Stormy Daniels, a atriz que pode travar o regresso de Trump à Casa Branca

O espaço para a assinatura de Trump permaneceu em branco
O acordo de confidencialidade que Trump tentou usar para silenciar Daniels nunca foi assinado por ele, um detalhe legal que muda tudo.

Trump é acusado de pagar 130 mil dólares a Stormy Daniels para silenciar sobre um caso amoroso em 2006, dias antes das eleições presidenciais de 2016. O advogado Michael Cohen admitiu em tribunal ter sido instruído por Trump para efetuar o pagamento e confirmou que Daniels não foi a única pessoa paga clandestinamente.

  • Julgamento começa a 25 de março em Manhattan, com duração prevista de seis semanas
  • Trump acusado de 34 crimes de falsificação de documentos
  • Pagamento de 130 mil dólares a Stormy Daniels dias antes das eleições de 2016
  • Michael Cohen admitiu em tribunal ter sido instruído por Trump para efectuar o pagamento
  • Primeira vez na história que um ex-presidente dos EUA enfrenta julgamento criminal

Donald Trump enfrenta julgamento criminal a 25 de março em Nova Iorque, acusado de 34 crimes de falsificação de documentos relacionados com pagamento de silêncio a Stormy Daniels. É a primeira vez na história que um ex-presidente dos EUA é julgado criminalmente.

A 25 de março, Donald Trump entrará numa sala de tribunal em Manhattan e fará história — não pela primeira vez na sua vida pública, mas desta vez de uma forma que nenhum ex-presidente americano enfrentou antes. Será julgado por 34 acusações de falsificação de documentos, num processo que se espera dure seis semanas e que coloca a sua candidatura presidencial de 2024 numa encruzilhada. O juiz rejeitou o pedido da defesa para descartar todas as acusações, abrindo caminho para um julgamento que promete ser um dos mais inusitados da história política americana.

No centro desta tempestade legal está Stormy Daniels, uma mulher cuja vida percorreu caminhos que poucos teriam imaginado. Nascida em Baton Rouge, na Louisiana, com o nome Stephanie Clifford, enfrentou negligência parental desde cedo e foi abusada sexualmente aos 9 anos. Aos 16, começou a trabalhar em clubes de strip-tease para se sustentar, e pouco depois entrou na indústria cinematográfica para adultos, onde permaneceu durante mais de duas décadas. Em 2018, publicou um livro intitulado "Full Disclosure" onde contou a sua história com detalhe e sem rodeios.

Tudo começou em 2006, num torneio de golfe entre celebridades. Trump, então casado com Melania há apenas um ano, convidou Daniels para jantar na sua suite de hotel na Califórnia. Segundo o relato da atriz, Trump mencionou o seu programa de televisão "Celebrity Apprentice" e sugeriu que ela poderia participar. Num momento na casa de banho, Trump a seduziu, e ambos tiveram relações sexuais consensuais. Um ano depois, marcaram outro encontro num hotel em Beverly Hills, desta vez com o pretexto de discutir a participação de Daniels no programa. Trump manifestou interesse em relações sexuais novamente, mas desta vez Daniels recusou. Um mês depois, Trump informou-a que não seria incluída no programa.

Dias antes das eleições presidenciais de 2016, Trump instruiu o seu advogado Michael Cohen a preparar um acordo de confidencialidade. O objetivo era simples: silenciar Daniels mediante o pagamento de 130 mil dólares, distribuídos em prestações mensais de 35 mil dólares. O acordo foi assinado apenas pelos advogados; o espaço para a assinatura de Trump permaneceu em branco. Quando a história veio à luz em 2018 através do Wall Street Journal, Cohen inicialmente afirmou ter pago com o seu próprio dinheiro e que Trump nada sabia. Confrontado em tribunal, Cohen mudou a sua versão e admitiu que havia sido instruído diretamente por Trump, e que Daniels não era a única pessoa a quem se havia pago para manter silêncio. A acusação alega que Trump efectuou outros pagamentos clandestinos: 30 mil dólares a um porteiro da Trump Tower que conhecia um caso extraconjugal, e 150 mil dólares a uma mulher que afirmava ser ex-amante do magnata.

Quando o acordo se tornou público, Daniels agiu. Tentou invalidar o acordo de confidencialidade, escreveu o seu livro e concedeu entrevistas, incluindo uma ao programa "60 Minutos", onde reafirmou que a relação tinha sido consensual e que não se considerava uma vítima. Também revelou ter sido ameaçada em 2011 num parque de estacionamento, enquanto estava com a sua filha, por um homem desconhecido que a pressionava para manter silêncio sobre os encontros com Trump.

Trump negou consistentemente qualquer envolvimento ou pagamento. Na rede social Twitter, chamou-a de mentirosa e fraude — acusações que levaram Daniels a processar-o por difamação. Um juiz federal de Los Angeles decidiu em 2018 que os comentários de Trump estavam protegidos pela Primeira Emenda e não constituíam difamação. Mas esse processo foi apenas um episódio numa saga muito maior.

Agora, o foco está no que o tribunal vai determinar: se Trump violou as leis estaduais de financiamento de campanha ou falsificou registos comerciais ao registar o pagamento a Daniels como "honorários devidos". A acusação argumenta que Trump montou um esquema para suprimir informações negativas sobre si próprio, de forma a proteger a sua candidatura presidencial de 2016. Trump mantém que é vítima de perseguição política e que a defesa está a tentar influenciar as eleições de 2024. O julgamento que começa em março será o primeiro em que um ex-presidente americano enfrenta acusações criminais — um precedente histórico cujas consequências se estenderão muito além da sala de tribunal.

Michael Cohen admitiu em tribunal que foi instruído por Donald Trump para proceder ao pagamento e garantiu que Stormy Daniels não foi a única pessoa paga de forma clandestina para se manter calada
— Tribunal de Manhattan
Stormy Daniels afirmou que a relação foi consensual e que não se considerava uma vítima, mas revelou ter sido ameaçada em 2011 para manter silêncio sobre os encontros com Trump
— Stormy Daniels, programa '60 Minutos'
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que uma atriz pornográfica conseguiu colocar um ex-presidente no banco dos réus?

Model

Não foi por acaso. Daniels manteve-se firme quando a maioria das pessoas teria desaparecido. Quando o acordo de confidencialidade se tornou público, ela poderia ter aceitado o silêncio, mas em vez disso escreveu um livro, deu entrevistas, processou Trump por difamação. A sua persistência transformou um caso privado de infidelidade numa questão de direito penal.

Inventor

Mas o acordo foi assinado. Porque é que isso não a manteve calada?

Model

Porque Trump nunca assinou. O espaço para a sua assinatura ficou em branco. Isso muda tudo legalmente. Sem a assinatura dele, o acordo é questionável, e Daniels tinha direito a falar.

Inventor

Michael Cohen foi o intermediário. Porque é que ele mudou a sua história?

Model

Porque foi confrontado com a verdade em tribunal. Inicialmente mentiu, disse que tinha pago com o seu próprio dinheiro. Mas quando os advogados o pressionaram com provas, ele admitiu que Trump o tinha instruído. Cohen tinha pouco a ganhar em mentir uma vez que estava já em dificuldades legais.

Inventor

Há outras pessoas envolvidas nestes pagamentos clandestinos?

Model

Sim. Um porteiro da Trump Tower que sabia de um caso extraconjugal, uma mulher que afirmava ser ex-amante. Parece um padrão — Trump pagando para silenciar pessoas que podiam prejudicar a sua reputação, especialmente antes das eleições de 2016.

Inventor

Trump diz que é perseguição política. Tem algum fundamento?

Model

Essa é a questão central do julgamento. A defesa argumentará que sim, que tudo isto é motivado politicamente. Mas o tribunal terá de decidir se os factos — os pagamentos, a falsificação de registos — constituem crimes independentemente da motivação política por trás da acusação.

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