Aos 80 anos, o constitucionalista Laurence Tribe, professor emérito de Harvard, observa com alarme o que considera a pior crise da Suprema Corte americana desde 1857 — quando a mesma instituição negou humanidade aos descendentes de africanos. Hoje, uma maioria conservadora construída ao longo de décadas de manobras políticas revoga direitos fundamentais sem sustentação jurídica convincente, transformando o Judiciário em extensão da vontade de uma minoria eleitoral. Quando os precedentes perdem valor e os votos substituem o direito, a linha entre justiça e poder desaparece.
Suprema Corte dos EUA está em crise, diz constitucionalista Laurence Tribe
A corte não está impedindo a tirania. Está instalando a tirania da minoria.
Por que Tribe compara a corte atual com Dred Scott? Parece uma comparação extrema.
Não é extrema se você olha para o padrão. Em 1857, a corte negou direitos fundamentais a um grupo inteiro de pessoas. Agora, está revogando direitos que as pessoas já tinham — direitos que foram considerados fundamentais por décadas. A diferença é que desta vez está acontecendo em câmera lenta, em etapas.
Mas a corte sempre teve maioria conservadora ou liberal em diferentes épocas. O que torna esta situação diferente?
A diferença é que antes havia algum respeito aos precedentes, alguma disposição de ouvir argumentos, alguma preocupação com legitimidade institucional. Agora você tem cinco juízes que sabem de antemão como vão votar. Não estão decidindo casos, estão executando uma agenda.
Tribe diz que isso não é vontade do povo. Mas como ele sabe?
Porque perguntou. Pesquisas mostram que a maioria dos americanos apoiava Roe v. Wade. Apoiava controle de armas. Mas a corte fez o oposto. E isso aconteceu porque os juízes foram nomeados por presidentes que perderam o voto popular.
Então o problema é democrático, não jurídico?
É os dois. O problema democrático — uma minoria elegendo juízes — se torna um problema jurídico quando esses juízes ignoram precedentes e fundamentação legal. Quando a lei vira apenas votos, você não tem mais Judiciário independente.
Qual é o cenário que Tribe teme?
Que sem um Judiciário que funcione como proteção institucional, a sociedade fica vulnerável. Ele diz que caímos em fascismo ou anarquia. Não é hipérbole — é o que acontece quando não há freios e contrapesos.
El Pulso
- A Suprema Corte revogou Roe v. Wade após quase 50 anos, eliminando um direito individual fundamental e relegando mulheres, nas palavras de Tribe, à condição de procriadoras submetidas a uma forma de servidão involuntária.
- Cinco ministros conservadores — liderados efetivamente por Clarence Thomas, não por Roberts — operam com a convicção de que ter votos suficientes dispensa qualquer fundamentação jurídica rigorosa.
- A composição atual da corte é fruto de uma sequência de eventos que favoreceu sistematicamente os republicanos: aposentadorias precoces, mortes no cargo, e um bloqueio sem precedentes à indicação de Merrick Garland por Obama.
- Thomas já sinalizou que a corte pode avançar contra direitos ao uso de contraceptivos, relações íntimas consensuais e casamento entre pessoas do mesmo sexo — invocando o 'significado original' de uma Constituição escrita em outro século.
- Sem respeito a precedentes, o Judiciário perde sua distinção dos poderes políticos, e a sociedade fica exposta ao que Tribe chama de fascismo ou anarquia — a tirania da minoria instalada onde deveria haver proteção da maioria.
Aos 80 anos, o constitucionalista Laurence Tribe, professor emérito de Harvard, observa com alarme o que considera a pior crise da Suprema Corte americana desde 1857 — quando a mesma instituição negou humanidade aos descendentes de africanos. Hoje, uma maioria conservadora construída ao longo de décadas de manobras políticas revoga direitos fundamentais sem sustentação jurídica convincente, transformando o Judiciário em extensão da vontade de uma minoria eleitoral. Quando os precedentes perdem valor e os votos substituem o direito, a linha entre justiça e poder desaparece.
Laurence Tribe tem 80 anos, é professor emérito de Harvard e orientou Barack Obama, os ministros John Roberts e Elena Kagan, e o procurador-geral Merrick Garland. Quando fala sobre a Suprema Corte, as pessoas ouvem — e o que ele tem a dizer é grave.
Em entrevista à Washington Post Magazine, Tribe declarou que a corte vive sua pior crise desde 1857, o ano do caso Dred Scott, quando a instituição negou cidadania e direitos humanos básicos aos descendentes de africanos. O diagnóstico é severo: a corte está arrastando o país de volta para tempos terríveis.
O problema, segundo Tribe, está na composição ideológica. Cinco ministros conservadores — Clarence Thomas, Samuel Alito, Neil Gorsuch, Brett Kavanaugh e Amy Barrett — operam sob uma lógica simples: têm votos suficientes para fazer o que quiserem. Embora a mídia chame este período de 'corte de Roberts', Tribe insiste que é, na prática, a 'corte de Thomas'. Essa configuração não surgiu por acaso: uma sequência de aposentadorias, mortes e manobras políticas consolidou o controle conservador ao longo de anos.
O ponto de ruptura foi a revogação de Roe v. Wade. Pela primeira vez na história americana, a corte eliminou um direito individual considerado fundamental. 'A mulher foi relegada à condição de procriadora e forçada a um trabalho de parto como uma forma de servidão involuntária', diz Tribe. Thomas já sinalizou que a corte pode avançar contra contraceptivos, relações íntimas consensuais e casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Para Tribe, o perigo maior é estrutural: quando precedentes podem ser revogados simplesmente porque há votos para isso, a diferença entre o Judiciário e os poderes políticos desaparece. A independência do Judiciário vira ilusão. 'Caímos no fascismo ou na anarquia', afirma. A ironia final é que essa corte não reflete a vontade do povo americano — a maioria apoiava Roe v. Wade e o controle de armas. Os juízes foram nomeados por presidentes que perderam o voto popular, confirmados por senadores que representam uma minoria do eleitorado. O resultado não é a corte protegendo a democracia. É a corte instalando a tirania da minoria.
Laurence Tribe, aos 80 anos, é uma das vozes mais respeitadas do direito constitucional americano. Professor emérito de Harvard, orientou Barack Obama quando era estudante, assim como os ministros John Roberts e Elena Kagan, o procurador-geral Merrick Garland e dezenas de outras figuras proeminentes da política e do direito dos EUA. Recentemente, integrou a Comissão de Reforma da Suprema Corte criada pelo presidente Joe Biden. Quando Tribe fala sobre a instituição que estudou e ensinou por décadas, as pessoas ouvem.
Em entrevista à Washington Post Magazine, ele foi direto: a Suprema Corte dos EUA vive sua pior crise desde 1857, o ano em que a corte negou cidadania e direitos humanos básicos aos descendentes de africanos, escravizados ou não, no caso Dred Scott. A instituição, segundo Tribe, está arrastando o país de volta para tempos terríveis. O diagnóstico é severo porque o prognóstico é sombrio.
A raiz do problema, na visão de Tribe, está na composição ideológica da corte. Cinco dos seis ministros conservadores — Clarence Thomas, Samuel Alito, Neil Gorsuch, Brett Kavanaugh e Amy Barrett, deixando de lado John Roberts — seguem uma orientação de extrema direita e operam sob uma premissa simples: têm votos suficientes para fazer o que quiserem, sem necessidade de fundamentação jurídica convincente. Embora a mídia americana chame este período de "corte de Roberts", em referência ao presidente da corte, Tribe argumenta que é, na verdade, a "corte de Thomas". Clarence Thomas lidera o bloco conservador e controla efetivamente a instituição.
Essa configuração não surgiu por acaso. Tribe traça uma sequência de eventos que beneficiaram sistematicamente os republicanos. Thurgood Marshall se aposentou antes do tempo e foi substituído por Clarence Thomas. Ruth Ginsburg morreu sem ter se aposentado, abrindo espaço para Amy Barrett. Antonin Scalia faleceu, Obama indicou Merrick Garland para o cargo, mas o Senado republicano recusou-se a sabatiná-lo, permitindo que Neil Gorsuch ocupasse a vaga. Cada movimento consolidou o controle conservador.
O que preocupa Tribe é para onde essa maioria pretende ir. Thomas já sinalizou em suas decisões que a corte pode restringir proteções ao controle de natalidade, direitos ao uso de contraceptivos, relações sexuais que não visem procriação e casamento entre pessoas do mesmo sexo — tudo invocando o significado original da Constituição. Tribe nota, com certa ironia, que Thomas não mencionou a proibição ao casamento interracial que existia naquela época, talvez porque ele próprio está em um.
Sobre a questão da imparcialidade judicial, Tribe é realista. Ninguém chega a um tribunal federal com a mente completamente vazia, sem experiências ou preferências. Isso seria impossível e até indesejável. Mas há uma diferença entre ter perspectivas e ter posições predeterminadas. "Muitos ministros sabem exatamente que posições vão tomar antes que um caso seja julgado", diz Tribe. A corte sempre foi politizada em alguma medida, mas o que está acontecendo agora é diferente. Juízes podem não ser apolíticos, mas pelo menos podem ser justos, podem ouvir, podem estar abertos. Muitos dos atuais ministros não estão.
O ponto de ruptura, para Tribe, é a revogação de precedentes. Quando a corte anulou Roe v. Wade, eliminando o direito ao aborto que havia sido garantido por quase 50 anos, fez algo sem precedentes na história americana: acabou com um direito individual considerado fundamental para as pessoas decidirem sobre suas próprias vidas. "A mulher foi relegada à condição de procriadora e forçada a um trabalho de parto como uma forma de servidão involuntária", diz Tribe. Se a corte pode revogar qualquer precedente simplesmente porque tem os votos para fazê-lo, então precedentes deixam de significar algo. E se precedentes não têm valor, a diferença entre o Judiciário e os poderes políticos desaparece. Tudo se reduz a votos.
Quando isso acontece, a independência do Judiciário vira ilusão. E sem essa proteção institucional, a sociedade fica vulnerável. "Caímos no fascismo ou na anarquia", diz Tribe. A ironia final é que essa composição da corte não reflete a vontade do povo americano. A maioria dos americanos apoiava Roe v. Wade. A maioria apoiava controle de armas, que a corte também anulou. Muitos dos juízes federais foram nomeados por presidentes que perderam o voto popular por margens significativas, eleitos apenas pelo Colégio Eleitoral. Os senadores que confirmaram essas indicações representam, coletivamente, uma minoria distinta do eleitorado. O resultado não é a corte impedindo a tirania da maioria, como deveria ser sua função. É a corte instalando a tirania da minoria.
Citas Notables
Muitos ministros sabem exatamente que posições vão tomar antes que um caso seja julgado— Laurence Tribe
A mulher foi relegada à condição de procriadora e forçada a um trabalho de parto como uma forma de servidão involuntária— Laurence Tribe, sobre a revogação de Roe v. Wade