Mulheres enfrentam proibições de educação, trabalho e viagens; governador nega divórcio a vítima de agressão doméstica, questionando sua inteligência. Líderes talibãs com passado de violência ocupam cargos governamentais; porta-voz justifica restrições como necessárias para evitar 'imoralidade' segundo a Sharia.
Talebã governa Afeganistão com rígida interpretação islâmica e nega divórcio a mulher agredida
Acho que o Talebã tem medo de mulheres instruídas
Por que o governador recusou o divórcio se a mulher estava sendo agredida?
Porque sob a interpretação da Sharia que o Talebã aplica, o divórcio é visto como um fracasso da mulher, não do marido. A honra dela fica comprometida. O governador acreditava que ela deveria aceitar a situação — um quarto separado, uma advertência ao marido. Para ele, isso era suficiente.
E quanto ao comentário dele sobre as mulheres serem "estúpidas"?
Ele disse isso rindo, cercado por seus assessores que também riram. Não era uma observação privada — era uma declaração pública de como ele vê as mulheres. E ninguém ali questionou. Isso mostra como essas ideias estão normalizadas no poder.
Esses líderes talibãs parecem estar tentando se apresentar como pessoas razoáveis. Por quê?
Porque sabem que estão sendo observados. Querem legitimidade internacional. Mas quando você os pressiona sobre o passado — sobre atentados suicidas, sobre destruir estátuas de Buda — eles se recusam a responder ou justificam tudo como vontade de Deus. A moderação é apenas uma fachada.
O porta-voz disse que mulheres trabalhando em escritórios levaria à imoralidade. Ele realmente acredita nisso?
Ele acredita que é assim que a Sharia deve ser interpretada. Mas há algo mais profundo: controlar as mulheres é controlar a sociedade. Uma mulher educada, independente, que trabalha — ela questiona. E o Talebã não quer questionamentos.
Por que a BBC conseguiu acesso a esses líderes se o regime é tão repressivo?
Porque o Talebã quer contar sua história. Eles acreditam que sua interpretação da Sharia é correta e que o mundo deveria entender isso. Mas ao fazer isso, acabam revelando exatamente o que dizem negar: que pouco mudou desde os anos 1990.
E as mulheres que protestam? Elas têm alguma esperança?
Elas dizem que acreditam que isso não vai durar para sempre. Mas no presente, elas enfrentam prisão, interrogatórios, negação de educação. A esperança delas é a única coisa que o Talebã não conseguiu controlar — ainda.
Il Polso
- Mulheres proibidas de frequentar universidades, trabalhar na maioria dos setores e viajar sozinhas
- Governador nega divórcio a vítima de agressão doméstica, questionando sua inteligência
- Líderes talibãs com passado de violência extrema ocupam cargos governamentais; porta-voz justifica restrições como necessárias segundo a Sharia
- Três em cada quatro pessoas no Afeganistão não conseguem suprir necessidades básicas, segundo a ONU
Mulheres enfrentam proibições de educação, trabalho e viagens; governador nega divórcio a vítima de agressão doméstica, questionando sua inteligência. Líderes talibãs com passado de violência ocupam cargos governamentais; porta-voz justifica restrições como necessárias para evitar 'imoralidade' segundo a Sharia.
Cinco anos após retomar o poder, o Talebã mantém interpretação rígida da Sharia, negando direitos básicos a mulheres e reprimindo liberdades. BBC acompanha líderes do grupo que evitam falar sobre violência passada.
Cinco anos depois de retomar o controle do Afeganistão, o Talebã governa através de uma interpretação rigorosa da lei islâmica que permeia cada aspecto da vida cotidiana — desde quem pode trabalhar até quem pode se divorciar. A BBC passou dois anos acompanhando líderes do movimento e testemunhando como essas políticas se desenrolam na prática, revelando um regime que promete moderação mas implementa restrições cada vez mais severas.
Em um gabinete no norte do país, o governador Abdullah Sarhadi, ex-comandante militar do Talebã que passou anos detido em Guantánamo, recebe uma jovem mulher de dezoito anos. Ela vem pedir divórcio de um marido que a agrediu e espancou durante meses. Coberta por um véu e óculos escuros, ela fala com calma e segurança, defendendo sua decisão apesar de viver em um país onde meninas são proibidas de frequentar o ensino médio. Sarhadi tenta convencê-la a permanecer casada, argumentando que nenhum homem a desejará depois do divórcio. Quando ela responde que sua honra e dignidade já foram destruídas pela violência, ele ri e comenta com seus assessores que as mulheres são "estúpidas" e "têm o intelecto deficiente". Segundo a Sharia, a mulher poderia ter de devolver parte ou todo o dinheiro recebido no casamento, mas o marido dela exige quatro vezes esse valor — quantia que a família se recusa a pagar. O governador oferece apenas uma solução: um quarto separado e uma advertência ao marido. O pai da jovem diz depois que tentará obter o divórcio na justiça, embora no sistema judicial do Talebã seja extremamente difícil uma mulher conseguir se divorciar sem consentimento do marido.
Essa cena ilustra o cotidiano sob o regime talibã. Nos últimos cinco anos, desde que derrubaram o governo apoiado pelos Estados Unidos em 2021, as mulheres foram excluídas da maioria dos locais de trabalho, proibidas de frequentar universidades e impedidas de viajar sozinhas ou visitar parques e centros de lazer. Os homens que agora ocupam cargos governamentais frequentemente vêm de um passado de violência extrema. Habibullah Badr, que hoje trabalha no governo, afirma ter sido "responsável pelas operações de atentados suicidas" em Cabul. Ele conhece cada rua e beco da capital porque planejava ataques ali. Os atentados suicidas do Talebã mataram milhares de pessoas, muitas delas civis, mas Badr evita falar sobre isso, dizendo que teme "reabrir feridas". Quando questionado sobre mortes de civis, ele afirma que o Talebã visava comboios americanos e que a população era orientada a se manter afastada de bases estrangeiras — uma resposta que desvia da realidade documentada de ataques em áreas civis.
O porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid, revelou publicamente pela primeira vez que seu nome verdadeiro é Tahir Shah Seddiqi. Ele é um dos principais rostos públicos do regime desde 2021. Dois dias após o Talebã assumir o controle, Mujahid prometeu ao mundo que o governo permitiria que as mulheres trabalhassem e estudassem "dentro de nossas regras" e que seriam "muito ativas" na sociedade. Quando confrontado sobre por que essas promessas não foram cumpridas, ele responde que tudo deve ser analisado "à luz da Sharia". Permitir que mulheres trabalhem em escritórios como o seu "levaria à imoralidade" e "prejudicaria a dignidade delas". Sobre educação feminina, ele diz que a questão "está em discussão" e que precisam "encontrar uma solução baseada na Sharia". Questionado sobre repressão à liberdade de imprensa, Mujahid é direto: "Em uma sociedade como a do Afeganistão, temos nossas restrições. Não podemos deixar que a imprensa faça a propaganda que quiser."
Quando a BBC tentou encontrar o líder supremo do Talebã, Hibatullah Akhundzada, que vive em Kandahar no sul do país, foi informada de que isso não seria possível. Akhundzada raramente aparece em público e nunca concedeu uma entrevista à imprensa. Kandahar é considerada por alguns a capital de fato do regime, o principal reduto do movimento.
Em Kandahar, a BBC também encontrou ex-combatentes que agora trabalham em postos de controle. Um deles, Abid Lalai, mostra as aberturas de onde atirava e os locais onde guardava o Alcorão e pendurava fuzis AK-47. Seu superior, Abdul Samad, aponta para um cemitério sem identificação onde seu pai, morto combatendo pelo Talebã, está enterrado. A região é uma das mais pobres do Afeganistão, onde segundo a ONU três em cada quatro pessoas não conseguem suprir suas necessidades básicas. Samad diz que a população local precisa urgentemente de água, estradas e centros de saúde. "As autoridades do Emirado não se esqueceram de nós", afirma, embora reconheça que os líderes talvez estejam ocupados com outras prioridades.
Cinco anos depois de retomar o poder, pobreza, desemprego e instabilidade econômica continuam entre os principais problemas do Afeganistão. Mulheres que participaram de protestos quando o Talebã voltou ao poder descrevem um desespero profundo ao ver seus sonhos frustrados pelas restrições educacionais. Algumas foram presas por protestar. A maioria dos jornalistas com quem a BBC conversou afirmou ter sido convocada ou interrogada pela Estikhbaraat, a organização de inteligência do Talebã. Em um encontro tribal em Kandahar, quando um chefe de fundação beneficente pediu publicamente que as escolas para meninas fossem reabertas — argumentando que buscar conhecimento é uma obrigação tanto para homens quanto para mulheres no Islã — o microfone foi rapidamente retirado e um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Depois, o homem disse à BBC que havia outras coisas que queria dizer, mas não o deixaram continuar. Uma mulher que participou de protestos, identificada como Hoda, afirma que "não tenho palavras para explicar como um grupo que não entende nada da vida de repente está no poder". Ela acrescenta: "Acho que o Talebã tem medo de mulheres instruídas. É por isso que restringem as mulheres. Eles querem mulheres sem instrução, para que elas não possam criar homens esclarecidos. Porque isso acabaria com o Talebã."
Citazioni salienti
Se houvesse alguma possibilidade de continuarmos juntos, eu não estaria aqui. Eu tomei minha decisão— Jovem mulher pedindo divórcio ao governador Sarhadi
Senhor governador, a minha honra e a minha dignidade já foram destruídas— Resposta da mulher quando o governador questionou sua honra
Estamos comprometidos com os direitos das mulheres, a liberdade de expressão e outras questões dentro da Sharia— Zabihullah Mujahid, porta-voz do governo talibã