Governador e senador bolsonarista publicaram conteúdo comparando manifestação pacífica a vandalismo, usando vídeo de origem chilena como evidência. Agência de checagem Aos Fatos confirmou que as imagens circulavam nas redes sociais desde 10 de outubro, um dia antes do ato na Avenida Paulista.
Tarcísio e Flávio compartilham vídeo falso atribuindo drogas a protesto pró-Lula
Imagens que circulavam antes foram apresentadas como evidência do que aconteceu depois
Por que dois políticos importantes compartilhariam um vídeo sem verificar a origem?
Porque o vídeo já estava circulando, parecia servir ao argumento que queriam fazer, e a velocidade das redes sociais recompensa quem amplifica primeiro, não quem verifica.
Mas precisamos ser claros: não sabemos se Tarcísio e Flávio sabiam que o vídeo era de outro país. Pode ter sido negligência, pode ter sido intencional. A checagem confirma a origem chilena, mas não confirma a intenção deles.
E quanto ao conteúdo do vídeo em si? O que mostra realmente?
Uma mulher de cabelos vermelhos aproximando o rosto de algo que ela segura nas mãos. Pode ser muita coisa. Ninguém conseguiu confirmar nem a identidade dela nem a substância.
Exatamente. A agência Aos Fatos foi honesta nisso: não conseguiu verificar o que é, quem é, de onde é. Só conseguiu confirmar que circulava antes do protesto.
Então por que o TSE vai agir?
Porque a campanha de Lula argumenta que é desinformação eleitoral — pegar um vídeo de outro país e atribuir a um protesto específico para prejudicar um candidato.
Mas o TSE vai ter que decidir se isso viola as regras de campanha. Compartilhar algo que circula nas redes, mesmo que seja de origem duvidosa, é diferente de fabricar algo do zero. A lei eleitoral ainda está sendo interpretada nesse terreno.
Qual é o risco real aqui?
Que milhões de pessoas viram o vídeo, acreditaram na associação, e agora têm uma impressão sobre o protesto que não corresponde ao que realmente aconteceu.
E que isso se repita. Se não houver consequências claras, o padrão continua: encontra conteúdo ambíguo, descontextualiza, amplifica, deixa a verificação de fato chegar tarde demais.
Il Polso
- Vídeo publicado originalmente no Chile em 10 de outubro, um dia antes do protesto na Paulista
- Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro amplificaram o conteúdo nas redes sociais
- Campanha de Lula acionou TSE pedindo remoção imediata das publicações
- Agência Aos Fatos não conseguiu confirmar identidade da mulher nem a substância no vídeo
Governador e senador bolsonarista publicaram conteúdo comparando manifestação pacífica a vandalismo, usando vídeo de origem chilena como evidência. Agência de checagem Aos Fatos confirmou que as imagens circulavam nas redes sociais desde 10 de outubro, um dia antes do ato na Avenida Paulista.
Tarcísio e Flávio Bolsonaro divulgaram vídeo que atribui falsamente cenas de uso de drogas a manifestação pró-Lula na Paulista, mas as imagens já circulavam antes do protesto e teriam sido registradas no Chile.
Na segunda-feira, 12 de outubro, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas publicou um vídeo nas redes sociais que entrelaçava imagens de uma mulher aparentemente usando drogas com cenas de vandalismo, atribuindo o conjunto à manifestação de apoio ao presidente Lula realizada no domingo anterior na avenida Paulista. O material, que comparava lado a lado brasileiros vestidos de verde e amarelo com o que descrevia como "vandalismo, depredação e intolerância", foi amplificado horas depois pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, que o compartilhou com a pergunta: "É isso que você quer para o futuro do Brasil?". Até o momento da publicação desta reportagem, o vídeo acumulava mais de um milhão de curtidas.
O protesto que ocorreu na capital paulista no domingo, 11 de outubro, foi marcado pela paz. Apoiadores do presidente ocuparam um trecho amplo da avenida Paulista, nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo. Além de Lula, participaram o vice-presidente Geraldo Alckmin e governadores aliados. Manifestações similares aconteceram em outras cidades brasileiras. Não houve relatos de incidentes significativos durante o ato.
O problema com o vídeo compartilhado pelos dois políticos bolsonaristas é que ele não documenta o que afirma. Segundo apuração da agência de checagem Aos Fatos, as imagens da mulher de cabelos vermelhos já circulavam nas redes sociais antes do protesto de domingo. O material foi publicado originalmente no sábado, 10 de outubro — um dia antes da manifestação na Paulista — por perfis argentinos e chilenos na plataforma X. Uma das postagens em espanhol indicava que as cenas seriam de uma marcha em apoio à Palestina realizada na Alameda, no Chile, embora essa informação também não tenha sido confirmada. Até o momento da checagem, não havia sido possível identificar a mulher, estabelecer com precisão a origem da gravação ou verificar qual substância aparece nas imagens.
Tarcísio, em sua publicação, reconheceu que a democracia assegura o direito à manifestação, mas argumentou que não assegura o direito de destruir. Flávio Bolsonaro, por sua vez, não fez ressalvas similares ao compartilhar o conteúdo. O fato de ambos terem amplificado um vídeo cuja origem estava fora do Brasil e cuja data de circulação anterior era verificável levanta questões sobre a verificação de fontes durante a campanha eleitoral.
A campanha de reeleição de Lula respondeu acionando o Tribunal Superior Eleitoral. Na representação apresentada ao TSE, a defesa da campanha, representada pelo escritório Ferrado e Novaes advogados, solicitou a remoção imediata de todas as publicações. O documento enfatiza que um trecho do material foi publicado originalmente no Chile em 10 de outubro, um dia antes da manifestação na Paulista, evidenciando que as imagens circulavam previamente e foram descontextualizadas. A campanha argumenta que se trata de desinformação eleitoral em período de campanha, violando normas do processo eleitoral.
O caso ilustra um padrão recorrente em campanhas: a apropriação de conteúdo descontextualizado para reforçar narrativas políticas. Neste caso, imagens que podem ter origem em outro país, em outro contexto e em data anterior foram apresentadas como evidência do comportamento de apoiadores de um candidato específico. A velocidade com que o material foi amplificado — especialmente por figuras públicas com alcance significativo — permitiu que a desinformação se espalhasse amplamente antes que verificações de fato pudessem ser realizadas.
O resultado agora depende da ação do TSE. A corte eleitoral terá de avaliar se as publicações constituem violação das normas de campanha e se devem ser removidas. Enquanto isso, o vídeo permanecia disponível nas redes sociais, continuando a acumular engajamento e a ser compartilhado por usuários que podem não ter acesso às verificações de fato realizadas posteriormente.
Citazioni salienti
A democracia assegura o direito à manifestação, mas não o de destruir— Tarcísio de Freitas, em sua publicação
É isso que você quer para o futuro do Brasil?— Flávio Bolsonaro, ao compartilhar o vídeo