Stellantis admite erro do setor na avaliação da eletrificação e avanço chinês

A indústria ocidental errou na leitura de mercado
Presidente da Stellantis reconhece que o setor subestimou a velocidade da eletrificação e o avanço chinês.
Mark

Quando Zola diz que a indústria "errou" na leitura de mercado, ele está falando de um erro de previsão ou de um erro de estratégia?

Mimi

Acho que são as duas coisas. Ele deixa claro que todos sabiam que o caminho seria eletrificado. O erro não era a direção. Era não ter visto com que velocidade isso aconteceria. E enquanto a indústria ocidental deixava a pesquisa em segundo plano durante a pandemia, os chineses estavam internalizando a cadeia produtiva inteira.

Luke

Mas espera. Ele diz que não subestimaram a força da indústria chinesa, só que as projeções não foram precisas. Isso é uma distinção real ou é semântica? Porque se você não prevê que alguém vai crescer 109% em um ano, você meio que subestimou a força deles.

Mimi

É verdade. Acho que ele está tentando separar "não vimos vindo" de "ignoramos". Mas o resultado é o mesmo: a Stellantis e as outras montadoras ocidentais foram pegas de surpresa.

Mark

E quanto ao Brasil especificamente? Por que o governo não está fazendo nada para proteger a indústria local?

Mimi

Zola está dizendo que faltam regras. Sem uma taxa alta de importação, os sistemas CKD e SKD são mais baratos. As marcas chinesas não têm incentivo para comprar aço ou plástico brasileiro. É um problema de política pública.

Luke

Mas ele também está pedindo previsibilidade. Isso significa que a Stellantis quer que o governo escolha um modelo e o mantenha. Não é exatamente uma crítica — é um pedido por estabilidade regulatória.

Mark

Então a Stellantis está dizendo que pode competir, mas precisa saber as regras do jogo?

Mimi

Exatamente. Se o governo disser "vamos taxar importações pesadamente", a Stellantis pode manter seus 35 mil funcionários e sua produção nacionalizada. Se disser "vamos deixar livre", a Stellantis teria que reduzir drasticamente. Mas precisa saber qual é.

Luke

E a "redução de custos inteligente" que ele menciona no final? Isso soa como uma resposta, mas é vaga. O que significa exatamente?

Mimi

Acho que é a diferença entre cortar custos removendo qualidade e cortar custos através de design e planejamento técnico melhor. Não é tirar o conteúdo do carro, é fazer o carro melhor e mais barato ao mesmo tempo.

Mark

Mas conseguem fazer isso rápido o suficiente para acompanhar os chineses?

  • A participação das montadoras chinesas no Brasil saltou de 9% para mais de 25% em questão de meses, uma aceleração que nenhuma projeção da indústria ocidental havia antecipado.
  • Enquanto as montadoras tradicionais terceirizavam sua cadeia produtiva durante a pandemia, as chinesas verticalizavam — e essa diferença estrutural agora se traduz em preços que pressionam todo o mercado de zero km.
  • O Brasil importou 406,7 mil veículos nos primeiros oito meses do ano, mais da metade vindos da China, muitos deles montados em sistemas CKD e SKD que contornam a cadeia produtiva nacional.
  • A Stellantis alerta que, sem regras claras de conteúdo local, nenhuma montadora instalada no país consegue competir em igualdade com importadores que ignoram fornecedores brasileiros de aço, plástico e componentes.
  • A empresa busca uma redução de custos que não esvazie o valor do produto e acelera sua transição para elétricos e híbridos — mas ainda corre atrás de concorrentes que já dominam esse terreno.

Diante do avanço silencioso e acelerado das montadoras chinesas no Brasil, a Stellantis escolheu um caminho incomum no mundo corporativo: a confissão. Seu presidente para a América do Sul reconheceu que a indústria ocidental, como um todo, errou ao não perceber a velocidade com que a eletrificação redefiniria as forças do mercado global. É um momento raro em que uma grande corporação olha para o espelho da história e nomeia o que vê — não como derrota, mas como ponto de partida para uma reorientação necessária.

Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, usou uma palavra rara no vocabulário executivo: erro. Não um erro pontual, mas um fracasso coletivo da indústria automotiva ocidental em avaliar a velocidade com que a eletrificação se tornaria central no mercado global. Todos sabiam que o futuro seria elétrico — o problema era que ninguém previu o ritmo com que isso aconteceria, e os chineses souberam aproveitar essa janela.

Os números confirmam a dimensão da virada. A participação chinesa no mercado brasileiro foi de 9% no ano anterior, chegou a 17% neste ano e ultrapassou 25% no último mês. Zola não atribuiu isso a uma subestimação da força chinesa, mas à imprecisão das projeções sobre a velocidade desse avanço. Durante a pandemia, as montadoras ocidentais desviaram atenção para crises logísticas — falta de peças, escassez de semicondutores — enquanto as chinesas internalizavam etapas produtivas e construíam uma estrutura de custos muito mais competitiva.

O executivo também apontou o ambiente regulatório brasileiro como parte do problema. Não há incentivos para que as montadoras instaladas no país comprem componentes de fornecedores locais. As marcas chinesas que chegam via sistemas CKD e SKD — veículos desmontados ou parcialmente desmontados e montados aqui — não utilizam aço, plástico nem cadeia automotiva brasileira. Isso lhes dá uma vantagem de preço que pressiona todo o mercado.

Zola pediu ao governo que defina com clareza qual modelo industrial quer para o Brasil. Sem essa definição, a lógica econômica favorece a importação. A Stellantis, por sua vez, aposta em uma redução de custos planejada — que preserve o valor do produto — e corre para preencher lacunas em elétricos e híbridos que seus concorrentes já ocupam.

Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, sentou-se para uma entrevista na terça-feira e usou uma palavra que raramente sai da boca de um executivo de montadora: erro. Não foi um deslize tático, não foi uma leitura imprecisa de um segmento menor. Foi um erro da indústria automotiva ocidental inteira — um fracasso coletivo em avaliar a velocidade com que a eletrificação se tornaria central no mercado global.

Todos sabiam que o caminho seria eletrificado, Zola explicou. O problema não era a direção. Era a velocidade. A indústria ocidental errou ao ler o mercado, ao projetar com que rapidez algumas tecnologias avançariam. E enquanto isso, os chineses ganharam o protagonismo no desenvolvimento desses veículos. Zola comanda na região marcas como Fiat, Jeep, RAM e Leapmotor — um portfólio que ilustra bem a posição da Stellantis: entre o legado ocidental e a necessidade de abraçar o futuro.

Os números revelam a escala da aceleração que ninguém conseguia prever. No ano anterior, a participação chinesa no Brasil acumulada foi de 9%. Neste ano, chegou a 17%. No último mês, ultrapassou 25%. Essa trajetória não era previsível dessa forma, admitiu o executivo. Não era uma questão de subestimar a força da indústria chinesa — Zola negou isso explicitamente. Era uma questão de as projeções sobre o avanço dessas marcas não terem sido precisas.

Por trás dessa aceleração, Zola identificou erros de avaliação do setor que vão além da eletrificação. Durante a pandemia, as montadoras ocidentais deixaram o desenvolvimento técnico e a pesquisa em segundo plano, priorizando problemas logísticos imediatos: falta de peças, escassez de semicondutores. Enquanto isso, a indústria automotiva ocidental terceirizou e descentralizou parte da cadeia produtiva. As montadoras chinesas fizeram o caminho inverso. Internalizaram etapas que antes eram realizadas por fornecedores. Verticalizaram a produção. E conseguiram, através dessa estrutura, um nível de competitividade muito maior.

Mas Zola não culpou apenas o setor. Também apontou as condições do mercado brasileiro. Não há regras que incentivem as montadoras instaladas no país a comprar componentes de fornecedores brasileiros — pneus, amortecedores, molas, plásticos, aço. Isso geraria custos maiores que os de concorrentes estrangeiros. O aço chinês é muito mais barato que o aço brasileiro. Qual marca chinesa compra aço no Brasil hoje? Qual compra plástico? Qual usa a cadeia automotiva brasileira? Nenhuma. Nos oito primeiros meses do ano, o Brasil importou 406,7 mil veículos — 29,8% a mais que no mesmo período do ano anterior. Mais da metade veio da China: 221 mil veículos, uma alta de 109,9%.

Grande parte desse crescimento veio de modelos montados em sistemas CKD e SKD — veículos que chegam ao Brasil desmontados ou parcialmente desmontados e são montados aqui. As marcas chinesas adotam amplamente esse modelo porque os custos são menores que os de uma produção nacionalizada. Isso lhes dá margem para praticar preços que pressionam o mercado de carros zero km. Se a Stellantis adotasse esses sistemas, sua operação poderia ter apenas 10% do tamanho atual. Hoje, a empresa tem cerca de 35 mil funcionários.

Zola pediu ao governo brasileiro que identifique qual modelo quer para a indústria. Sem uma taxa alta de importação, o modelo de SKD e CKD é mais interessante, sem dúvida. A palavra importante no negócio é previsibilidade. Qual é o modelo que vai se ajustar melhor àquilo que o Brasil quer para si como indústria? Esse é um tema que precisa ser debatido. Por enquanto, a estratégia da Stellantis é entender as novas necessidades do cliente, acelerar soluções e promover uma redução de custos inteligente — não aquela que tira o conteúdo do carro, mas aquela que é planejada, pensada, desenvolvida sob o ponto de vista técnico e de design, que melhora o custo sem degradar o valor para o cliente. Todos os caminhos que a empresa está trilhando agora a levam a tentar neutralizar as vantagens que vê em concorrentes que já oferecem soluções 100% elétricas, híbridos plug-in e híbridos plenos que ela ainda não tem em algumas marcas.

A palavra correta é erro. A indústria ocidental errou na leitura de mercado daquilo que poderia se estabelecer em termos de velocidade de avanço de algumas tecnologias.
— Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul
Essa aceleração ninguém conseguia prever desse jeito
— Herlander Zola, sobre o crescimento da participação chinesa no Brasil
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