Em setembro de 2026, o mercado brasileiro de debêntures de infraestrutura chegou a um ponto de ruptura silenciosa: os spreads atingiram seu maior nível desde 2024, revelando uma erosão de confiança que não é apenas técnica, mas estrutural. Defaults de grandes empresas, a transformação do modelo de assessoria financeira e a fuga do investidor pessoa física compõem um quadro em que o crédito existe, mas o encontro entre quem precisa e quem pode oferecer tornou-se improvável. Como em outros momentos da história financeira, a crise de um segmento carrega, para poucos, a geometria de uma oportunida
Spreads de debêntures de infra atingem máxima desde 2024; fundos enfrentam perdas
O mercado está cheio de oportunidades para quem encarar o risco
Por que os spreads subiram tanto? Isso é só porque as empresas estão quebrando?
Não é só isso. Sim, os defaults da Raízen e GPA abalaram a confiança. Mas há algo estrutural acontecendo: o modelo de negócio da assessoria financeira está mudando. Menos comissões, mais taxas fixas. Isso significa menos recomendação desses papéis.
Espera — você está dizendo que a demanda caiu porque os assessores ganham menos comissão? Isso é um fator real ou é especulação de um gestor?
É o que um gestor de fundo de crédito disse ao repórter. Não há dados públicos quantificando exatamente quanto dessa queda vem daí versus do risco de crédito puro.
E as emissões caíram 98%. Isso significa que as empresas simplesmente não conseguem financiamento?
Não exatamente. Elas querem emitir, mas o custo está muito alto. E com menos demanda de investidores, elas não conseguem colocar os papéis. É um círculo vicioso.
Mas em setembro as emissões voltaram a crescer, certo? Então talvez não seja tão desesperador.
Voltaram a crescer, sim, mas ainda muito abaixo de 2025. Um banqueiro diz que depende da perspectiva para os juros. Se os juros caírem, o custo do crédito cai, e a demanda volta.
E esses gestores que estão comprando agora — eles sabem algo que os outros não sabem, ou estão apenas apostando em uma recuperação?
Provavelmente estão apostando em recuperação. Eles dizem que a relação risco-retorno está boa agora. Mas isso é uma aposta, não uma certeza.
Quanto tempo eles têm para esperar essa recuperação? Porque se os juros subirem mais, esses spreads podem ficar ainda piores.
Boa pergunta. O artigo não diz. Mas gestores de fundos de infraestrutura geralmente têm horizontes longos — anos, não meses.
The Pulse
- Os spreads das debêntures de infraestrutura mais negociadas chegaram a 0,74 ponto percentual — bem acima da média histórica de 0,57 —, sinalizando que o mercado precifica risco crescente e desconfiança generalizada.
- Defaults de empresas como Raízen e GPA sacudiram a base de investidores ao longo do ano, e a marcação a mercado dos fundos deve registrar perdas expressivas em setembro, aprofundando a retirada de capital do segmento.
- A migração da assessoria financeira para o modelo fee-based reduziu drasticamente o incentivo para recomendar esses títulos, esvaziando a participação de pessoas físicas, que eram pilar fundamental da demanda.
- As emissões despencaram 98% em agosto ante o mesmo mês de 2025, atingindo o menor volume desde janeiro de 2019, enquanto empresas que precisam de crédito se deparam com um custo proibitivo e um mercado em paralisia.
- Gestores como Rafael Fritsch, da Root Capital, e a equipe da Leto Capital enxergam no estresse atual uma janela para capturar prêmios no mercado secundário, apostando em recuperação para quem tem horizonte longo e tolerância ao risco.
Em setembro de 2026, o mercado brasileiro de debêntures de infraestrutura chegou a um ponto de ruptura silenciosa: os spreads atingiram seu maior nível desde 2024, revelando uma erosão de confiança que não é apenas técnica, mas estrutural. Defaults de grandes empresas, a transformação do modelo de assessoria financeira e a fuga do investidor pessoa física compõem um quadro em que o crédito existe, mas o encontro entre quem precisa e quem pode oferecer tornou-se improvável. Como em outros momentos da história financeira, a crise de um segmento carrega, para poucos, a geometria de uma oportunidade.
As debêntures de infraestrutura brasileiras chegaram a setembro de 2026 em seu pior momento desde 2024. Os spreads — o prêmio pago em relação aos títulos públicos de mesmo prazo — atingiram 0,74 ponto percentual entre os papéis mais líquidos, superando com folga a média histórica de 0,57. Na mediana geral acompanhada pela Anbima, o número é menor, mas a deterioração é inegável: até março, os spreads eram negativos, e investidores aceitavam retornos mais baixos por esses ativos. Tudo mudou depois disso.
A virada foi alimentada por múltiplos choques simultâneos. Defaults de empresas de grande porte como Raízen e GPA abalaram a confiança do mercado, e a marcação a mercado dos fundos de infraestrutura deve gerar perdas relevantes em setembro — o que tende a afastar ainda mais capital do segmento. Mas o problema não é apenas de crédito. A expansão do modelo fee-based na assessoria financeira reduziu o incentivo para recomendar debêntures de infraestrutura, historicamente remuneradas por comissões elevadas. Com menos assessores indicando esses papéis, o investidor pessoa física — fonte importante de demanda — praticamente desapareceu do mercado.
O reflexo nas emissões é contundente. Em agosto, as empresas captaram apenas R$ 170 milhões nessa categoria, o menor volume desde janeiro de 2019, representando uma queda de 98% em relação a agosto de 2025. Setembro trouxe leve alívio, mas os volumes permanecem muito abaixo dos patamares do ano anterior. Um banqueiro do setor reconhece que há demanda reprimida das empresas, mas pondera que uma recuperação consistente dependerá da trajetória dos juros.
Para uma minoria de gestores, porém, o estresse cria oportunidade. Rafael Fritsch, CIO da Root Capital, recém-lançou um fundo de infraestrutura listado em bolsa com foco em capturar prêmios no mercado secundário — comprando papéis desvalorizados e aguardando a normalização. A Leto Capital vai na mesma direção, argumentando que as debêntures de infraestrutura oferecem hoje a melhor relação risco-retorno entre as subcategorias de crédito privado, o que levou a gestora a ampliar gradualmente sua exposição. Para a maioria dos investidores, contudo, 2026 tem sido um ano de perdas, incerteza e distância cautelosa.
As debêntures de infraestrutura brasileira chegaram a um ponto de inflexão neste setembro. Os spreads — o prêmio que esses títulos pagam em relação aos títulos públicos de mesmo prazo — atingiram seu maior nível desde 2024, sinalizando uma crise de confiança que vem se aprofundando ao longo do ano. Na mediana dos papéis acompanhados pela Anbima, o spread está em 0,4 ponto percentual. Mas entre os títulos mais negociados, a situação é mais grave: 0,74 ponto percentual, bem acima da média histórica de 0,57.
Essa deterioração não é gradual. Até março deste ano, os spreads eram negativos — investidores estavam dispostos a aceitar retornos menores por esses papéis. Depois, tudo mudou. A marcação a mercado dos fundos que investem em debêntures de infraestrutura deve resultar em perdas significativas em setembro, o que provavelmente afastará ainda mais capital desse segmento. O ano foi marcado por volatilidade brutal, agravada por defaults de empresas de peso como Raízen e GPA, que abalaram a confiança dos investidores.
Mas há mais do que apenas risco de crédito em jogo. O mercado de assessoria financeira está mudando. Com a expansão dos modelos fee-based — onde o assessor cobra uma taxa fixa em vez de comissões por produto — há menos incentivo para recomendar debêntures de infraestrutura, que historicamente pagam comissões elevadas. Isso reduziu drasticamente a participação de pessoas físicas no mercado, que eram uma fonte importante de demanda. Um gestor de fundo de crédito resume o problema: além dos riscos de default, a mudança no modelo de negócio da assessoria financeira esvaziou a base de compradores.
O resultado é visível nas emissões. Em agosto, as empresas emitiram apenas R$ 170 milhões em debêntures de infraestrutura — o menor volume desde janeiro de 2019. Isso representa uma queda de 97,5% em relação a julho e de 98% comparado a agosto de 2025. O cenário é de paralisia: as empresas precisam de crédito, mas o custo está proibitivo, e os investidores estão fugindo. Setembro viu um pequeno alívio nas emissões, mas os volumes continuam muito abaixo dos patamares de 2025. Um banqueiro que trabalha com operações de dívida explica que o mercado tem sazonalidade e existe demanda reprimida das empresas, mas uma recuperação consistente dependerá da perspectiva para os juros.
Para alguns gestores, porém, a pressão no mercado cria oportunidades. Rafael Fritsch, CIO da Root Capital, que acaba de lançar um fundo de infraestrutura listado em bolsa, vê o momento como interessante para capturar prêmios no mercado secundário — comprar papéis que caíram de preço e esperar a recuperação. Os gestores da Leto Capital vão além: argumentam que as debêntures de infraestrutura oferecem agora a melhor relação risco-retorno entre as subcategorias de crédito privado, o que os levou a aumentar gradualmente sua exposição na categoria. Para quem tem apetite para risco e horizonte de longo prazo, o mercado oferece oportunidades. Para a maioria dos investidores, porém, 2026 tem sido um ano de perdas e incerteza.
Notable Quotes
Com a expansão do modelo fee-based de assessoria financeira, há menos assessores recomendando esses papéis, o que tem reduzido a participação das pessoas físicas nesse mercado— Gestor de fundo de crédito
Com o mercado sofrendo, é um momento interessante para capturar os prêmios do mercado secundário— Rafael Fritsch, CIO da Root Capital