Guilherme Boulos (PSOL), coordenador do MTST, venceu com 1.001.453 votos, mas três dos quatro mais votados apoiam Bolsonaro. Rosângela Moro conquistou 217.166 votos em sua primeira candidatura; Tiririca se reelegeu pela quarta vez com desempenho inferior.
SP elege líder de sem-teto, mulher de Moro e Tiririca para Câmara
A direita mantém força em São Paulo, mas as fraturas se abriram
Como é possível Boulos ganhar com mais de um milhão de votos se três dos quatro mais votados apoiam Bolsonaro?
São Paulo é grande demais para uma única narrativa. Boulos mobilizou seu eleitorado de esquerda intensamente, mas isso não significa que a direita perdeu força. Os números mostram que ambas as forças estão presentes.
Mas precisamos ser precisos: Boulos tem 1 milhão, Eduardo Bolsonaro tem 741 mil, Carla Zambelli tem 946 mil. Então tecnicamente dois dos quatro mais votados apoiam Bolsonaro, não três.
Verdade. E Ricardo Salles é o quarto com 640 mil. Então sim, três dos quatro.
E Rosângela Moro? Como uma advogada desconhecida consegue se eleger na primeira tentativa?
Ela tinha o sobrenome Moro, que é poderoso em São Paulo. Mas também enfrentou obstáculos legais reais. O tribunal rejeitou a mudança de domicílio de seu marido antes de autorizar sua candidatura.
E ainda assim ela entrou. Com 217 mil votos. Não é um número pequeno, mas também não é explosivo. A questão é: quanto daquele voto era dela, quanto era o nome do marido?
E Joice Hasselmann? Como alguém cai de um milhão para treze mil votos?
Ela rompeu com Bolsonaro. Quando você faz isso, perde a base que te elegeu. É uma lição política clara.
Mas também precisamos saber: ela tentou se reinventar? Mudou de partido? Porque a queda é tão dramática que sugere não apenas desgaste, mas rejeição ativa.
Ela se filiou ao PSDB, tentou se reposicionar. Mas o dano estava feito. Seu eleitorado de 2018 era bolsonarista, e ela virou crítica do presidente.
E Tiririca? Como alguém que foi o mais votado do país em 2010 cai para 71 mil votos?
Tiririca é um caso de desgaste puro. Ele mesmo ameaçou abandonar a política várias vezes. Seu apelo inicial era a novidade, o humor. Depois de quatro mandatos, isso se esgota.
Mas ele se reelegeu mesmo assim. Isso significa que 71 mil votos ainda é suficiente para uma cadeira. O sistema permite isso.
Der Puls
- Guilherme Boulos (PSOL) venceu com 1.001.453 votos
- Rosângela Moro se elegeu com 217.166 votos em sua primeira candidatura
- Joice Hasselmann caiu de 1.078.666 votos (2018) para 13.679 votos (2022)
- Tiririca se reelegeu pela quarta vez com 71.752 votos, queda de 453.855 em 2018
- Três dos quatro mais votados apoiam Bolsonaro: Eduardo Bolsonaro (741.684), Carla Zambelli (946.222) e Ricardo Salles (640.908)
Guilherme Boulos (PSOL), coordenador do MTST, venceu com 1.001.453 votos, mas três dos quatro mais votados apoiam Bolsonaro. Rosângela Moro conquistou 217.166 votos em sua primeira candidatura; Tiririca se reelegeu pela quarta vez com desempenho inferior.
São Paulo elegeu sua bancada federal para 2023 com Guilherme Boulos (PSOL) como campeão de votos, seguido por aliados bolsonaristas. Rosângela Moro, mulher do ex-juiz Sergio Moro, se elegeu pela primeira vez, enquanto Joice Hasselmann desabou de 1 milhão para 13 mil votos.
Guilherme Boulos cruzou a linha de chegada com mais de um milhão de votos. O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto conquistou 1.001.453 votos nas eleições de 2022, tornando-se o deputado federal mais votado em São Paulo e no Brasil. Mas a história da bancada paulista que tomará assento na Câmara em fevereiro de 2023 não é apenas sobre a vitória da esquerda. Três dos quatro candidatos mais votados no estado apoiam Jair Bolsonaro, sinalizando que, quatro anos depois do terremoto bolsonarista de 2018, a direita mantém sua força nas urnas paulistas.
Boulos havia desistido de disputar o governo de São Paulo em março, optando por fortalecer a esquerda no Congresso Nacional. Sua trajetória eleitoral inclui uma candidatura à prefeitura em 2020, quando avançou ao segundo turno antes de perder para Bruno Covas. Desta vez, sua votação o colocou à frente de Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e Ricardo Salles, todos do campo bolsonarista.
A bancada que se forma é um mosaico de figuras políticas de naturezas muito distintas. Rosângela Moro, mulher do ex-juiz federal Sergio Moro, se elegeu pela primeira vez com 217.166 votos. Sua candidatura enfrentou obstáculos: o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo havia rejeitado a mudança de domicílio eleitoral de seu marido do Paraná para São Paulo em junho, mas autorizou sua candidatura duas semanas antes do pleito, entendendo que ela comprovara vínculo com a capital através de atividades profissionais. Sergio Moro, por sua vez, conseguiu se eleger senador pelo Paraná. Também integra a bancada Tiririca, o comediante que assegurou seu quarto mandato consecutivo com 71.752 votos, embora seu desempenho tenha sido muito inferior ao de pleitos anteriores.
A trajetória de Tiririca ilustra a volatilidade do voto em São Paulo. Em 2010, em sua primeira eleição, recebeu 1.353.820 votos, o maior número do país naquele ano. Quatro anos depois, se reelegeu com 1.016.796 votos, ficando em segundo lugar. Em 2018, sua votação caiu para 453.855. Desta vez, com apenas 71.752 votos, manteve o mandato mas com um desempenho que reflete seu apagamento político. Em campanha, apelou para uma paródia da música "O Portão", de Roberto Carlos, usando peruca e paletó azul.
Entre os aliados bolsonaristas, Eduardo Bolsonaro se reelegeu com 741.684 votos, uma queda significativa em relação aos 1.843.735 que recebeu em 2018, quando foi o mais votado do país. Carla Zambelli contabilizou 946.222 votos, mais de doze vezes os 76.306 que somou há quatro anos em sua primeira disputa. Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente, foi o quarto mais votado com 640.908 votos. Durante sua gestão, o Brasil assistiu ao aumento recorde de queimadas e desmatamento. Em abril de 2020, em reunião ministerial no Palácio do Planalto, Salles sugeriu que o governo aproveitasse o foco da imprensa na pandemia de Covid-19 para "ir passando a boiada" na área ambiental. Pediu exoneração do cargo em junho de 2021, em meio a investigação da Polícia Federal sobre um esquema de contrabando de madeira.
A eleição também marcou o fim de trajetórias políticas. Joice Hasselmann, jornalista que havia sido estrela do bolsonarismo em 2018 com 1.078.666 votos, a segunda maior votação daquele ano, rompeu com o presidente e viu sua votação despencar para apenas 13.679 votos, ficando de fora da Câmara. Alexandre Frota, ator que havia se elegido deputado federal em 2018 aproveitando a onda bolsonarista, também rompeu com Bolsonaro e hoje é crítico do presidente. Concorreu a deputado estadual em São Paulo neste ano e recebeu 24.223 votos, insuficientes para se eleger. Também ficaram de fora o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que recebeu apenas 5.044 votos, além de deputados como Vicentinho e Paulinho da Força.
Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira e conhecido como "príncipe", se reelegeu com 79.209 votos. Trineto da Princesa Isabel, tetraneto de dom Pedro 2º e hexaneto de dom João 6º, o deputado bolsonarista e monarquista mantém sua cadeira na Câmara. A bancada que se forma reflete tanto a persistência do bolsonarismo em São Paulo quanto as fraturas que se abriram dentro daquele movimento, com figuras que romperam com o presidente vendo suas votações desabarem.
Bemerkenswerte Zitate
Ricardo Salles sugeriu que o governo aproveitasse o foco da imprensa na pandemia para 'ir passando a boiada' na área ambiental— Reunião ministerial no Palácio do Planalto, abril de 2020