Supermercados e farmácias abandonam escala 6×1 e adotam duas folgas semanais

Milhares de trabalhadores do varejo passam a contar com duas folgas semanais, melhorando qualidade de vida, tempo para compromissos pessoais e convivência familiar.
Dois dias inteiros livres em vez de um muda tudo na vida de quem trabalha
A escala 5×2 mantém 44 horas semanais mas oferece duas folgas, permitindo tempo para vida pessoal, estudos e família.
Mark

Por que agora? Essas empresas poderiam ter feito isso há anos.

Mimi

Poderiam, mas não precisavam. Enquanto havia fila de pessoas dispostas a trabalhar em qualquer condição, não havia pressão. Agora há.

Mark

Então é só mercado de trabalho apertado?

Mimi

É principalmente isso. Mas também é uma mudança no que as pessoas aceitam. Candidatos começaram a recusar vagas com escala 6×1. As empresas perderam funcionários para concorrentes que ofereciam melhor qualidade de vida.

Mark

E quanto aos custos? Aumentaram?

Mimi

Não significativamente, segundo as empresas. Elas reorganizaram turnos, ampliaram expedientes diários, reduziram horários de atendimento em algumas lojas. Conseguiram manter as 44 horas semanais distribuindo em cinco dias em vez de seis.

Mark

Mas isso significa jornadas mais longas cada dia, certo?

Mimi

Exatamente. No Supernosso, o expediente diário passou de 7h20 para 8h48. Não é redução de carga, é reorganização. O que muda é ter dois dias inteiros livres em vez de um.

Mark

E as vendas? Caíram?

Mimi

Não. Algumas lojas até relataram que clientes mudaram o horário das compras, mas o volume se manteve. Parte do sucesso vem do fato de que funcionários menos cansados trabalham melhor.

Mark

Isso vai virar lei?

Mimi

Provavelmente. A Câmara já aprovou redução para 40 horas semanais com duas folgas. Está no Senado. Mas as grandes empresas não estão esperando. Estão se movimentando agora porque sabem que é inevitável e porque precisam reter pessoas hoje.

  • RD Saúde implantou escala 5×2 em 3,5 mil lojas de Raia e Drogasil
  • Grupo Supernosso alcançará 4,8 mil funcionários com novo modelo até agosto de 2026
  • Jornada diária aumentou de 7h20 para 8h48, mantendo 44 horas semanais
  • Câmara aprovou redução para 40 horas semanais; texto aguarda votação no Senado
  • Supermercados do Espírito Santo fecham aos domingos desde março de 2026

RD Saúde (Raia e Drogasil) implantou 5x2 em 3,5 mil lojas; Grupo Supernosso alcançará 4,8 mil funcionários até agosto com novo modelo. Mudança mantém 44 horas semanais mas aumenta expediente diário; empresas relatam melhoria na retenção e atração de trabalhadores sem aumento significativo de custos.

Grandes redes de supermercados e farmácias implementam escala 5x2, oferecendo duas folgas semanais aos trabalhadores em resposta à dificuldade de retenção de profissionais no varejo.

Nas últimas semanas, as maiores redes de supermercados e farmácias do Brasil anunciaram uma mudança radical na forma como organizam o trabalho de seus funcionários. Depois de décadas operando com a escala 6×1 — seis dias de trabalho seguidos por apenas um de descanso — essas empresas estão adotando a escala 5×2, oferecendo duas folgas semanais a dezenas de milhares de trabalhadores. A transformação não é apenas simbólica. Ela reflete uma crise real no varejo: a dificuldade crescente de contratar e manter pessoas dispostas a trabalhar em condições que deixam pouco espaço para vida pessoal.

A RD Saúde, que controla as farmácias Raia e Drogasil, foi a primeira a agir em larga escala. A empresa começou testando o novo modelo no segundo semestre de 2025, oferecendo inicialmente duas folgas semanais apenas para gerentes, lideranças e farmacêuticos. O teste funcionou. Expandiu-se para todos os trabalhadores das lojas, e agora a escala 5×2 está implantada em todas as 3,5 mil unidades da rede espalhadas pelo Brasil. A companhia emprega mais de 70 mil pessoas considerando lojas, centros de distribuição e escritórios. Segundo a empresa, a mudança buscava reduzir a saída de profissionais, aumentar o interesse pelas vagas e melhorar a organização da vida dos funcionários.

O Grupo Supernosso seguiu caminho semelhante, mas com cronograma mais agressivo. A empresa testou o modelo em três lojas da Região Metropolitana de Belo Horizonte a partir de março de 2026, envolvendo cerca de 500 funcionários. Os resultados foram positivos o bastante para justificar a expansão. O grupo anunciou que implantaria a escala 5×2 em todas as 45 unidades das bandeiras Supernosso e Apoio Mineiro, alcançando aproximadamente 4,8 mil trabalhadores até agosto. A mudança ocorreu em etapas — novas lojas entraram em junho e julho, com as 18 unidades restantes adotando o novo modelo em 3 de agosto.

Há um detalhe importante que não deve passar despercebido: essas empresas não reduziram a carga horária semanal. Os funcionários continuam trabalhando 44 horas por semana, mas agora distribuem esse tempo em cinco dias em vez de seis. No caso do Supernosso, isso significa que o expediente diário aumentou de aproximadamente 7 horas e 20 minutos para 8 horas e 48 minutos. Na RD Saúde, a situação é semelhante. A empresa reconhece que uma redução futura para 40 horas semanais exigiria novos ajustes operacionais. Ainda assim, segundo informações divulgadas, a reorganização ocorreu sem aumento significativo nos custos da operação.

No Espírito Santo, o Grupo Coutinho iniciou um projeto semelhante nas redes Extrabom, Atacado Vem e Extraplus. O teste começou em três lojas — uma em Laranjeiras, na Serra; outra em Praia das Gaivotas, em Vila Velha; e uma terceira em Vila Rubim, em Vitória. Mais de 400 trabalhadores dessas unidades já atuam no formato 5×2. O grupo anunciou a implantação gradual do novo modelo nas demais lojas capixabas, com expectativa de alcançar mais de 5 mil empregados — aproximadamente 80% dos 6,8 mil funcionários da companhia. Nem todos serão alcançados: algumas funções administrativas, logísticas ou com jornadas específicas podem permanecer em outros modelos.

Paralelamente, uma transformação ainda mais radical ocorreu no Espírito Santo. Em 2026, supermercados, mercados e atacarejos do estado deixaram de abrir aos domingos por causa de uma convenção coletiva firmada entre representantes dos trabalhadores e das empresas. O acordo vale entre 1º de março e 31 de outubro de 2026, alcançando grandes redes como Supermercados BH, Carrefour, Atacadão, Assaí e Extrabom. O Supermercados BH, que possui mais de 40 lojas no estado, informou que a folga fixa aos domingos ajudou a diminuir a rotatividade dos funcionários. Fechar aos domingos não significa, obrigatoriamente, adotar a escala 5×2, mas representa um passo significativo na mesma direção.

Por que as empresas estão fazendo isso? A resposta é simples e brutal: não conseguem mais contratar e manter pessoas com a escala 6×1. Supermercados, farmácias, restaurantes e lojas precisam preencher vagas operacionais, mas muitos candidatos passaram a priorizar oportunidades com mais tempo de descanso. A escala 5×2 virou uma ferramenta competitiva para atrair trabalhadores. Ao oferecer duas folgas, as empresas tentam diminuir faltas, afastamentos e pedidos de demissão. A folga adicional permite que o funcionário tenha mais tempo para compromissos pessoais, estudos, cuidados com a saúde e convivência familiar — coisas que a escala 6×1 tornava praticamente impossíveis.

A mudança ainda não é obrigatória no Brasil. A Câmara dos Deputados aprovou uma proposta que reduz a jornada máxima para 40 horas semanais e garante dois dias de descanso sem diminuição salarial, mas o texto segue em tramitação no Senado. A proposta prevê uma transição: primeiro, a carga máxima passaria de 44 para 42 horas semanais; depois, chegaria a 40 horas, mantendo dois dias de repouso remunerado. Até que isso se torne lei, as empresas continuam autorizadas a usar a escala 6×1, desde que respeitem a jornada máxima e os acordos coletivos. O que está acontecendo agora é que as gigantes do varejo decidiram não esperar pela lei. Elas estão se movimentando por conta própria, e essa decisão cria pressão sobre os concorrentes. Quando uma rede oferece duas folgas, outras companhias do mesmo setor podem enfrentar dificuldades para contratar mantendo apenas um dia de descanso. Por esse motivo, novas empresas podem anunciar projetos-pilotos ou ampliações da escala 5×2 nos próximos meses. A transformação deve ocorrer de forma diferente em cada setor — algumas redes manterão as 44 horas e aumentarão o expediente diário, outras poderão reduzir a carga horária ou contratar mais funcionários. Por enquanto, o fim da escala 6×1 não alcança todos os brasileiros, mas a decisão de gigantes das farmácias e dos supermercados mostra que a mudança já saiu do debate político e começou a alterar a rotina de milhares de trabalhadores.

A mudança melhorou a retenção de funcionários e tornou as vagas mais atrativas, sem diminuição nas vendas
— Grupo Supernosso
A folga fixa aos domingos ajudou a diminuir a rotatividade dos funcionários
— Supermercados BH
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