Nós somos a peça que falta nesse mapa
Flávio posiciona Brasil como parte faltante de onda conservadora que domina América Latina, citando Trump, Milei e outros líderes de direita eleitos recentemente. Candidato critica governo Lula por alianças com Irã e Hamas, promete restaurar relações diplomáticas plenas com Israel e aderir ao Escudo das Américas de Trump.
- Flávio Bolsonaro discursou em Buenos Aires para comunidade judaica global no domingo
- Reunião agendada com presidente Javier Milei na residência oficial de Olivos na segunda-feira
- Brasil sem embaixador em Israel desde 2024; Bolsonaro promete restaurar relações no primeiro dia de governo
- Candidato defende entrada do Brasil no Escudo das Américas de Trump se eleito
- Campanha reconhece erros dos últimos meses, especialmente impacto negativo das tarifas de Trump
Candidato presidencial Flávio Bolsonaro discursa em Buenos Aires afirmando que Brasil é a peça que falta no mapa de governos de direita latino-americanos, e se reúne com Javier Milei para fortalecer alianças regionais.
Flávio Bolsonaro estava em Buenos Aires no domingo à noite, discursando para uma plateia da comunidade judaica global, e a mensagem era clara: o Brasil é o que falta para completar um mapa inteiro de governos de direita que varrem a América Latina. "Nós somos a peça que falta nesse mapa", disse o senador e candidato presidencial, olhando para uma região que, segundo sua narrativa, já havia escolhido a ordem sobre o caos nas urnas.
O discurso foi um catálogo geográfico de vitórias conservadoras. Começou pelos Estados Unidos com Donald Trump, desceu para a Argentina de Javier Milei — o presidente que o receberia na manhã seguinte em Olivos — e seguiu enumerando: Chile com José Antonio Kast, Peru com Keiko Fujimori (cuja eleição a esquerda contestou sem provas, segundo Bolsonaro), Colômbia com Abelardo de la Espriella, Bolívia que se libertou de quase duas décadas de hegemonia socialista elegendo Rodrigo Paz, Equador reelegendo Daniel Noboa, Paraguai com Santiago Peña. Mais ao norte, a Costa Rica de Laura Fernández, Panamá, Honduras, República Dominicana. E El Salvador de Nayib Bukele, que Bolsonaro apresentou como o exemplo que inspira o continente inteiro por ter derrotado o crime e devolvido paz às ruas.
Na Venezuela, segundo o candidato, dias melhores surgem no horizonte com Maduro pagando por seus pecados. E quem sabe, perguntou retoricamente, se os cubanos não seriam os próximos? A fala ecoou em meio a especulações sobre futuras ações americanas na ilha. O tom era de inveja dos vizinhos: enquanto eles escolhem liberdade e ordem, o Brasil permanece preso ao passado, afirmou Bolsonaro. Milei, segundo seus assessores, foi o primeiro presidente dessa onda azul que começou em 2023.
Mas a visita não era apenas simbólica. Bolsonaro veio com uma pequena delegação de assessores de comunicação e marketing para promover essa onda azul latino-americana e estreitar relações com os novos governos de direita e extrema direita da região. Há dúvidas, porém, sobre sua presença nas posses de Fujimori no Peru e de la Espriella na Colômbia — cada viagem internacional custa entre dois e três dias fora do Brasil, e a prioridade declarada é a campanha doméstica.
O candidato usou o palco em Buenos Aires para atacar a política externa do governo Lula. Acusou o presidente de se aliar ao Irã contra os Estados Unidos, de se aliar ao Hamas, de aplaudir o Hezbollah. Lembrou que em fevereiro de 2024 Lula comparou a resposta de Israel ao 7 de outubro em Gaza com o Holocausto — uma ofensa, segundo Bolsonaro, à memória de seis milhões de judeus assassinados. E que o Brasil se somou formalmente à ação que acusa Israel de genocídio na Corte Internacional de Justiça.
O resultado dessa escolha, disse, está à vista: não há relação diplomática plena entre Brasil e Israel. O Brasil está sem embaixador em Israel desde 2024. Se vencer a eleição, prometeu, fará como o presidente Tito Asfura de Honduras: receberá as credenciais do novo embaixador de Israel em Brasília no primeiro dia de governo. E entrará imediatamente para o Escudo das Américas lançado por Trump em março.
Bolsonaro também usou o discurso para defender a decisão americana de considerar organizações como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como terroristas. Descreveu um Brasil onde dezenas de milhões de pessoas vivem em lugares com toque de queda imposto pelo narcotráfico, onde é proibido chamar a polícia, onde se paga quota de proteção para sobreviver, onde a facção decide quem entra, quem sai, quem vive e quem morre. Isso não é criminalidade comum, argumentou — é um Estado paralelo, armado, que atormenta compatriotas. É terrorismo. E nenhum país ganha essa guerra sozinho: essas organizações são transnacionais, a droga é produzida em um país, transportada por outro cruzando fronteiras, rios e portos, e o dinheiro sujo é lavado em um terceiro, muitas vezes no sistema financeiro brasileiro.
Nos bastidores, seus assessores reconheciam erros cometidos nos últimos meses, sobretudo o impacto negativo das tarifas de Trump contra o Brasil. A relação com os EUA de Trump é um tema sensível da campanha. Quando o nome de Eduardo Bolsonaro é mencionado, alguns dos assessores mudam de expressão. Sobre a crise com Michelle Bolsonaro, insistiram que está sendo resolvida — o candidato ainda não conversou com a mulher de seu pai, mas sim com o ex-presidente. "Michelle é uma figura importante, isso é reconhecido", disse uma das fontes. A visita aos Estados Unidos em julho para participar das audiências da Seção 301 também está sendo preparada com cuidado extremo.
Notable Quotes
Enquanto nossos vizinhos, um a um, escolhem a liberdade e a ordem, o Brasil ainda permanece preso ao passado— Flávio Bolsonaro
Nenhum país ganha essa guerra sozinho: essas organizações são transnacionais— Flávio Bolsonaro, sobre crime organizado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Bolsonaro escolheu Buenos Aires e um evento da comunidade judaica para fazer esse discurso sobre a onda azul?
Porque precisa falar simultaneamente para dois públicos. Para a direita latino-americana, mostrando que o Brasil é o elo que falta. Para Israel e seus apoiadores, sinalizando que sua política externa seria radicalmente diferente da de Lula.
Ele realmente acredita que a América Latina está toda virando para a direita, ou é retórica de campanha?
Provavelmente ambas as coisas. Os números mostram uma onda real — mas ele está escolhendo quais países contar e como contar. Fujimori no Peru é controversa, Noboa no Equador é moderado. Ele está pintando um quadro mais coeso do que a realidade.
O que significa o Brasil estar "sem embaixador em Israel desde 2024"?
Significa que a relação diplomática está congelada. Não é ruptura formal, mas é um sinal de que as coisas pioraram muito. Bolsonaro está prometendo descongelar isso no primeiro dia.
Por que seus assessores ficam nervosos quando mencionam Eduardo Bolsonaro?
Porque Eduardo é tóxico para essa estratégia. Ele representa os erros do passado — as alianças problemáticas, a falta de cuidado diplomático. Agora estão tentando ser mais calculados.
A campanha dele realmente pode se permitir essas viagens internacionais?
Não, segundo eles mesmos. Cada viagem custa dois ou três dias no Brasil. Então Buenos Aires foi uma exceção calculada — Milei é importante demais para ignorar. Mas Peru e Colômbia podem ficar de fora.
Qual é o risco real dessa estratégia de se alinhar tão explicitamente com Trump?
Que o Brasil fica refém de decisões americanas. As tarifas de Trump já prejudicaram a economia brasileira. Se ele vencer, Bolsonaro terá que entregar — e nem sempre os interesses americanos e brasileiros coincidem.