o advogado Willer Tomaz, investigado no caso do INSS. O debate terminou com a campanha presidencial ocupando o espaço que deveria ser sobre o futuro de São Paulo.
Citas Notables
Haddad, você me lembra aquele personagem do desenho animado que tinha um senhorzinho que era bonzinho que fez um boneco e, quando o boneco mentia, o nariz crescia— Tarcísio de Freitas, respondendo a crítica de Haddad sobre atendimento a crianças atípicas
Vocês dilaceraram a Petrobras, venderam a BR Distribuidora e o gás. E vem cobrar ajuste?— Fernando Haddad, criticando gestão econômica do governo Bolsonaro