No limiar de uma das maiores transformações fiscais do Brasil em décadas, o Comitê Gestor do IBS anunciou que o split payment — mecanismo pensado para automatizar a separação de tributos no ato do pagamento — não estará operacional quando CBS e IBS entrarem em vigor em janeiro de 2027. A complexidade técnica do sistema e as demandas das instituições financeiras revelam que reformar a arquitetura tributária de um país é uma obra de longa maturação, onde a ambição do desenho frequentemente supera o ritmo das engrenagens. O adiamento não cancela a travessia, mas reposiciona o passo: o sistema che
Split payment da reforma tributária será adiado para além de janeiro de 2027
Serão mais de 1000 sistemas. Na frente, para quem chegar lá, ele vai enxergar uma coisa só.
Por que o split payment é tão complexo de implementar? Parece ser apenas uma separação automática de valores.
Parece simples na teoria, mas na prática envolve integrar sistemas de milhares de instituições financeiras que operam com tecnologias diferentes, algumas delas muito antigas. Cada banco tem sua própria arquitetura, seus próprios repositórios de dados. Sincronizar tudo isso em tempo real, para milhões de transações diárias, é um desafio de engenharia que ninguém tinha feito antes no Brasil.
E por que os bancos pediram mais tempo especificamente?
Porque eles seriam os executores da operação. Não é o governo que vai separar o imposto — são os bancos, nos seus sistemas de pagamento. Eles precisam testar, validar, garantir que não há erros. Um erro em larga escala poderia significar bilhões em impostos não recolhidos ou retidos incorretamente.
O RAD, o recolhimento antecipado, parece prejudicar as empresas. Por que oferecer isso?
Oferece flexibilidade. Algumas empresas, especialmente as maiores, conseguem se beneficiar ao antecipar créditos tributários. Mas é verdade que para a maioria das pequenas e médias empresas, antecipar o pagamento de impostos aperta o caixa. Por isso é opcional — cada empresa escolhe o que funciona melhor para ela.
A reforma está sendo implementada em 2027, mas os percentuais ainda não são definitivos. Isso não é arriscado?
É por isso que chamam de "alíquotas para testar a base". Ninguém sabe exatamente quanto de imposto será arrecadado com as novas regras até que o sistema funcione de verdade. Os percentuais de 2027 são experimentais. Eles vão ajustar conforme os dados reais chegarem.
E a desinformação nas redes sociais — isso é um problema real ou exagero?
É real. Quando você tem uma reforma tributária dessa magnitude, com regras novas, prazos apertados e muita incerteza, as pessoas ficam ansiosas. Influenciadores ganham audiência falando sobre "armadilhas" ou "surpresas" da reforma. O Comitê Gestor está percebendo que precisa contar sua própria história, não deixar que outros contem por eles.
El Pulso
- O split payment, peça central da modernização tributária, não estará pronto para janeiro de 2027 — o prazo foi reconhecido como inviável tanto pelo governo quanto pelos bancos responsáveis pela execução.
- Instituições financeiras alertaram que integrar milhões de transações diárias aos sistemas legados exige mais tempo do que o calendário original permitia, forçando uma revisão do cronograma.
- Como alternativa imediata, o RAD (Recolhimento pelo Adquirente) estará disponível em 2027 de forma opcional, mas inverte a lógica tradicional e levanta preocupações sobre o fluxo de caixa das empresas.
- As alíquotas cobradas no próximo ano serão experimentais — o Comitê admite que só em 2027, com o sistema pleno, será possível calibrar os percentuais que preservam a arrecadação atual.
- Desinformação nas redes sociais sobre a reforma tributária obriga o Comitê Gestor a intensificar sua comunicação pública, enquanto a instituição se consolida com a eleição de dez diretores e busca sede em Brasília.
No limiar de uma das maiores transformações fiscais do Brasil em décadas, o Comitê Gestor do IBS anunciou que o split payment — mecanismo pensado para automatizar a separação de tributos no ato do pagamento — não estará operacional quando CBS e IBS entrarem em vigor em janeiro de 2027. A complexidade técnica do sistema e as demandas das instituições financeiras revelam que reformar a arquitetura tributária de um país é uma obra de longa maturação, onde a ambição do desenho frequentemente supera o ritmo das engrenagens. O adiamento não cancela a travessia, mas reposiciona o passo: o sistema chegará de forma opcional e gradual, enquanto o país aprende a caminhar com novos impostos.
O mecanismo que deveria tornar automática a cobrança dos novos tributos da reforma tributária não estará pronto quando CBS e IBS começarem a ser cobrados. O Comitê Gestor do IBS anunciou nesta quarta-feira que o split payment — sistema pelo qual os bancos separariam instantaneamente o valor do imposto de cada transação, enviando os tributos à Receita Federal e ao Comitê enquanto a empresa recebe apenas o valor líquido — terá sua implementação adiada para além de janeiro de 2027.
Pricilla Santana, secretária da Fazenda do Rio Grande do Sul e segunda vice-presidente do Comitê, deixou claro que o pedido não partiu apenas do governo: as próprias instituições financeiras solicitaram mais tempo para adaptar seus sistemas legados à complexidade de milhões de transações diárias. Quando o split payment finalmente entrar em operação, será opcional e restrito a transações entre empresas.
Enquanto isso, outro mecanismo estará disponível já em 2027: o RAD, no qual o comprador antecipa o pagamento do imposto que normalmente caberia ao fornecedor. O modelo inverte a lógica tradicional e gera dúvidas sobre o fluxo de caixa, embora possa beneficiar empresas que hoje esperam longamente por créditos tributários.
A reforma concentra vários tributos em dois novos impostos: a CBS, que substitui PIS e Cofins a partir de 2027, e o IBS, que absorverá ICMS e ISS até o fim de 2032. Santana alertou que as alíquotas do próximo ano devem ser lidas como valores de teste para calibrar a base tributária — os percentuais definitivos só serão conhecidos quando o sistema operar em plena capacidade.
O Comitê também enfrenta um desafio de narrativa: influenciadores e canais de economia nas redes sociais têm espalhado informações imprecisas sobre a reforma, e a instituição pretende ampliar sua comunicação pública. Na mesma reunião, foram eleitos dez diretores, estruturando formalmente o Comitê, que ainda busca sede em Brasília e aguarda o repasse de recursos pelo Ministério da Fazenda para iniciar suas operações plenas.
O sistema automático que deveria facilitar a cobrança dos novos impostos da reforma tributária não estará pronto quando a máquina começar a funcionar. O split payment, ferramenta criada para separar automaticamente os tributos no momento do pagamento, não entrará em operação em janeiro de 2027, quando a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) começam a ser cobrados. A decisão de adiar o sistema foi anunciada pelo Comitê Gestor do IBS nesta quarta-feira, em reunião que revelou as dificuldades técnicas e operacionais de implementar uma das peças mais complexas da maior reforma tributária do país em duas décadas.
Pricilla Santana, secretária da Fazenda do Rio Grande do Sul e segunda vice-presidente do Comitê Gestor, deixou claro que o pedido de adiamento não veio apenas do governo. As instituições financeiras, que seriam responsáveis por executar a separação automática dos impostos, também solicitaram mais tempo. No split payment, os bancos receberiam a informação de uma transação e, instantaneamente, separariam o valor do imposto do valor da venda, enviando os tributos para a Receita Federal e para o Comitê Gestor formado por estados e municípios, enquanto a empresa receberia apenas o dinheiro referente ao produto ou serviço. A complexidade da operação, envolvendo milhões de transações diárias e a integração com sistemas legados de instituições financeiras, exigiu mais tempo do que o previsto.
Quando o split payment finalmente começar, ele será opcional e funcionará apenas em operações entre empresas. Paralelamente, outro mecanismo de recolhimento também opcional estará disponível já em 2027: o RAD (Recolhimento pelo Adquirente), no qual o comprador antecipa o pagamento do imposto que normalmente seria recolhido pelo fornecedor. Esse modelo inverte a lógica tradicional e gera preocupações sobre o fluxo de caixa das empresas, embora algumas companhias possam se beneficiar ao antecipar o recebimento de créditos tributários, um problema crônico do sistema atual.
A reforma criou um modelo de IVA dual, concentrando diversos tributos em duas guias de pagamento. A CBS vai para a Receita Federal, substituindo o PIS e a Cofins a partir de 2027. O IBS vai para o Comitê Gestor, substituindo o ICMS estadual e o ISS municipal em um período de transição que se estende até o final de 2032. Pricilla Santana ressaltou que apenas em 2027, com o sistema funcionando plenamente, será possível apurar qual alíquota mantém a arrecadação dos tributos atuais. Por isso, os percentuais cobrados no próximo ano devem ser entendidos como "alíquotas para testar o tamanho da base", não como valores definitivos.
O Comitê Gestor também enfrentará um desafio de comunicação. Influenciadores e canais de economia nas redes sociais têm disseminado informações imprecisas sobre a reforma tributária, causando confusão entre o público. Luis Felipe Vidal Arellano, secretário municipal da Fazenda de São Paulo e primeiro vice-presidente do Comitê, reconheceu que embora alguns criadores de conteúdo ajudem a esclarecer aspectos da reforma, outros desinformam. A instituição pretende intensificar sua comunicação com a sociedade para explicar as entregas que está fazendo e ajudar a população a compreender o que é a reforma tributária.
Na reunião desta quarta, foram eleitos dez diretores do Comitê Gestor do IBS, estruturando a instituição que até então funcionava por meio de comissões temporárias. Flávio César Mendes de Oliveira, presidente do Comitê e secretário do Mato Grosso do Sul, afirmou que a instituição agora está formada em sua plenitude. Ele também informou que o Comitê ainda estuda o local para sua sede administrativa em Brasília. Quanto aos recursos para operação, o dinheiro está disponível desde o ano passado, mas ainda não foi repassado pelo Ministério da Fazenda. Oliveira disse estar em fase final de tratativas com o ministério e com os bancos envolvidos para deliberar sobre isso no Conselho Superior em breve.
Para gerenciar a complexidade da arrecadação, Pricilla Santana defendeu a construção de uma plataforma própria do Comitê Gestor que funcionará em paralelo ao sistema desenvolvido pela Receita Federal e pelo Serpro. Embora existam múltiplos sistemas por trás, a plataforma se apresentará como uma interface única para o contribuinte. O projeto é liderado pelo Rio Grande do Sul. Os sistemas de arrecadação e apuração funcionarão integrados à Receita Federal, usando o mesmo repositório de informações. Já a distribuição dos recursos é privativa do Comitê, pois precisa considerar a mudança da tributação na origem para o destino e as regras de compensação que se estenderão pelos próximos 70 anos.
Atualmente, o Comitê acompanha o cumprimento da obrigação de emitir notas fiscais com informações sobre CBS e IBS, sem recolhimento efetivo do tributo neste momento. O número de empresas adaptadas tem crescido. A intenção não é autuar contribuintes por descumprimento de obrigações acessórias, mas notificá-los para que se regularizem antes de 2027, quando a fiscalização efetiva começará. O objetivo é dar tempo para que as empresas entendam suas obrigações e estejam em conformidade quando o sistema entrar em operação plena.
Citas Notables
O split payment é uma das ferramentas mais complexas de ser implementada. Não começará em janeiro.— Pricilla Santana, secretária da Fazenda do Rio Grande do Sul
Temos identificado em redes sociais influenciadores desinformando, passando imprecisões que mais causam confusão do que ajudam.— Luis Felipe Vidal Arellano, secretário municipal da Fazenda de São Paulo