Tarcísio lidera com ~50% das intenções de voto contra ~30% de Haddad, cenário que pode definir a eleição já no primeiro turno. Segurança pública, privatização da Sabesp, saúde e educação foram temas centrais, mas a campanha foi nacionalizada pela disputa presidencial.
Tarcísio e Haddad repetem 2022 em primeiro turno ofuscado pela disputa presidencial
A campanha terminou nacionalizada, ofuscada pela disputa presidencial
Por que a campanha estadual perdeu tanto espaço se havia dois candidatos conhecidos e com histórico?
Porque a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro ocupou cada vez mais o debate político. Além disso, escândalos nacionais — o caso Vorcaro, o filme Dark Horse, brigas no STF — desviaram a atenção das pautas locais.
Mas houve problemas reais no estado: morte de quatro pessoas em obra da Sabesp, trem pegando fogo. Por que isso não mobilizou a campanha?
Mobilizou, mas não o suficiente. Tarcísio estava confortável nas pesquisas e optou por não se expor. Haddad, por sua vez, entrou relutante na candidatura.
Haddad realmente não queria concorrer?
Disse publicamente que preferia trabalhar na campanha de Lula. Precisou ser convencido pelo presidente a deixar o cargo no governo.
Então a estratégia do PT pode ter sido fraca desde o início?
Segundo especialistas, sim. Fazer uma disputa binária contra um governador com aprovação elevada foi arriscado. Com mais candidatos, especialmente um ao centro, haveria chance de segundo turno.
E quanto aos temas que debateram?
Segurança pública, Sabesp, saúde e educação foram centrais. Mas os debates foram muito técnicos, cheios de números, e não repercutiram como esperado.
A privatização da Sabesp foi realmente um tema que dividiu?
Sim. Haddad a criticou, falando de tarifas e problemas de abastecimento. Tarcísio defendeu os resultados e disse que aumentou a capacidade de investimento.
E agora, com Tarcísio vencendo no primeiro turno, o que muda para a eleição presidencial?
Tarcísio fica livre para fazer campanha por Flávio. Mas há um paradoxo: o fim da campanha estadual pode desmobilizar estruturas locais, deixando menos gente estimulada a votar no segundo turno.
Isso prejudica Flávio ou Lula mais?
Provavelmente Lula, que já sai em desvantagem. Tarcísio puxa votos para Flávio no interior, onde o PT pouco penetra.
El Pulso
- Tarcísio lidera com ~50% das intenções de voto contra ~30% de Haddad
- Morte de quatro pessoas em obra da Sabesp em maio de 2026
- Incêndio em trem da Trívia Trens em junho de 2026
- Haddad inicialmente relutou em ser candidato, preferindo campanha de Lula
Tarcísio lidera com ~50% das intenções de voto contra ~30% de Haddad, cenário que pode definir a eleição já no primeiro turno. Segurança pública, privatização da Sabesp, saúde e educação foram temas centrais, mas a campanha foi nacionalizada pela disputa presidencial.
Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad disputam novamente o governo de São Paulo em 2026, com poucos candidatos competitivos e pesquisas estáveis. A campanha foi ofuscada pela disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A eleição para governador de São Paulo em 2026 trouxe de volta, já no primeiro turno, o duelo que Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad haviam travado quatro anos antes. Mas desta vez, a disputa estadual ficou ofuscada por algo maior: a corrida presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro ocupava cada vez mais espaço no debate político do estado, deixando a campanha pelo Palácio dos Bandeirantes em segundo plano.
Haddad começou o ano relutante. Disse publicamente que não queria ser candidato, que preferia concentrar seus esforços na reeleição de Lula. Foi preciso o próprio presidente convencê-lo a deixar o cargo no governo e disputar a vaga de governador. As pesquisas, ao longo de toda a campanha, mostraram pouca variação: Haddad oscilou entre 20% e 30% das intenções de voto, enquanto Tarcísio saiu de 40% e chegou a 50% nos últimos levantamentos. Com apenas dois candidatos realmente competitivos e essa diferença aberta, o cenário apontava para uma decisão já no primeiro turno.
Os problemas que poderiam ter alimentado o debate sobre a gestão estadual não conseguiram ganhar tração. Em maio, um acidente em uma obra da Sabesp matou quatro pessoas na Zona Oeste de São Paulo. No fim de junho, um trem da concessionária Trívia Trens pegou fogo, levando à devolução temporária da concessão para a CPTM. Apesar dos episódios, o clima da disputa esfriou. Segundo Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas, os escândalos envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o filme "Dark Horse" e as brigas internas no Supremo Tribunal Federal desviaram a atenção das pautas locais. Tarcísio, confortável nas pesquisas, também optou por manter distância do processo nacional, evitando apoiar Flávio Bolsonaro de forma enfática e recusando-se a participar de debates públicos que pudessem expô-lo.
O cientista político Antonio Lavareda observou que a campanha terminou nacionalizada, em parte porque o candidato oposicionista era o ex-ministro da Fazenda do governo Lula. A demora do PT em definir seu nome também ajudou Tarcísio: quanto mais tarde a oposição se organiza, menos tempo tem para atacar quem já está no poder. Lavareda questionou se a estratégia do PT foi equivocada. "Pode ter sido um erro optar por uma disputa binária contra um governador com aprovação elevada", disse. Com mais candidatos, especialmente um com posicionamento mais ao centro, haveria maior chance de levar a eleição ao segundo turno. A expressão eleitoral do ex-governador Márcio França, que virou vice de Haddad, foi desperdiçada.
Os dois debates televisivos do primeiro turno foram marcados por enxurradas de números e discussões técnicas que não repercutiram como as campanhas esperavam. Segurança pública foi tema central: Haddad questionou a atuação do governo estadual diante de facções criminosas e criticou relações de aliados de Tarcísio com pessoas suspeitas de ligação com o PCC. Tarcísio rebateu citando redução de indicadores criminais durante sua gestão. A privatização da Sabesp dividiu os candidatos: Haddad fez dela uma bandeira, criticando tarifas e problemas de abastecimento, enquanto Tarcísio defendeu os resultados da empresa e argumentou que a privatização aumentou a capacidade de investimento. Saúde, educação, transporte e infraestrutura completaram a lista de temas estaduais, mas a campanha também foi nacionalizada, com Haddad associando Tarcísio ao governo Bolsonaro e Tarcísio criticando a gestão de Lula e a passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda.
Com a provável vitória de Tarcísio no primeiro turno, especialistas divergem sobre as consequências para a disputa presidencial. Marco Antonio Carvalho alertou para um paradoxo: o fim da campanha estadual pode desmobilizar prefeitos e estruturas locais, deixando candidatos presidenciais com mais trabalho para fazer campanha. Isso pode prejudicar ambos, mas especialmente Lula, que já sai em desvantagem porque Tarcísio puxa votos para Flávio no interior. Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, apontou outro efeito: candidatos a deputado, que normalmente mobilizam eleitores nos bairros, desarmam suas estruturas após o primeiro turno, deixando parte do eleitorado menos estimulada a comparecer ao segundo turno. Tarcísio fica livre para fazer campanha por Flávio, mas essa liberdade pode não se traduzir em eficácia eleitoral.
Citas Notables
Pode ter sido um erro de estratégia optar por fazer uma disputa binária contra um governador com aprovação elevada— Antonio Lavareda, cientista político
O fim da disputa no primeiro turno pode ser uma faca de dois legumes, desmobilizando prefeitos e deixando candidatos nacionais com mais trabalho— Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV